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Desigualdade

Com obras acabadas, creche no extremo sul de São Paulo segue fechada

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, as obras no prédio não foram aprovadas. Bairro tem 4 mil crianças em idade escolar e apenas uma creche. Demanda por escola de educação infantil vem desde 2009
por Sarah Fernades, da RBA publicado 27/11/2014 10h29
Segundo a Secretaria Municipal de Educação, as obras no prédio não foram aprovadas. Bairro tem 4 mil crianças em idade escolar e apenas uma creche. Demanda por escola de educação infantil vem desde 2009

São Paulo – Com apenas uma creche em funcionamento e pelo menos 4 mil crianças em idade escolar, os moradores do Jardim Gaivotas, no extremo sul de São Paulo, aguardam a abertura da segunda escola pública de educação infantil há quase três meses. Todas as obras necessárias para que o prédio fosse adaptado para funcionar como creche já estão prontas, porém, a prefeitura não libera a abertura. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, as adequações não foram aprovadas.

Antônio Rodrigues, proprietário do imóvel onde funcionará a creche João de Tarso, em convênio com a instituição social Lar Altair Martins, afirma que não foi informado sobre os motivos pelo quais a escola não foi aberta no prazo, inicialmente marcado para 2 de setembro. “Investi para fazer todas as adaptações necessárias, o engenheiro aprovou e a prefeitura não assina o contrato. Eu morava aqui, no andar de cima, e embaixo funcionava meu local de trabalho. Estou no prejuízo”, afirma.

A Secretaria Municipal de Educação limitou-se a afirmar em nota que a supervisão escolar da Diretoria Regional de Educação Capela do Socorro, responsável pela área, não aprovou as adequações feitas no prédio. "Para a celebração do convênio, o local precisa estar adequado ao atendimento das crianças na faixa etária de creche."

Com as obras, a casa ganhou 14 salas de aula, dois banheiros infantis, uma cozinha e um refeitório. A escola terá capacidade para receber 157 crianças. A primeira creche do bairro foi aberta em junho deste ano, com capacidade para 168 bebês de zero a 3 anos. As negociações para a inauguração da escola começaram em 2009, ainda na gestão de Gilberto Kassab (PSD), porém, a oportunidade concreta só surgiu em setembro de 2012, quando foi anunciado um convênio com uma organização social para oferecer o serviço.

Com a lentidão, o problema dos moradores, em especial das mães, continua o mesmo: a maioria delas acaba ficando em casa, sem possibilidade de trabalhar ou estudar. As poucas que conseguiram uma vaga em creches de bairros vizinhos, como Jardim Cocaia e Cantinho do Céu, gastam em média duas horas por dia no trajeto, feito a pé. Algumas conseguem pagar em média R$ 70 em transporte escolar privado e há ainda as que contratam vizinhas para tomar conta dos bebês.

É o caso da dona de casa Jaqueline Bezerra, de 29 anos, mãe de três crianças (uma delas em idade de creche) e gestante do quatro filho. “Eu não fiz inscrição na creche porque o mais comum é que as crianças sejam chamadas em outros bairros e eu não tenho condições de pagar pelo transporte. Gostaria de poder trabalhar, mas sem a creche não posso nem fazer bicos”, lamenta.

O garçom Fábio Nunes e a dona de casa Elaine dos Santos enfrentam o mesmo problema com seus três filhos. “Todos estão aguardando uma vaga, mas ainda não foram chamados. Esperamos que isso ocorra logo e que não seja nos bairros vizinhos, do Cocaia ou do Xique-Xique, porque não teremos dinheiro para o transporte. Espero começar a trabalhar em breve, porém, preciso da creche, porque não podemos pagar uma pessoa para tomar conta das crianças”, diz Elaine.

Na cidade de São Paulo, 225.806 crianças aguardavam por uma vaga em creche em setembro, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação. O prefeito Fernando Haddad comprometeu-se, em seu Plano de Metas, apresentado em 26 de março de 2013, a criar 150 mil vagas para creche e pré-escola (o equivalente a toda demanda na época) até o final da gestão.

Segundo o estudo “Educação e Desigualdade na Cidade de São Paulo”, lançado no último ano pela organização não governamental Ação Educativa, a taxa de atendimento em creches na idade adequada é consideravelmente menor nas periferias da cidade do que no centro. No Butantã, por exemplo, a taxa de atendimento em creches é de 85% contra 12,3% no Jardim Ângela ou 14,1% em Marsilac, ambos na zona sul.

A ONG estima que uma criança da periferia pode ter até seis vezes mais dificuldade de conseguir uma vaga em creche do que uma criança de regiões mais abastadas da cidade.