Profundidade

Brasil precisa mais que renda mínima e taxação de fortunas para combater desigualdade, diz Eduardo Moreira

Em debate com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, economista afirma que medidas pontuais nem sempre se descolam dos interesses neoliberais

(Vilar Rodrigo/wikimedia commons)

São Paulo – O problema da desigualdade social no Brasil não vai ser resolvido apenas com medidas pontuais, por mais que elas sejam necessárias. É preciso ir além, mexer nas estruturas econômicas e sociais que perpetuam a grande diferença de qualidade de vida entre pobres e ricos. Foi o que apontou o economista Eduardo Moreira, convidado do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), Wagner Santana, o Wagnão, em live realizada na terça-feira (13).

Wagnão introduziu o debate destacando que a desigualdade social não está presente apenas no bolso. “Muitas vezes as pessoas associam desigualdade a um conceito econômico. Se uma pessoa ganha um salário mínimo ou nem isso, ou se ganha 30 salários. Mas a gente sabe que não é isso. Nós temos elementos de desigualdade habitacional, alimentar, sanitária, educacional, de oportunidade de trabalho, de acesso à saúde, mobilidade, cultura, gênero, raça, renda, regional, tributária e assim vai.”

Antes de passar a palavra para Eduardo Moreira, o presidente do sindicato lembrou que o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo. “Só não somos mais desiguais que a África do Sul, Namíbia, Zâmbia, República Centro-Africana, Lesoto e Moçambique. Não é para os nossos amigos hermanos da América Latina que a gente tá perdendo, não é para os hermanos da América Central. Estamos perdendo para economias muito frágeis da África”, destacou.

Desigualdade é o problema

Eduardo Moreira deu sequência acrescentando que “em alguns índices, por exemplo na desigualdade de renda, o Brasil é o país mais desigual do mundo democrático. Tem outro índice, que mede um pouquinho diferente, em que o Brasil só perde para Botsuana”.

Logo a seguir, o economista refutou um dos argumentos neoliberais mais comuns sobre o tema, de que desigualdade não é o problema, o problema é a pobreza. “Tem todo aquele argumento de que é só a gente subir a maré, deixar quem é bilionário, bilionário, e só fazer quem ganha menos, ganhar mais. Matematicamente, não fecha a equação se você não tirar de pessoas que acumulam tanta riqueza pra distribuir a renda.”

Para explicar, ele faz a conta: “No Brasil, os 50% mais pobres ficam com 10% da renda gerada. A gente tá falando de 105 milhões de pessoas. Elas ganham, em média, em torno de R$ 500. Se a gente colocar cerca de mais R$ 1 mil por mês, vezes 12 meses, dá R$ 1,230 trilhão. Só que isso são 10% do que você tem de gerar a mais. Quanto que são os 100%? Vai dar cerca de R$ 12 trilhões. Então, o Brasil teria de ir para um PIB de R$ 20 trilhões. Se tudo der certo e a gente começar a crescer 3% ao ano, todo ano, em décadas a gente não chega”, conclui. “É impossível você resolver a questão do povo pobre brasileiro, se não mudar essa parte da equação que é os 50% mais pobres ficarem com só 10% da renda. A gente tem de atacar a desigualdade para resolver a pobreza”.

Moreira destacou ainda que o valor de R$ 1,5 mil por mês é um número aleatório, um “chute”, apenas para dar referência. “Só um número para ter na cabeça, provavelmente chegaríamos a conclusão de que (esse valor) não daria a dignidade que a gente acha que todo mundo deveria ter”, completou.

Abalar as estruturas

O economista segue o raciocínio afirmando que não existe democracia saudável onde a desigualdade social é grande. “Não há nenhum país do mundo onde as duas coisas andem juntas. Quando mais desigual, mais quem concentra riqueza, concentra poder. Por exemplo, poder político. Aí eles usam esse poder para criar cada vez mais dificuldade para que essas pessoas mais pobres, ou microempresários, ou que estão começando as carreiras, possam competir com elas. Elas criam barreiras, muralhas em torno de seus impérios.”

Na esteira da fala de Eduardo, Wagnão lembrou recente levantamento da revista Forbes, que mostra que o Brasil passou a ter 20 novos bilionários no ano passado, mesmo em tempos de pandemia. “Foi de 45 pra 65. Era uma quantidade de dólares acumulados da ordem de 120 bilhões e passou para 290 bilhões, aproximadamente. Isso é um quinto do PIB brasileiro”, disse. “Se esses novos bilionários destinassem 0,5% da sua fortuna ao ano (para redistribuição de renda), isso geraria 122 milhões de novos empregos. Empregos decentes, de carteira assinada.”

