Mão do Estado

Belluzzo defende impressão de dinheiro para enfrentar ‘pandemônio econômico’

Emissão de moedas na crise é fundamental para garantir amparo do Estado à população sem ampliar endividamento. Medida caminha de forma lenta no Brasil

Marcello Casal Jr./EBC
Os governos dos Estados Unidos, Japão, Canadá, Reino Unido já imprimiram mais dinheiro para defender suas economias, sustentando ainda medidas de amparo social na pandemia

São Paulo – O ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu que o Banco Central poderá imprimir dinheiro e colocar em circulação novas cédulas e moedas para enfrentar a crise financeira agravada pela pandemia do novo coronavírus. Opositores da medida, no entanto, alegam risco de descontrole inflacionário, a exemplo do que ocorreu nas décadas de 1980 e 1990. 

Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o descontrole inflacionário não só não se repetiria nos dias de hoje, como o país já vive à beira de uma depressão econômica. 

A medida é mais do que necessária e o governo está atrasado em implementá-la, diz o economista, ao repórter do Seu Jornal, da TVT, André Gianocari. “Os títulos públicos, nesse momento, são mais importantes e mais seguros para as pessoas comprarem, e as empresas colocarem nos seus ativos, do que os títulos privados. Então existe uma importância enorme na ação do Estado para reconstituir os circuitos monetários”, ressalta.

“Na verdade nessa hora, as entranhas do circuito monetário ficam mais expostas, quando está funcionando normalmente a gente tem a ilusão de que o dinheiro está sendo criado dentro do circuito, mas não é. Quer dizer, quem cria são os bancos do governo, como o Banco Central”, acrescenta o professor.

Confira a reportagem da TVT

O economista lembra ainda que a capacidade do Estado de emitir moedas traria benefícios sociais, capazes de reintegrar as pessoas que hoje estão fora do circuito monetário. Os governos dos Estados Unidos, Japão, Canadá, Reino Unido já imprimiram mais dinheiro para defender suas economias, garantindo também que a população mais vulnerável receba amparo do Estado.

Com dinheiro, as pessoas começam “a comprar as coisas, e se elas podem comprar, elas vão comprar em lojas, que vão encomendar das empresas. Então isso faz parte da reconstituição do circuito mercantil”, explica Belluzzo. “No Brasil isso está demorando para ocorrer. Aliás está ocorrendo de maneira muito imperfeita e lenta, e que não tem cabimento, porque aqui a ficha deles (do governo) ainda não caiu. Não é uma pandemia na saúde apenas, é um ‘pandemônio econômico’, que só pode ser na verdade enfrentado com uma ação muito firme do Estado.” 

Na reportagem, o jornalista Luis Nassif defende a emissão de moeda. Ele observa que um cenário de empresas paralisadas e elevado desemprego desautoriza qualquer expectativa der alta inflacionária. “Não tem como essa emissão causar inflação”, diz. Para Nassif, outro argumento de quem se opõe à medida, de que assustaria investidores externos, também não se aplica. “O que assusta investidor externo é recessão. E para se combater é preciso injeção de dinheiro na economia.” Para ele, imprimir dinheiro é uma forma de incrementar a economia sem ampliar a dívida pública e comprometer o orçamento no futuro.