Conhecimento e inclusão

Jovens traduzem conteúdo acadêmico para a linguagem periférica

Com o objetivo de democratizar a informação e o saber, estudantes como ‘Chavoso da USP’ recriam as teorias acadêmicas lançando mão do dialeto da quebrada

Jeferson Delgado
Com a estética presente nos bailes funks de São Paulo, Thiago Torres ficou conhecido como 'Chavoso da USP'. Estudante de Ciências Sociais, ele possui um canal que já 800 mil visualizações

São Paulo – O estudante Thiago Torres, o “Chavoso da USP”, mostra a possibilidade de chegar à principal universidade pública do país, saindo da Brasilândia, bairro da Zona Norte de São Paulo. Já Marcelo Marques, responsável pelo canal “Audino Vilão“, apresenta a teoria do filósofo Karl Marx por meio de gírias usadas nas favelas de São Paulo.

Para eles, é possível levar à periferia o conteúdo universitário, para além dos muros das faculdades. Com o objetivo de democratizar a informação, jovens ‘chavosos’ criaram canais na internet e traduzem a linguagem acadêmica para o dialeto da quebrada.

De acordo com os estudantes, poder dialogar com uma camada mais ampla da sociedade é o mais importante. “É muito fácil pregar para quem já é crente. Minha ideia é ir além dos alunos das universidades, é trazer o conteúdo da ponte pra cá”, resume Audino Vilão, que cursa Licenciatura em História.

Nietzsche, o ‘rouba brisa’

Com 90 mil inscritos no canal do YouTube, Marcelo quer ser uma porta de entrada para os jovens da periferia na compreensão de textos de filosofia clássica. Para isso, traz as ideias dos pensadores para o cotidiano atual, desde contextualizar a ética de Immanuel Kant no churrasco, até explicar as ideias de Friedrich Nietzsche como “rouba a brisa do rolê”.

“Há quem diz que eu simplifico o tema, mas estou fazendo gente que nunca prestou atenção no bagulho começar a olhar para o assunto. Estou abrindo portas”, defende o youtuber.

Com o visual de funkeiro e com a linguagem informal, Audino é capaz de se comunicar com o público alvo e consegue apresentar os temas aos jovens do bairro até quando vai ao cabeleireiro do bairro.

“Não é um personagem, é minha vivência diária e quero valorizar de onde venho. Durante os vídeos, dá para ouvir os caras cortando giro de moto e o carro do ovo passando. É a ambientação do cotidiano, é representatividade”, afirma.

‘Audino Vilão’ tem 90 mil inscritos no YouTube e busca ser porta de entrada para os jovens da periferia, na compreensão de textos de filosofia (Reprodução)

O chavoso da USP

Trajando uma camiseta de time de futebol, boné de aba torta e seus óculos da Oakley – estética presente nos bailes funks de São Paulo –, Thiago Torres ficou conhecido como “Chavoso da USP”. Estudante de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, ele possui um canal que já tem 800 mil visualizações.

Atualmente, mora em Guarulhos, município da Grande São Paulo. Thiago se popularizou falando ao publicar um texto, no Facebook, sobre a diferenças de realidade entre sua quebrada e a universidade. Negro, periférico e gay, ele busca ser referência para diversas camadas da sociedade.

“É importante a gente ter o máximo de pessoas fazendo o trabalho de democratização do conhecimento. Particularmente, quero chegar em quem não tem acesso a esses assuntos. Por isso, a aparência e linguagem dá uma vantagem nisso. Recebo mensagens de várias pessoas do Brasil que estão motivadas a estudar por causa dos meus vídeos”, explicou.

Apesar de mostrar ser possível sair da escola estadual pública e chegar à universidade, o Chavoso da USP não quer ser exemplo de meritocracia. “Sempre disse que sou contra isso. Vivo numa situação de vulnerabilidade socioeconômica, mas minha realidade não é igual a de todos, porque tive alguém dentro de casa me incentivando e a maioria não tem isso”, explica.

Educação como libertação

Apesar de passarem pelo ensino público estadual de São Paulo – que classificam como “precarizado” –, os dois criadores de conteúdo encontram na escola a motivação para lecionar e possuem o interesse de seguir na docência.

Um dos melhores alunos da sala, Thiago conta que se inspirou nas aulas de Sociologia, onde entendeu suas posições na sociedade. “Tive interesse em virar professor. A minha personalidade traz uma vontade de mudar o mundo e o trabalho de docente, que é de formiguinha, faz parte disso. São muitas vidas que você toca ao longo da carreira”, sonha.

Por outro lado, Marcelo lembra que a vontade em se aprofundar em História surgiu com seus brinquedos de dinossauro, quando criança. Entretanto, na sétima série, foi quando se apaixonou pela profissão.

Audino se diz defensor da metodologia de Paulo Freire, como a relação horizontal na interação educador-educando. Ele conta que já aplica em seus vídeos, mas quer levar à sala de aula. “Eu adoro Paulo Freire e defendo totalmente a docência horizontal. É preciso trocar ideia com a rapaziada como um parceiro, sem o pódio de professor. É uma troca conjunta e eu quero levar para a profissão.”

Visão progressista

Com a ascensão do fascismo e conservadorismo, após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018, os estudantes defendem uma visão progressista e tentam abordar a política nos conteúdos publicados.

O Chavoso da USP, por exemplo, fala sobre a relação da religião e a esquerda. Em um de seus vídeos, explica a trajetória de Jesus de Nazaré, por meio da ótica sociopolítica. “Eu quero ajudar a plantar uma semente onde a esquerda não está chegando, mas não quero fazer um trabalho de base, pois é o papel das organizações políticas. Quando faço um vídeo sobre Jesus, como fiz, mostrando que foi assassinado por contrariar autoridades, passo a minha visão de esquerda sobre o assunto”, explica.

Ao falar sobre as ideias de Karl Max, Audino traduz a teoria do filósofo alemão para as gírias da quebrada: “É tudo nosso, e o que não for nosso, nóis toma”, resume no vídeo em que contextualiza o livro para a realidade dos trabalhadores, como os entregadores de aplicativo.

“No vídeo sobre Marx, teve uma galera de direita que elogiou o trabalho, falando que conseguiram entender suas propostas. Foi um trabalho didático. Teve vários moleques da quebrada que falou ‘essa é a fita mesmo’, que nunca leu Marx, mas botaram fé nas ideias ditas”, finaliza.