Análise

É preciso enfatizar a importância da educação na melhora econômica da vida

Ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro defende outra abordagem no enfrentamento de propostas como a Escola sem Partido

divulgação / alesp
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Janine: “O novo governo quer dizer que evolucionismo e criacionismo são opiniões diferentes. Não são”

São Paulo – “O fator que mais faz as pessoas crescerem na vida é a educação. Mesmo quando não é maravilhosa, mais tempo de formação já impacta na vida. Melhora salários, função exercida, qualidade de vida. Permite que as pessoas escolham melhor, rompam preconceitos, decifrem melhor o que é dito, a demagogia, a corrupção. Povo educado decide melhor. Isso é o que assusta a extrema direita que defende o Escola sem Partido”. A análise é do ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro.

Em aula pública com o tema Educação e Democracia, nessa quinta-feira (21) na Assembleia Legislativa de São Paulo, o professor defendeu que a extrema- direita quer justamente desmontar os avanços na educação nos últimos anos. “Na discussão do Plano Nacional de Educação, o debate ficou preso a factoides: ideologia de gênero e doutrinação. Isso não existe. Não se debateu a fundo temas importantes, como financiamento, valorização dos professores, desenvolvimento dos alunos. Quem foca nos factoides tem medo do poder emancipador da educação”, afirmou.

Para ele, a oposição a esse tipo de projeto deve evitar a discussão sobre liberdade de expressão. “O que o professor faz em sala de aula não é dar opinião. ‘Dois mais dois igual a quatro’ não é opinião, é saber científico. O novo governo quer dizer que evolucionismo e criacionismo são opiniões diferentes. Não são. Um deles é conhecimento científico. Se quiser ensinar criacionismo em aula de poesia ou religião tudo bem”, afirmou.

Janine lembrou que uma das principais descobertas de seu tempo no Ministério da Educação foi o impacto da desigualdade no desempenho dos alunos. Ele relatou como, ao relacionar os níveis de desenvolvimento econômico com as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se percebia que havia boas escolas, com boas iniciativas, em locais muito pobres. E escolas ricas com desempenho insatisfatório.

“Uma escola do mais baixo nível social, consegue chegar a 420 (pontos na nota), em média. Isso é estatística. E quer dizer que se um aluno dessa escola tira 500, ele se saiu bem. Mas se um aluno de escola rica tira 600 ele não foi bem. Isso é importante para ser analisado. É uma demonstração de como a desigualdade afeta o desenvolvimento dos alunos. E como você lanceta a desigualdade? O primeiro passo é a alfabetização na idade certa”, argumentou o ex-ministro.

Ele lembrou que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) tem em mãos um projeto pronto, baseado no modelo desenvolvido no Ceará, no governo de Cid Gomes, para efetiva alfabetização de crianças nos três primeiros anos do ensino. “É um tiro no pé o novo governo focar a atuação do MEC nesses factoides de ideologia de gênero e doutrinação. Qual o objetivo disso? Sabotar a educação. Mas está na mesa um programa pronto, avaliado, comentado, que pode fazer muito. Que é o alfabetização na idade certa.E não essa bobagem que estamos vendo o MEC fazer”, afirmou.

O ex-ministro ressaltou que houveram muitos avanços no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas que houve um momento em que foi preciso escolher entre melhorar a qualidade da educação, e não incluir todas as crianças, e garantir a inserção da maioria e avançar na qualidade aos poucos. “Em 1946 se tornou obrigatória a educação nos quatro primeiros anos. Em 1967, subiu para os oito primeiros anos. Mas só no governo Fernando Henrique Cardoso conseguiu se universalizar o ensino fundamental. Em 2009, o governo Lula torna a frequência de todo ensino básico obrigatória. E isso foi um grande avanço e precisamos continuar nesse caminho”, afirmou.