Tragédia humana

Morte de idosos na pandemia reduziu renda das famílias em R$ 167 milhões

Fragilização econômica foi mensurada pelo Ipea quando o Brasil alcançou 100 mil vidas perdidas. Próximo de 120 mil mortes, queda pode ser ainda mais grave, alerta o Dieese

Marcelo Camargo/EBC
"Isso coloca um desafio. Além da questão humana, da perda de um familiar, tem a perda da renda, que vinha do idoso", lamenta Victor Pagani

São Paulo – Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que a morte de milhares de idosos na pandemia já causou a queda de R$ 167 milhões por mês na renda dos domicílios brasileiros.  Os dados foram estimados pela pesquisadora Ana Amélia Camarano quando o Brasil ultrapassou a marca de 100 mil vidas perdidas em decorrência da covid-19. À época, 8 de agosto, o Ipea registrava que 74% desses óbitos eram de pessoas com mais de 60 anos.

Quase três semanas depois, o país já se aproxima de 120 mil mortos na pandemia. E o agravamento da situação econômica das famílias brasileiras deve ser ainda maior. É o que alerta o supervisor do escritório do Dieese em São Paulo, Victor Pagani, no Jornal Brasil Atual

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o Ipea indicava que em 20,6% dos 71,3 milhões de domicílios do país a renda do idoso representa mais de 50% do total dos rendimentos da família. Nessas famílias, a renda per capita média é de R$ 1.621 por mês. Há ainda outras 12,9 milhões de casas, que representam 18% dos total de domicílios, nas quais os ganhos dos idosos são a única fonte de renda.

“Isso coloca um desafio. Além da questão humana, da perda de um familiar, tem a perda da renda que vinha do idoso”, lamenta Pagani. “Temos um cenário de desemprego alto e nesse cenário a dependência do dinheiro dos idosos é maior ainda, porque o benefício do INSS é permanente. Então as pessoas com renda variável, porque estão na informalidade, acabam dependendo ainda mais do dinheiro dos mais velhos”, avalia. 

Fragilidade econômica parcelada

Os dados do Ipea também confirmam a pesquisa do Sesc, em parceria com a Fundação Perseu Abramo (FPA), divulgada nesta semana pela RBA. O estudo, realizado entre janeiro e o início de março deste ano, destaca que 64% dos idosos estão aposentados, 95% deles contribuem com a renda da casa e 68% chefiam uma família

O Sesc e a FPA também apontam que a renda dos idosos é a única estável no cenário em que seus familiares migram cada vez mais para o mercado de trabalho informal. O risco, de acordo com o Dieese, é que esse avanço da informalidade dificulte futuras contribuições à Previdência, assim como a própria “reforma” do setor, aprovada no ano passado, que coloca entraves para o acesso à aposentadoria e aos benefícios sociais de uma forma geral. Nesse cenário, as famílias podem acabar ainda mais fragilizadas economicamente. 

“Com a pandemia, isso fica ainda mais complicado. As pessoas com mais de 60 anos estão no grupo de risco, elas têm que se manter em isolamento social. Ao mesmo tempo, muitas delas não estão aposentadas, precisam trabalhar para ter a sua renda para sustentar a família”, explica o supervisor. 

Mortes prejudicam a todos

Pagani adverte que o prejuízo econômico provocado pelos óbitos na pandemia impactam também negativamente os demais setores da população. “Estamos vendo muitos trabalhadores, de faixa etária mais baixa, morrendo devido à covid-19, muitas vezes se contaminando no próprio trabalho”, ressalta.

O Congresso Nacional chegou a aprovar o projeto de lei que garantia indenização aos trabalhadores da saúde ou a suas famílias, por exemplo, caso ficassem incapacitados pelo novo coronavírus ou que viessem a falecer devido à contaminação no trabalho. O PL, no entanto, não foi sancionado

“Com a insensibilidade que lhe é característica, o presidente Jair Bolsonaro vetou esse projeto”, lembra Pagani. “As pessoas estão tendo que se expor ao risco, estão cuidando de quem está com a doença, e nem têm a segurança de que, caso o pior ocorra e elas venham a ser contaminadas e morram, a sua família terá uma indenização, seguro ou alguma garantia financeira”, analisa o supervisor do escritório do Dieese em São Paulo. 

Confira a entrevista no Jornal Brasil Atual 

Redação: Clara Assunção