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‘A gente está comendo pior.’ Aumento dos preços de alimentos traz de volta o fantasma da fome

Dados da Associação Proteste mostram que a alta dos alimentos vem acompanhando a pandemia de covid-19 e desesperando famílias

CC.0 Wikimedia
Comprar os básicos arroz e feijão de todo dia se tornou motivo de desespero para milhões de pessoas. Outros produtos, que deveriam complementar a dieta, como frutas, verduras e legumes, estão cada vez mais longe dos pratos

São Paulo – “A gente está comendo pior. Cada vez tem que tirar mais uma coisa, porque o dinheiro não dá. Desde o começo do ano, nossa vida piorou muito. A gente só vai no mercado quando alguma coisa acaba, não tem mais aquela compra, ‘de mês’. Carne quase não tem mais. Tenho medo que volte o dia de ‘fazer a xepa’, porque não vai ter dinheiro para fazer feira”. O relato parece retirado de um documentário dos anos 1990, mas é do Brasil de 2020, administrado por Jair Bolsonaro. A fala da trabalhadora doméstica Denise Gonçalves, moradora do Grajaú, no extremo sul da capital paulista representa milhões de pessoas que sofrem com aumento dos preços dos alimentos em meio à pandemia de covid-19 e o desemprego alto.

“Faz meses que não consigo trabalho direito. E quando consigo, ganho menos do que no ano passado. E o mercado está muito caro, está impossível comprar uma fruta, uma coisinha a mais. É só o básico mesmo, arroz, feijão, ovo. E graças a Deus que está tendo isso, tenho medo do dia que não vai dar nem para isso”, relata Denise, que tem três filhos e vive com a mãe, que a ajuda a cuidar das crianças. Para a família, o aumento de preços dos alimentos traz de volta o fantasma da fome.

A mãe da trabalhadora doméstica é aposentada e seus filhos – Daniel, Denis e Daniela – estão todos no ensino fundamental e recebem o auxílio alimentação da prefeitura de São Paulo. “Mas é muito pouco, dá para quase nada. E a gente sabe que já tem vizinho passando fome mesmo, as pessoas passam na porta pedindo um arroz, uma farinha”, complementa.

Mais que inflação

O “quase nada” expresso por Denise se deve principalmente ao aumento no preço dos alimentos, registrado oficialmente nas últimas semanas, mas que já vinha sendo sentido pelas famílias. Segundo uma pesquisa da Associação de Consumidores Proteste, já em maio os aumentos de preços dos alimentos chegaram a até 106% em supermercados da cidade de São Paulo, na comparação com 2019. Naquele momento, o feijão registrava aumento de 66% em relação a 2019. O arroz, 13% e o leite, 11%.

Inflação dos alimentos também está relacionada ao modelo do agronegócio

Em agosto, quando considerados os últimos 12 meses, os aumentos de preço nos alimentos foram de 48,3% no feijão, 25,5% no arroz, 18,7% no leite e 23,5% no óleo de soja. Ou seja, os preços subiram acompanhando a pandemia de covid-19. E muito mais do que a inflação oficial acumulada no período: 2,44%.

Com um saco de arroz a R$ 27, o feijão a quase R$ 10 e a carne – que manteve os preços altos atingidos do final do ano passado – a R$ 30 o quilo, em médida, só resta fazer “as escolhas possíveis”, como relata o entregador Denis da Silva Carvalho, morador do Jaçanã, zona norte de São Paulo. “A gente vai com o dinheiro contadinho. Tem que pegar só o básico mesmo. E às vezes, falo pra você, nem o básico. Eu acabo pegando outra coisa, mais barata”, relata.

Rio de Janeiro

Ainda segundo a Associação Proteste, a situação não é melhor no Rio de Janeiro. Dados da pesquisa de preços em supermercados mostram que o feijão preto subiu 43% entre agosto de 2019 e o mesmo mês de 2020. Já o óleo de soja teve aumento de 36% e o leite integral, 23%.

Considerado o aumento dos 10 itens básicos que a Proteste analisa – arroz branco, feijão preto, leite integral, açúcar refinado, óleo de soja, papel higiênico folha dupla, água sanitária, desinfetante, sabonete, sabão em pó e álcool em gel – o aumento no Rio de Janeiro foi de 11% acima da inflação oficial do período (2,44%).

A resposta do governo Bolsonaro tem sido “pedir patriotismo” aos supermercados e dizer que eles deveriam reduzir seus lucros sobre os preços dos alimentos. Mas o presidente tem se recusado a tomar qualquer medida que possa influenciar em uma redução nos preços.

O que lembra o posicionamento da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, quando do aumento do preço da carne, no final do ano passado. Segundo ela, a subida do preço era correta. “Não tem perigo de voltar ao que era. Mudou o patamar. A carne ficou por três anos com valor muito baixo”, disse ela em entrevista ao site Poder 360, em novembro de 2019.