Desigualdade escancarada

Brasil tem 19 milhões de famintos e 20 novos bilionários durante a pandemia

Para o diretor técnico do Diesse, Fausto Augusto Junior, dados apontam para a necessidade de um sistema tributário mais justo, com o aumento de impostos para os super-ricos e transferência de renda para os mais pobres

Valmir Fernandes/Coletivo Marmitas da Terra
Insegurança alimentar leve, moderada ou grave atingiu mais de 100 milhões de brasileiros na pandemia

São Paulo – O número de bilionários no Brasil saltou de 45 para 65 pessoas em 2021, crescimento de 44%, de acordo com lista da revista Forbes divulgada ontem (6). Juntos, desde o ano passado, durante a pandemia do novo coronavírus, eles praticamente dobraram o montante acumulado, que atualmente atinge a marca de R$ 1,2 trilhão. Ao mesmo tempo, estudo desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan) divulgado nesta semana mostra que 19,1 milhões de brasileiros estão passando fome.

Para o diretor técnico do Dieese, Fausto Augusto Junior, são dados “revoltantes”, que escancaram a desigualdade social no país. E apontam para a necessidade de pressionar o Congresso Nacional para implementar a taxação de grandes fortunas. O aumento na arrecadação serviria para financiar políticas sociais e programas de transferência de renda.

“É um exemplo triste. Quando se deixa simplesmente ao sabor do mercado, o que assistimos no Brasil, nos últimos anos, é o crescimento dos super-ricos. Ao mesmo tempo, um aumento muito grande dos muito pobres”, disse Fausto, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual desta quarta-feira (7).

Ele ressaltou ainda o contraste entre o avanço da fortuna dos super-ricos com o auxílio emergencial, que voltou a ser pago nesta terça, com valores entre R$ 150 e R$ 375. “Como é que pode partes importantes da sociedade ampliarem suas riquezas e, em contraponto, dizerem que o Estado não tem recursos para garantir minimamente uma cesta básica para cada brasileiro?”, questionou.

Além disso, Fausto destacou que a maioria dos novos bilionários é oriunda do sistema financeiro ou de grandes conglomerados. Os primeiros praticamente não criam empregos. E os segundos “massacram” as pequenas e médias empresas, por meio da concorrência desleal.

Obstáculo ao desenvolvimento

Por outro lado, já ficou demonstrado, em tempos recentes, que, quando há a aumento na distribuição de renda, o país cresce mais economicamente, ampliando concomitantemente o desenvolvimento social do país. Enquanto, nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden anunciou aumento de impostos para bilionários e grandes empresas, por aqui, os super-ricos são isentos de impostos na distribuição de lucros e dividendos.

“É fundamental inverter a pauta. Porque é importante colocar os super-ricos para pagarem mais impostos”, disse Fausto. “É um absurdo, do ponto de vista tributário, num país que precisa enfrentar a desigualdade”, ressaltou.

Em vez disso, a discussão em pauta no Congresso é a chamada “reforma administrativa”, com propostas que pretendem retirar ainda mais recursos destinados aos mais pobres por meio da redução dos serviços públicos e dos direitos sociais. O diretor do Dieese disse, contudo, que não tem expectativas de que o governo Bolsonaro vá pautar medidas de combate à desigualdade. “Mas esse debate precisa chegar à casa do povo. É importante que o Legislativo se pronuncie sobre isso”, afirmou.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira