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Venda de terreno de escola em bairro nobre de São Paulo afetará alunos e famílias pobres

Comunidade da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria Antonieta D’Alkimin Bastos, na Vila Olímpia, também teme venda do terreno da escola
Publicado por Rodrigo Gomes, da RBA
17:38
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FAMÍLIAS E COMUNIDADE ESCOLAR DA EMEF D'ALKMIN

Estudantes, docentes e pais se uniram contra a venda do terreno da Emef que fica na Vila Olímpia

São Paulo – Alunos, pais e professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professora Maria Antonieta D’Alkimin Bastos, que fica na esquina das ruas Casa do Ator e Baluarte, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, protestaram hoje (1º) contra a possibilidade de venda do terreno da escola, autorizada por uma lei sancionada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB).

No local estudam 524 alunos, de 6 a 14 anos. A escola é a única unidade municipal do bairro e atende, principalmente, filhos de trabalhadores da região, que não têm como deixar as crianças estudando perto de casa, por não ter com quem deixá-las fora do horário escolar.

“É um ato absurdo, desleal e desumano. A demanda aqui não é dos moradores da região, que são de classe alta, mas sim dos filhos dos trabalhadores que vêm de vários locais (para trabalhar na localidade) e trazem os filhos, porque não se sentem seguros para deixar eles estudando no bairro onde moram. É muito triste”, comentou Gilmara Sângela, mãe do estudante Felipe, de 9 anos. Para ela, o único interesse na venda do terreno da escola é ser um espaço em área nobre, “muito visado”.

O professor Alexandre Pires de Oliveira explicou que, inicialmente, o terreno que seria vendido era apenas do escola de saúde, área anexa da escola. “Fui no site da Câmara e levantamos todos os documentos do Projeto de Lei 611/2018. Na descrição da área não constava apenas a saúde, mas todo o terreno, incluindo nossa escola. Estávamos relativamente mais tranquilos nesse meio tempo porque, em maio, aprovou-se um substitutivo que retirava a área de nossa escola. Esse substitutivo foi o que entrou na primeira votação”, contou.

Substitutivo

No entanto, antes da segunda votação, o governo Bruno Covas apresentou um novo projeto substitutivo, que aumentou de sete para 41as áreas à venda. Entre elas estava novamente o terreno da Emef. “Ficamos sabendo através de reportagem”, completou Oliveira.

A escola foi premiada ontem no 7º Prêmio Educação em Direitos Humanos, na categoria Grêmio Estudantil, com o projeto “Você Não Está Sozinho (a): Prevenção ao Suicídio no D’Alkimin”. Estudantes e professores aproveitaram o espaço para protestar contra o projeto de venda do terreno de escola.

A Escola Municipal de Ensino Infantil (Emei) Gabriel Prestes, que atende 205 crianças de 4 e 5 anos, na região da Consolação, também está na lista de áreas a serem privatizadas. Desde a semana passada, pais de alunos da Emei vêm se mobilizando contra a venda do terreno da escola. A unidade está inserida na área da Chácara Lane, terreno que pertencia ao missionário presbiteriano norte-americano George Chamberlain, cuja arquitetura do casarão está totalmente preservada. O local foi tombado pelo patrimônio histórico municipal em 2004, mas incluído no PL 611/2018, aprovado pelos vereadores e sancionado por Covas no dia 19.

Mãe de um aluno da Emei, a cientista social Maia Gonçalves Fortes diz que os pais vão tomar todas as medidas cabíveis para evitar o fechamento e a venda do terreno de escola. “A gente ficou muito chocado com todo esse processo. E, apesar das declarações do diretor da SPParcerias, de que não existe intenção de vender agora, o que aconteceu foi deixar a escola em uma situação completamente vulnerável. Independentemente do interesse do Bruno Covas, qualquer outro prefeito que vier tem autorização pra vender a escola. Foi uma postura totalmente irresponsável do prefeito”, afirmou.

Na semana passada, a comunidade escolar esteve na Câmara Municipal, distribuindo uma carta aos parlamentares, pedindo a revogação do PL 611. Também foram ao Ministério Público apresentar uma representação contra a prefeitura por colocar as escolas à venda. Eles ainda foram recebidos pelo secretário-executivo do gabinete do prefeito, João Cury, que disse que o governo ia analisar os pedidos de exclusão das escolas. O vereador Celso Gianazzi (Psol) anunciou, depois, que o governo ia propor uma emenda legislativa para atender à reivindicação.

Emenda

A informação foi confirmada pela vereadora Juliana Cardoso (PT). “O governo vai aceitar a mudança para excluir as escolas. Ainda está sendo acordado se vai incluir em projeto em andamento ou se vai fazer outro. Queremos que seja o mais breve possível”, afirmou. No entanto, a emenda será incluída em um projeto sobre concessão de terminais de ônibus e de uma área para o Centro de Cultura Judaica de São Paulo, proposta que não é de consenso na Câmara. O texto deve ser analisado pelos vereadores na próxima quarta-feira (6).

Além de abrir possibilidade para venda do terreno de escola, algumas áreas de praças foram incluídas no projeto de Bruno Covas. É o caso de um terreno de 12,5 mil metros quadrados, na esquina das Ruas Joseph Nigri e Nicholas Boer, que fica bem ao lado do condomínio privado Jardim das Perdizes, na Água Branca, região centro-oeste da cidade. Outras áreas verdes liberadas para venda estão na Avenida Jornalista Roberto Marinho e na Rua Carlos Weber.

Prédios da Secretaria Municipal da Educação, nas Ruas Diogo de Faria, na Vila Mariana, e Casimiro de Abreu, no Campo Belo, também foram alienados. Este último é o depósito da Coordenadoria dos Núcleos de Ação Educativa (Conae). Até mesmo o prédio sede do Conselho Municipal da Educação, na Rua Taboão, 10, no Sumaré, foi liberado para venda.

Na periferia, a maior parte dos terrenos liberados para venda é de áreas grandes, utilizadas como depósitos pelas subprefeituras. É o caso do terreno da Rua João Bernardo Vieira, 108, pertencente à Subprefeitura do Campo Limpo. Ou o número 822 da Avenida Ragueb Chohfi, que funcionava como base do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pertencente à subprefeitura de São Mateus. Mesmo caso da Avenida Osvaldo Valle Cordeiro, que funciona como ecoponto, depósito e estacionamento de caminhões da subprefeitura Itaquera.

Outra área que foi colocada à venda é o terreno da Rua Cândido Xavier, 577, onde funcionou o Sacolão das Artes. Uma ocupação cultural localizada no Parque Santo Antônio, na periferia da zona sul da cidade, que iniciou suas atividades em 2007.

O espaço funcionou por 10 anos, sendo sede de muitos coletivos de cultura e também espaço de formação para jovens da periferia. Em março do ano passado, a subprefeitura do M’Boi Mirim fechou o local alegando a necessidade de reformas. Atualmente, o local está em reforma para implantação de um supermercado.

O governo Bruno Covas estimou em cerca de R$ 600 milhões o valor dos 41 terrenos municipais, incluindo as escolas à venda. A soma das áreas é de aproximadamente 300 mil metros quadrados, equivalente a 40 campos de futebol. A prefeitura não se manifestou sobre as escolas e outros equipamentos públicos que se encontram nos locais.