"Mercadoria"

Novo ministro defende privatização completa e vê MEC como balcão de negócios

Para Renato Feder, as universidades têm de ser privatizadas e o Ministério da Educação não deve fazer nada além de distribuir vouchers e cuidar de rankings

Reprodução/Youtube
No Paraná, o novo ministro foi denunciado no Ministério Público por maquiar dados do Ideb

São Paulo – Empresário do ramo de informática que fornece para muitas redes públicas de ensino do país e ex-secretário de Educação do governo de Ratinho Júnior (PSD), no Paraná, o novo ministro da Educação escolhido por Jair Bolsonaro, Renato Feder, tem olhar estritamente empresarial sobre a educação pública. No livro Carregando o Elefante – Como Transformar o Brasil no país mais rico do mundo, os autores, Feder e Alexandre Ostrowiecki – seu sócio no livro e nos negócios – têm a pretensão de ensinar o caminho das pedras para o enriquecimento do país. E nas lições que pretende dar, a educação deve ser reduzida a mercadoria.

Para o novo titular, o Ministério da Educação deve ser um órgão que se ocupe somente em comandar o programa nacional de vouchers e os sistemas de testes e ranqueamento das escolas e universidades.

‘MEC deve ser um guichê’

Ou seja, em vez de elaborar e executar a política nacional de Educação, articulando todo o sistema educacional brasileiro, desde a infantil até profissional e tecnológica, o ministério que agora vai comandar deve apenas se tornar um guichê. Nesse balcão, seriam comprados e distribuídos os tíquetes para os pais pagarem a escola de seus filhos.

Além disso, Feder questiona o papel do Estado para gerir as escolas. O controle público, para ele, deve ser substituído por empresas que vão pagar os professores, cuidar da manutenção e até mesmo escolher o material didático. Isso pressupõe que os currículos e o projeto pedagógico também devem ser controlados por empresários.

Privatização completa

Logo, ele defende a privatização completa do ensino superior, do ensino técnico, fundamental e pré-escola. Isso, claro, depois de passar por uma fase de cobrança de mensalidades.

Na receita do escolhido de Bolsonaro, a saúde também tem de ser totalmente privatizada. Nesse caso, a população que hoje depende exclusivamente do SUS, não teria mais postos de saúde e hospitais para recorrer. “Cada pessoa deve escolher um plano de saúde e usá-lo para satisfazer suas necessidades de saúde”, defende.

Desprezo aos professores

O novo ministro da Educação não perde a oportunidade de espezinhar os professores brasileiros, que ele chama de “semianalfabetos”.

A desqualificação não para por aí. Para Feder, o magistério brasileiro é formado por pessoas descomprometidas com o ensino, que escolheram a profissão porque não tinham capacidade de “ser algo melhor na vida”. Dá, assim, sinais claros de desconhecer a rede pública. Do contrário, saberia que em muitas escolas há professores que, mesmo com mestrado e doutorado, optaram por permanecer em sala de aula.

Lição sem moral

O empresário, tão preocupado com rankings e resultados foi denunciado ao Ministério Público do Paraná em novembro. Ele e seu então chefe, o governador Ratinho Junior, foram intimados a responder sobre a tentativa de fraude no sistema educacional ao maquiar resultados do Índice do Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A denúncia foi feita por professores.

Segundo a imprensa do Paraná, na prática, o secretário mandava excluir do sistema alunos com baixo rendimento e pouca frequência, e mantinha apenas os de melhor rendimento e assiduidade. Com isso, aumentaria o índice de aprovação e, consequentemente o Ideb, garantindo o cumprimento das metas.

Dono da Multilaser Industrial S.A, empresa do setor de informática e tecnologia, Feder fornece seus produtos a diversas redes de ensino do país, inclusive vinculada diretamente ao MEC, como é o caso do Instituto Federal Catarinense – o que pode configurar conflito de intersses.

Além disso, sua empresa responde por crimes contra a ordem tributária no estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Edição: Fábio M. Michel