Home Educação Dia do Professor: ‘Temos sido alvos, quando deveríamos ser ouvidos’
15 de outubro

Dia do Professor: ‘Temos sido alvos, quando deveríamos ser ouvidos’

Sem motivos para comemorações, representantes da categoria travam resistência contra retrocessos. "Ninguém vai tirar a educação, aquela em que o aluno e o professor estejam juntos"
Publicado por Clara Assunção
11:49
Compartilhar:   
TwitterWhatsappFacebook   454 pessoas curtiram isso.
Reproduçano

Bebel e Ausonia criticam ensino à distância e em domicílio, pedagogia da mordaça e ataques Paulo Freire

São Paulo – Ausonia Donato escolheu ser educadora logo cedo preocupada em contemplar os contextos sociais e de vida de cada aluno no currículo escolar. Formada em Pedagogia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), encontrou apoio na na teorias e práticas de Paulo Freire, e hoje dirige o Colégio Equipe, na capital paulista. Maria Izabel Noronha, a Bebel, também escolheu o ofício para conjugar educação com inclusão, que depois a levou a lutar para melhorar as condições de trabalho da categoria. Mas, nesta quinta-feira, 15 de outubro, Dia do Professor, as educadoras têm uma leitura crítica sobre a situação da carreira – não por culpa dos profissionais, mas da forma como sua responsabilidade social é tratada pelo poder público e por parte da sociedade.

De um lado, todo o legado do patrono da educação no Brasil é atacado, enquanto docentes e alunos são perseguidos em seus papéis e direitos. “Nós não temos o que comemorar”, resume Maria Izabel Azevedo Noronha, a Bebel, presidenta do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e deputada estadual (PT).

Em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, da Rádio Brasil Atual, as professoras refletem sobre o atual panorama de ensino no país, marcado pelo avanço de projetos de lei que atentam contra a liberdade da categoria, impulsionam o ensino à distância e desvalorizam a atuação dos profissionais da educação, inseridos ainda em um cenário de cortes de verbas públicas que afetam principalmente esse setor.

“A gente tem de se manifestar sobre as baixas condições de trabalho que temos, a superlotação de salas de aulas, a violência nas escolas (…) Nós temos sido alvos de muita coisa quando nós deveríamos, na verdade, ser mais ouvidos por todos os governantes”, afirma Bebel.

Numa das pontas da relação entre escola e professores, os alunos parecem notar a derrocada imposta pelos próprios legisladores sobre a profissão, como aponta pesquisa da Fundação Victor Civita (FCV) e da Fundação Carlos Chagas (FCC) com estudantes do terceiro ano do ensino médio. Na busca por um ofício, a pedagogia ou algum tipo de Licenciatura estão entre as menos citadas, apenas 2% listam-as como primeiras opções de carreira.

Ausonia lamenta esse atual momento de ofensiva acrescentando críticas diretas aos projetos “escola sem partido” homeschooling, prática que permite o ensino dentro de casa. “Completamente equivocado, porque se a gente achasse que a escola é um espaço para desenvolver exclusivamente os aspectos cognitivos, de conhecimento, de habilidade mentais e etc, está bom, mas a escola tem que trabalhar, e essa é uma das dimensões mais importantes do currículo, o que são os valores”, contesta a educadora ressaltando as lições de Paulo Freire para uma pedagogia que eduque as crianças e jovens relacionando o que elas precisam aprender com o que já sabem.

“Tudo remete a ele, tudo, sempre penso assim. Sócrates foi quem trouxe críticas e umas mudanças, pronto, ficou lá, daí vem ele. Depois de Paulo Freire foi impossível ver a educação de um jeito neutro, tudo o que se está desvalorizando. É impossível não valorizar a culturas dos alunos”, adverte a professora que vê em todo esse projeto o intuito de transformar os cidadãos em meros consumidores e objetos sem reflexão.

Confira a entrevista da Rádio Brasil Atual