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Professores de comissão do Senado vão a Portugal discutir simplificação de acordo

Dificuldade para absorção das novas regras levou o Brasil a prorrogar por três anos, até janeiro de 2016, sua implementação
por Redação RBA publicado 12/11/2013 10h58, última modificação 12/11/2013 12h45
Dificuldade para absorção das novas regras levou o Brasil a prorrogar por três anos, até janeiro de 2016, sua implementação
Imagens USP
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Ensino da ortografia poderia ser reduzido de 400 para 150 horas com simplificação

São Paulo – Os professores Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto, integrantes do grupo de trabalho criado dia 1º de outubro na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado, estarão neste mês em Portugal para discutir a simplificação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Carregam na bagagem as dificuldades enfrentadas no Brasil para o aprendizado das novas regras e pretendem debater as propostas de mudanças com especialistas lusos.

Até março de 2015, os professores devem apresentar uma proposta à CE. O documento será entregue ao Executivo para fazer a discussão com os outros países de língua portuguesa (além de Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, além de Goa, na Índia). Antes, em setembro de 2014, em Brasília, um simpósio linguístico-ortográfico fará o debate entre representantes de todas essas nações.

As regras do acordo foram discutidas inicialmente em 1975 e assinadas em 1990. Após um longo período de transição, a implementação no Brasil estava prevista para janeiro de 2013, mas a dificuldade foi tamanha que a Casa Civil prorrogou, por decreto, o prazo por três anos, para janeiro de 2016. Até lá, convivem as duas regras.

O adiamento da adoção ocorreu também em Portugal, onde há diferentes posicionamentos no meio acadêmico, com alguma defesa de que não haja acordo algum ou que seja simplificado e ainda que valham apenas as regras portuguesas. No entanto, entre os demais países alguns apenas ratificaram o acordo sem definir quando o mesmo entrará em vigor e outros sequer assinaram o documento.

Segundo Pimentel, a demora na compreensão e na aceitação das regras reflete a dificuldade de unir a grafia, que é o objetivo do acordo. Para ele, só uma aproximação é possível. “Unificar a grafia seria um pouco irreal. Mas é possível aproximar as grafias. É preciso que a partir de agora as discussões sejam mais abertas”, propõe.

Os professores querem formar uma rede de contribuição com academias de letras, universidades e especialistas. Para tanto, Pimentel sugere que todos os mestres dediquem o próximo semestre letivo para debater o acordo e soluções para sua simplificação.

Também com esse objetivo, Pimentel colocou no ar na última semana o site www.simplificandoaortografia.com, para esquentar o debate e colher apoio, por meio de um abaixo-assinado, para a revisão do acordo. O documento já tem pouco mais de 30 mil assinaturas. A discussão está aberta a qualquer grupo interessado.

“A proposta é simplificar de forma eficaz as regras ortográficas para aproximar as culturas lusófonas e também para facilitar o aprendizado”, observou Pimentel. Segundo ele, a simplificação resultaria na redução de 400 horas para 150 horas o ensino da ortografia. “Seria uma forma de baratear a educação e promover inclusão social, com a eliminação do analfabetismo”, diz.

Sugestões

Pimentel critica o fato de as regras estarem baseadas em uma didática antiga de regras e exceções. Uma de suas propostas para a simplificação do acordo ortográfico é a de que o verbo ‘parar’ mantenha o acento agudo que o diferencia da preposição ‘para’. O professor reforça o que já é senso comum, a estranheza de frases como ‘Maria para para conversar’ depois da queda do acento. Ele também faz a defesa em relação à palavra fôrma, cujo acento é facultativo pelas novas regras quando há duplo sentido. “Tem de ter acento sempre, em qualquer caso”, observa.

Mas o grande vilão da ortografia continua sendo o hífen. Se as regras já eram confusas, ficaram piores. Se antes das novas regras o micro-ondas levava hífen, agora não mais. E para quem aprendeu, desaprender para aprender de outro modo fica mais difícil. “O hífen está mal colocado porque não foi feito nenhum estudo. Precisamos usar a ciência a serviço do aprendizado”, observa Pimentel. Para ele, as regras devem ser entendidas, não decoradas. “Você não pode ensinar se não houver coerência.” Afinal, questiona ele, como compreender por que super-homem tem hífen e desumano não. "É preciso acabar com essas nuances ilógicas."

O professor, que há 50 anos, leciona língua portuguesa, teoria literária e análise de texto, confessa que também tem suas dificuldades, apesar da experiência: sua maior dúvida sempre foram as palavras com as letras g e j, além das que levam x ou ch. E qual é o certo mesmo? Berinjela ou beringela?

Com informações da Agência Câmara