A pandemia e a economia

Terceiro baque mundial pode derrubar neoliberalismo global e alterar paradigma

Nova crise mostra que o mundo não pode ficar na mão do mercado, lembra o economista Paulo Nogueira Batista Jr, que lamenta incidente entre Brasil e China

Alan Santos/PR
Jinping e Bolsonaro no ano passado, em Brasília: hostilidade à China provocou reação incomum

São Paulo – O economista Paulo Nogueira Batista Jr. vê na atual crise, trazida pelo coronavírus, uma situação que pode, enfim, mexer com o até então modelo predominante de neoliberalismo global. “Arrisco dizer que pela primeira vez há uma oportunidade de mudança de paradigma”, afirma o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento.

“A globalização neoliberal, que foi o padrão dos últimos 40 anos, sofreu três grandes choques”, observa Paulo Nogueira. O primeiro foi a crise econômica-financeiro de 2008 e o segundo é representado pelas ascensão de Donald Trump e seus aliados, “que não são neoliberais, são protecionistas”, diz o economista, classificando ainda esse grupo de populistas “xenófobos”.

Por fim, a crise deflagrada pela pandemia de coronavírus, que atinge todas as sociedades e economias. Nogueira lembra que, como “pano de fundo”, a questão ambiental já pressionava diversos países. “As insuficiências da globalização neoliberal vão ficar escancaradas.”

Isso mostra que as grandes crises não podem ser enfrentadas apenas pelos chamados mercados. Não aconteceu nem mesmo em 2008: “Conseguiram, com métodos keynesianos, evitar uma grande depressão e manter, de certa forma, as estruturas de poder”. Agindo de forma coordenada, os governos evitaram um estrago ainda maior. “Foi possível entregar os anéis e não os dedos”, acrescenta o economista.

Passado o momento de “intervenção estatal estabilizadora”, como agora e como antes, não voltará tudo como antes? “Eles vão tentar o mesmo truque”, diz Paulo Nogueira, lembrando que neste momento os preceitos neoliberais estão sendo jogados pela janela ou para debaixo do tapete. Mas insiste: é o terceiro grande baque mundial. “O segundo está ligado à maneira como o primeiro foi enfrentado”, observa. “Na crise de 2008-2010, os governos e bancos centrais salvaram os bancos e o sistema financeiro, deixando o ônus da crise com a classe média e os trabalhadores. A tendência de concentração da renda se acentuou. Quem se beneficiou politicamente foi a direita nacionalista e xenófoba, como Trump e outros políticos do tipo.”

Brasil e China

No meio de uma crise sem precedentes, o Brasil arruma um desavença com seu principal parceiro comercial, a China. Declaração desastrada do deputado Eduardo Bolsonaro (sem partido-SP), filho do presidente, provocou reação enérgica da embaixada chinesa. A virulência chamou a atenção de Paulo Nogueira. “Normalmente, os chineses reagiriam com mais diplomacia. Foi uma nota dura e não diplomática.”

A acusação de Eduardo Bolsonaro, relacionando a China ao vírus, pode levar à estaca zero esforços que pareciam estar acontecendo de aproximação entre os dois países. O ex-diretor do FMI lembra que no segundo semestre do ano passado, nos meses que antecederam ao encontro de cúpula dos Brics, em Brasília, parecia haver um abandono das ações de hostilidade contra os chineses, inclusive com visitas de Jair Bolsonaro e do vice, Hamilton Mourão, ao país asiático e do presidente Xi Jinping ao Brasil. “Agora, esse incidente joga tudo para trás.” Não à toa, líderes do Congresso e o próprio Mourão correram para tentar apagar o incêndio causado pelo filho zero três.

“Os chineses são muito pragmáticos”, diz Paulo Nogueira, lembrando da disposição da China em manter boas relações independentemente do governante. Mas o Brasil atual, em sua política de alinhamento incondicional aos Estados Unidos, acrescenta um componente ideológico “muito danoso”, com aspectos de imitação de Donald Trump que adquirem características “irracionais”, levando a atritos desnecessários com o principal parceiro comercial brasileiro.

“Tudo tem limite. A paciência chinesa também”, alerta Paulo Nogueira. É possível que a China entenda as declarações “como um sinal de que o próprio presidente está flertando com o atrito, tanto que ficou silente”. E observa que os asiáticos já haviam oferecido ajuda técnica ao Brasil e outros países, para o enfrentamento da pandemia, o que pode ajudar a explicar a reação forte da embaixada. Foi, assim, “mais um passo que o governo Bolsonaro dá para se isolar politicamente”.

I love Trump

Até agora, a adesão a Trump não resultou em praticamente nada de positivo para o Brasil, avalia Paulo Nogueira. Uma relação que, segundo ele, “se notabiliza pela unilateralidade das concessões, sem contrapartidas importantes”. Isso apesar de algumas declarações recentes de apoio do presidente norte-americano ao colega brasileiro.

Mas o economista, que morou também nos Estados Unidos, observa que a submissão nunca foi bem vista nem mesmo pelos americanos. “Quando morava em Washington, eu assisti inúmeras vezes a indiferença com que os americanos tratavam seus satélites.”

Um dos fundadores do Novo Banco de Desenvolvimento, o chamado Banco dos Brics, Paulo Nogueira acredita que a iniciativa ainda pode prosperar. Neste ano, Brasil indicará o próximo presidente – o primeiro foi indicado pela Índia. “É um projeto que tem potencial. Os chineses , os indianos, os russos não vão abandoná-lo. Mas, como tudo, vai sofrer os efeitos do governo Bolsonaro e dessa crise (do coronavírus).”

Um dos nomes especulados para a direção do banco é o de Marcos Troyjo, secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia. Ele é um dos – até agora – 22 infectados da comitiva de Bolsonaro.


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