Desgoverno

Tereza Campello: ‘Quem está no governo não pode achar aceitável morte nenhuma’

Segundo Paulo Guedes, auxílio emergencial poderia voltar “se a pandemia se agravar e continuar 1.500 mortes por dia, se falhássemos miseravelmente nas vacinas”

Antonio Cruz/Agência Brasil
Bolsonaro sobre auxílio emergencial: "Lamento muita gente passando necessidade, mas a nossa capacidade de endividamento tá no limite. Satisfeito aí?”

São Paulo – Em momento de agravamento da pandemia de Covid-19, crise social, econômica e sanitária, as declarações dos principais membros do governo Jair Bolsonaro, a começar do próprio, continuam imutáveis. Nesta segunda, ao ser questionado sobre eventual volta do auxílio emergencial, o ministro Paulo Guedes (Economia) declarou, para espanto de muitos, que o benefício poderia ser recriado “se a pandemia se agravar e continuar 1.500 mortes por dia, a vacina não chega, se falhássemos miseravelmente nas vacinas”. A ex-ministra Tereza Campello reagiu: “Alguém que está no governo não pode achar aceitável morte nenhuma”.

As declarações de Paulo Guedes são absurdas não apenas do ponto de vista humanitário, considerando que partem de representante do Estado, que deveria zelar pelo bem da sociedade. Mas chocam também sob a ótica da própria economia, que Guedes representa. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19 divulgada em dezembro, no mês anterior a taxa de desocupação chegou a 14,2%, a mais alta da série, iniciada em maio. São 14 milhões de pessoas sem trabalho no país.

A influência da pandemia agrava o cenário dramaticamente. De 24,1 milhões de pessoas que gostariam de trabalhar, mas não procuraram trabalho, 13,7 milhões argumentaram que a inatividade se deve à pandemia ou à falta de trabalho na “localidade”, de acordo com o estudo.

Declarações inaceitáveis

Para a ex-ministra Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Tereza Campello, as declarações de Guedes e Bolsonaro são “inaceitáveis”. “Dizer qual é o número de mortos aceitável por dia? Alguém que está no governo não pode achar aceitável morte nenhuma. É uma tentativa de botar a vida das pessoas na econometria, numa curva matemática”, diz.

Mesmo tentando abordar a volta do auxílio com uma visão econômica, já que do ponto de vista humanitário Guedes “é completamente desumano”, diz Tereza, a questão é que os que não têm trabalho não vivem esse drama apenas porque economia anda muito mal, devido à pandemia, mas porque não há luz no fim do túnel, já que o governo não consegue garantir crescimento.

“São 28 milhões de pessoas que gostariam de trabalhar e não conseguem, e não vão conseguir, porque não há emprego. Uma situação dramática social e economicamente.” Tereza Campello lembra que o consumo das famílias representa 60% do PIB brasileiro. Com pandemia, sem emprego e renda, não há consumo, e sem consumo não há crescimento. O raciocínio é simples: a volta do auxílio emergencial é urgente, para as pessoas e para a economia. Mas, para Guedes e o governo, não é.

Até mesmo o FMI

Até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) vem defendendo maior  participação do Estado nas economias para combater a crise e estimular a retomada da economia. “Mesmo setores tradicionalmente defensores de políticas austericidas e fiscalistas reconhecem que o Estado tem que agir neste momento, ou vai ser muito pior. Mas a elite brasileira é tão atrasada quem nem isso consegue enxergar. É descabido. O governo é sensível exclusivamente ao mercado”, observa a ex-ministra.

Nesta segunda-feira (25), um dia antes de Guedes admitir uma possível volta do auxílio emergencial, mas se as mortes chegarem a 1.500 pessoas por dia e o países falhar “miseravelmente nas vacinas”, Bolsonaro respondeu à mesma questão. “Converso isso com o Paulo Guedes, contigo não. A palavra é emergencial. O que é emergencial? Não é duradouro, não é vitalício, não é aposentadoria. Lamento muita gente passando necessidade, mas a nossa capacidade de endividamento tá no limite. Satisfeito aí?”, disse o presidente da República.