Não é só Bolsonaro

Pandemia expõe que parcela da população é homofóbica e genocida, diz economista

Observação é da diretora adjunta do Dieese Patrícia Pelatieri, em debate virtual promovido ontem pelo Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé

Arquivo ABr
Sem uma política de enfrentamento da crise sanitária, Bolsonaro dá vazão ao lado conservador de parcela da população

São Paulo – A situação da pandemia no Brasil, que se agrava sem que o governo Bolsonaro respeite os protocolos científicos, mostra que há uma parcela da população que apoia a falta de postura do governo no combate à crise sanitária. Essa é a opinião da diretora adjunta do Dieese, Patrícia Pelatieri. “Temos que olhar todos os lados. O que a pandemia tem exposto é que temos uma parcela muito grande da população absolutamente homofóbica, conservadora, genocida, que defende isso que está sendo aplicado (pelo governo Bolsonaro)”, disse Patrícia.

Patrícia fez essa afirmação na noite desta quinta-feira (18), ao participar de debate promovido pelo Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé. O tema do debate foi “Cadê a retomada em V da economia brasileira?”, em referência ao termo usado pelo ministro Paulo Guedes, que previa uma recuperação da atividade econômica desde o início de 2020. Em “V” porque, segundo o “Chicago Boy”, a retomada seria tão abrupta quanto foi a queda. A “profecia” de Guedes, claro, não se realizou. Além de Patrícia, participaram da discussão mais quatro mulheres: Ana Georgina Gomes, supervisora técnica regional do Dieese-Bahia; Leda Paulani, professora titular do Departamento de Economia da FEA-USP; e Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. O evento foi mediado por Maria Alice Vieira, do Barão de Itararé.

Embora a pauta do debate tenha sido economia, Patrícia Pelatieri resumiu o sentimento da parcela progressista e democrática da população brasileira com uma abordagem sociológica. “A responsabilidade (pela situação do país hoje) não é só de quem está lá, neste governo. Tem o judiciário, que tem responsabilidade. Gosto de destacar que não é assim, que estamos todos juntos, combatendo a pandemia e só o doido do Bolsonaro é que faz essas maluquices. Não é verdade. Você vê a grande imprensa que bate no Bolsonaro, mas protege a área econômica, como se fosse possível fazer o combate e manter o teto de gastos”, disse.

Ana Georgina, Maria Alice, Tereza Campello e Leda Paulani discutem falácia da “retomada em V” da economia (Foto: Reprodução)

Tereza Campello – assim com todas as debatedoras – destacou que o governo mantém hoje, tanto na condução da economia como no “combate” à pandemia, a mesma postura “errada” que vem desde o primeiro dia de governo. Ela enfatizou que o presidente não apenas nega a pandemia, como atrasou todas as medidas necessárias a seu enfrentamento. Lembrou que o desgoverno brasileiro demorou a tomar iniciativas, deixando de aproveitar o aprendizado de países como China e Itália, onde o vírus atacou primeiro.

Saúde pública x economia

Com a condução caótica do governo federal, mais de 700 mil micro e pequenas empresas, segundo números de novembro, fecharam as portas. Pior, “essas empresas não voltam, é irreversível”, disse Tereza. O governo também não entendeu, ou não quis entender, que as medidas capazes de minimizar os efeitos da crise provocada pela covid-19 não eram meramente econômicas, mas sanitárias, de saúde pública, “para que as pessoas pudessem ficar em casa”.

O fundamental auxilio emergencial, por exemplo, foi introduzido pelo Congresso a contragosto de Bolsonaro e Guedes, obrigados a ceder devido à pressão social.  Fixado em R$ 600 no ano passado, foi agora reintroduzido “desidratado”, disse Tereza, com valores entre R$ 150 e R$ 375, dependendo da composição familiar. Além do valor, em média, de quase metade do anterior, com o “novo” benefício jogaram “mais de 22 milhões de pessoas fora”, disse a ex-ministra de Dilma Rousseff, sobre os excluídos que estavam entre os beneficiários em 2020.

Sinais ruins ao mercado

“O valor não era de R$ 600 por acaso, mas porque é o valor da cesta básica. Por isso que os setores progressistas querem R$ 600.” Segundo ela, se não fosse o auxílio emergencial em 2020, o PIB brasileiro teria caído o dobro do que caiu. No ano passado, o Produto Interno Bruto do país recuou 4,1%, a maior queda em 30 anos. “E o que o governo faz? No final de dezembro, no auge da pandemia, acaba auxilio emergencial e auxilio às empresas, que davam movimentação mínima à economia.” Tereza observou ainda que, além de todos os erros absurdos, o Planalto continua dando sinais ruins ao mercado, como com as quedas do presidentes do Banco do Brasil e da Petrobras. Para piorar, a perversa política de Guedes-Bolsonaro vai cortar ainda mais em saúde, educação e assistência social em 2021.

“Cadê o crescimento em V?”, ironizou Ana Georgina Gomes, do Dieese da Bahia. Para ela, Guedes acertou no “V” em relação à “queda vertiginosa, mas falar em subida é precipitado”. “É estranho falar em retomada, e mais estranho é não considerar a pandemia, quando precisamos intensificar o isolamento e a interrupção em várias atividades. Os dados mostram um mercado muito ruim para todo mundo, embora pior pra mulheres, negros e mais jovens”, destacou.

Leda Paulani lembrou o termo “hecatombe”, usado pelo neurocientista Miguel Nicolelis para definir a situação brasileira na pandemia.  “A hecatombe está aí. O país vive a situação de ser um exemplo triste para o mundo, que nos envergonha a todos. Penso eu que hoje o único presidente negacionista no mundo é Bolsonaro”, disse. Para a professora da USP, a postura “equivocada” do governo Bolsonaro desconsidera um pressuposto: “para a economia funcionar minimamente, as pessoas têm que ter saúde”.