"Terrorismo"

Jornal critica gasto público na manchete, mas ‘esconde’ ressalva. Economista pede debate

Para professor da Unicamp, “Folha” faz propaganda da austeridade e trata direitos como “anomalia”

Reprodução
Manchete e ressalva: dois pesos e duas medidas

São Paulo – No último domingo (11), o jornal Folha de S.Paulo estampou como manchete uma reportagem sobre gastos públicos. “Brasil é o que mais expande gasto público numa década” foi o título, na dobra superior da primeira página, garantindo destaque. Na edição desta quinta (15), o periódico informou que usou “dados impróprios”. A ressalva também saiu na primeira página, mas em tamanho muito menor, no canto inferior direito, com pequena visibilidade.

Segundo a Folha, a reportagem “errou ao utilizar dados de 2008 e 2009, apurados com metodologia distinta da empregada hoje”. “Com o problema detectado na série brasileira, a comparação fica prejudicada”, acrescenta o jornal mais adiante. Mesmo assim, afirma que, excluídos esses dois anos, a alta nos oito restantes “basta para levar o país ao alto do ranking internacional do decênio”, em uma escalada de despesa “sem paralelo conhecido entre as principais economias do mundo”.

Debate público

A questão foi levantada em rede social pelo economista Pedro Rossi, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O que foi manchete de domingo virou um erramos de canto”, escreveu no Twitter. Para ele, foi mais um exemplo do “terrorismo fiscal que tomou conta do debate público”. Ao comentar o post, o jornalista e escritor Xico Sá observou: “Seria importante o desmentido também ser manchete. Para o bem da imprensa brasileira”.

Mas a questão não se limita aos espaços desproporcionais entre manchete e retificação, lembrou o economista, para quem a reportagem “é uma peça de propaganda da austeridade fiscal“. Além disso, afirmou, o que o jornal trata de “anomalia” – termo usado no texto de domingo – “são, no fundo, os direitos e benefícios sociais previstos pela Constituição de 1988”.

Comparação indevida

“Pra comparar o tamanho do gasto público entre países, devemos considerar o que esses oferecem em termos de serviços públicos. Não faz sentido comparar o Brasil com países que não têm previdência social, SUS, ensino superior gratuito, etc”, escreveu Rossi em sua página.

Segundo ele, o jornal sugere que o melhor seria adequar o Brasil a uma relação gasto/PIB de país de renda média. Isso significaria, observou, abrir mão de Previdência e SUS, entre outros serviços públicos. “É isso que queremos?”, questiona. A argumentação completa está no Twitter.


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