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manobra violenta

Em e-mail, diretor da Etesp incentiva conflito entre alunos para desocupar escola

Tática já foi usada em outras ocupações, denuncia Comitê de Mães e Pais em Luta. “Este para mim é o começo do Estado de exceção”, diz mãe
por Sarah Fernandes, da RBA publicado 13/05/2016 19h55
Tática já foi usada em outras ocupações, denuncia Comitê de Mães e Pais em Luta. “Este para mim é o começo do Estado de exceção”, diz mãe
Divulgação/ O Mal Educado
Estudantes

Estudantes, pais, professores se reúnem em frente a DP contra a prisão alunos da Etesp

São Paulo – O Comitê de Mães e Pais em Luta, que apoia os estudantes secundaristas nas reivindicações de melhoria da qualidade da educação estadual de São Paulo, denunciou que o diretor da Escola Técnica Estadual de São Paulo (Etesp), Nivaldo Jesus dos Santos, enviou um e-mail a professores incentivando o confronto entre alunos para promover a desocupação do prédio. A manobra vem ocorrendo em outras escolas ocupadas.

No e-mail, obtido pela Agência Democratiza, o diretor afirma que apesar de a superintendência do Centro Paula Souza não incentivar o confronto, a autarquia teria confidenciado para diretores que “se os alunos do noturno desejarem assistir aula, que entrem em confronto com os manifestantes garantindo o direito as aulas, mas que os professores e a equipe de gestão procurem não se envolver, deverá ser entre alunos.” O diretor e a autarquia foram procurados pela agência, porém, ela não obteve retorno.

A mensagem foi encaminhada em 4 de maio para o professor Julius Cesar José Capellini. Na resposta, o professor reafirmou que o comunicado oficial do Centro Paula Souza recomendava evitar o conflito. Segundo o item 3 do documento, a autarquia pede para se “evitar a ocorrência de conflitos com alunos/manifestantes, tendo sempre como diretriz as disposições da legislação institucional e demais normas aplicáveis”.

Nesta semana, pais e alunos denunciaram que uma situação parecida ocorreu durante a desocupação da Etec Basilides de Godoy, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. Um grupo de alunos contrários à ocupação teria entrado no prédio e encurralado os ocupantes, forçando-os a se retirarem da escola. Em seguida iniciaram um quebra-quebra no prédio para incriminar o movimento, de acordo com o Comitê de Mães e Pais em Luta.

A Etesp foi ocupada por estudantes secundaristas no último dia 2, em protesto pela regularização da entrega da merenda escolar e pelo corte de verbas. Hoje (13), por volta de 6h, o diretor da unidade chegou ao local acompanhado de policiais militares, que invadiram a escola sem mandato e retiraram os alunos, conduzindo-os para delegacias. Os pais foram impedidos de ver os filhos até a chegada de mais manifestantes, que pressionaram a entrada.

A ação ocorreu simultaneamente em duas diretorias de ensino ocupadas e em uma escola técnica de Guarulhos. Os policiais afirmaram que possuíam um decreto que permitia a desocupação da escola e a condução de menores para delegacias, o que fere o Estatuto da Criança e do Adolescente. Os estudantes foram liberados e os dois que tinham mais de18 anos tiveram de pagar fiança de meio salário mínimo cada um.

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“Este para mim é o começo do Estado de exceção. Policiais podem entrar sem mandato, prender menores e impedir os pais de vê-los no momento. É um quadro muito preocupante”, diz uma das integrantes do Comitê de Mães e Pais em Luta, Rosimari Segurado. “De manhã eu fui para a 3ª Delegacia de Polícia, no centro, com mais uma professora, encontrar os estudantes que ocuparam a Etesp. Me identifiquei como mãe e mesmo assim não me deixaram entrar. Só quando chegaram outros pais, alunos e membros da Defensoria Pública é que consegui ter acesso aos estudantes. Isso é absolutamente ilegal.”

Um grupo de alunas que foram encaminhadas para a 23ª Delegacia de Polícia denunciou que os policiais ameaçaram colocar as meninas na mesma cela que estupradores. “Antes de irem pra lá, foram num ônibus da PM em direção ao 91° DP (na Vila Leopoldina) e chegando lá os policiais mandaram as meninas descerem ‘porque o camburão de estupros chegou’. Forçaram elas a descerem e os policiais, todos homens, começaram a humilhar, tirar fotos e constranger elas”, segundo relato postado na página Não Fechem Minha Escola, no Facebook.

Ontem, o diretor da Etesp já havia proibido a entrada no prédio. Apenas a Polícia Militar está autorizada. Três advogadas conselheiras municipais dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes foram até o local, mas foram impedidas de entrar. A energia do prédio chegou a ser cortada, e acabou religada no final da tarde.