Para reduzir essa desigualdade social, Eduardo Moreira pede ousadia. “A gente tem de tomar cuidado de imaginar que a solução é cobrar imposto sobre grandes fortunas. É claro que tem de ter isso, mas nosso objetivo tem de ser muito mais, porque isso não muda nada estruturalmente. Provavelmente essa turma vai arranjar uma maneira de deixar o dinheiro numa conta que tá dentro da empresa, que não cai dentro do que a lei mostra”, disse o economista. “A gente tem de ser super ambicioso no sentido da mudança estrutural que a gente tem de ter aqui”.

Concentração

“Claro que a gente precisa ter uma renda mínima no Brasil, mas essa não pode ser a meta. Isso é meta de neoliberal. Neoliberal tem como meta pegar todo mundo que é mais pobre, dá R$ 1 mil e deixar trabalhando pra eles e aceitando o que eles fazem. Não pode. Mil reais é emergência. A gente tem de querer que todo mundo possa exercer sua vocação, se nasceu para ser um poeta, um violinista, médica, arquiteto, ele tem de ser isso.”

“Se pegar Austrália, Suíça, Nova Zelândia, Holanda, Noruega e outros países, o 1% mais rico não tem mais do que 8% da renda. Não tem como ser de outro jeito. Os Estados Unidos estão vivendo uma situação caótica. Viraram o país com mais taxa de pobreza da OCDE, porque é o país mais desigual. Como consequência, não estão entre os 30 países com melhor saúde no mundo, entre os 30 países mais seguros do mundo, entre os dez países que têm os melhores sistemas de educação do mundo. E é, disparado, o maior PIB do mundo”.

Pandemia

O líder metalúrgico colocou a pandemia no debate da desigualdade social, lembrando que o que está acontecendo no Brasil é consequência de mazelas de um passado escravocrata que o país ainda não resolveu. “Ela aparece na quantidade de negros pobres mortos, que é muito maior do que a de brancos. Morre o companheiro que mora na favela, que mora geralmente nas periferias, que não tem acesso a saneamento, luz, água potável, não tem acesso a um salário decente, saúde”, afirmou.

Ele revelou temor de que o Brasil muito em breve esteja vivendo um período de saques feitos por pessoas desesperadas, em busca de alguma coisa pra comer. “Hoje temos 116 milhões de pessoas em condições de insegurança alimentar. O cara come agora e não sabe se vai comer amanhã. Dezenove milhões literalmente passam fome. E aí a gente vai falar de auxílio emergencial para essas pessoas, que não chega a 25% do que seria uma cesta básica pra alimentar quatro pessoas.”

Lockdown

Eduardo Moreira acrescentou que “no Brasil, a gente vai viver o caos econômico porque não cuidou da pandemia. As grandes economias do mundo, quando fizeram lockdown, era verdadeiramente uma quarentena. As pessoas não podiam sair de casa, e elas tinham todo o apoio para não sair de casa, enquando a estrutura para combater o vírus estava sendo montada. Preparando os hospitais, aprendendo sobre a doença, se estruturando pra poder saber o que fazer com uma coisa totalemente nova, é por isso que para. E quando vem, está preparado para receber”.

O economista disse ainda que o que o Brasil fez aqui em nenhum lugar do mundo é considerado lockdown. “Com a desculpa de que não podia parar a economia. O que aconteceu? A economia está parada até hoje. Qual a confiança que a pessoa vai ter com a pandemia descontrolada?”

Wagner acrescentou citando quais as profissões que tiveram mais mortes por covid-19. “Justamente a do pessoal mais pobre”: motorista de caminhão, faxineiro, vendedor de varejo, vigilante, motorista de ônibus, caixa, frentista. “E é Caged, ou seja, só carteira assinada, não estão os motoboys, os entregadores do IFood…”, pontua.

Cilada do Brasil

A questão bancária também entrou na análise sobre desigualdade social. “Qual a grande cilada no Brasil? Quando você produz alguma coisa, seja no campo ou em qualquer lugar, tem uma taxa de retorno do investimento. Tem o quanto compra de semente, o quanto gasta de adubo, fertilizante, ou o quanto colocou de chapa da aço, energia, aluguel. Tem o custo, por quanto vai vender lá na frente e tem o retorno, que é quanto o investimento valorizou ao longo do tempo. No Brasil, quem é mais pobre, tem uma taxa de empréstimo tão alta, que eles nunca conseguem ter o dinheiro mais barato do que eles conseguem empreendendo e investindo em retorno”, diz.

“Ou seja, dominam o processo produtivo, mas não são donos do capital, porque o financiamento não chega em uma taxa que permite eles comprarem e se apropriarem do capital. Os bancos servem como um fosso, uma grande muralha, para impedir que aqueles que não têm, passem a ter acesso ao capital. Seja ele terra, máquina, conhecimento ou o que você quiser imaginar.”

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