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Coronavírus abre horizonte de superação do neoliberalismo: ‘Salve-se quem puder não resolve’

Superação dos impactos econômicos da pandemia vai depender da ação renovada dos Estados, defende o economista Marcio Pochmann

Marcelo Camargo/Ag. Brasil
Além da ação coordenada dos Estados, superação da pandemia exige solidariedade entre todos

São Paulo – A pandemia de coronavírus exige atuação coordenada dos Estados no esforços de combate e prevenção à doença. São ações articuladas que vão desde a assistência médica a esforços para evitar a paralisação da produção. Também inspira solidariedade e fraternidade nas sociedades ao redor do mundo. Para o economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é a oportunidade para superar o “receituário neoliberal”.

Segundo ele, os Estados tiveram papel importante na crise internacional de 2008, injetando recursos para salvar bancos e empresas da “quebradeira”. Contudo, esses investimentos foram “capturados” pela ciranda financeira. Endividados, os Estados passaram a serem apontados como a origem de todos os males da economia.

“O coronavírus exige um tipo de ação que implica em enterrar esse regime tão nefasto para a população, e abre a perspectiva de recompor novas regras de comércio e financiamento internacional, e até mesmo recolocar no centro da solução dos problemas o Estado, que tem sido identificado pelo neoliberalismo como sendo a causa dos problemas que tudo o que temos atualmente”, afirmou Pochmann aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (18). “O salve-se quem puder”, característico do funcionamento capitalista, “não resolve”, segundo ele, porque a contaminação é ampla.

Ações efetivas

Pochmann classifica as ações tomadas pela equipe econômica do governo Bolsonaro como “insuficientes”, e espera que o pedido de decretação do estado de calamidade pública, enviado ao Congresso Nacional, sirva para superar as regras orçamentárias restritivas, como o Teto de Gastos. “É impossível que o Brasil continue impedindo que se gaste na saúde e na educação, ao mesmo tempo em que libera recursos para o pagamento de serviços financeiros.”

A prioridade, segundo o economista, é garantir a produção e, com ela, os empregos, e também o abastecimento. Ele destaca que, diferentemente de 2008, a economia brasileira entra nessa crise em cenário de estagnação, tendo registrado crescimento do PIB de apenas 1,1% no ano passado.

Para manter a economia funcionando, ele defende a ampliação de crédito para as micro e pequenas empresas, para que possam honrar compromissos com fornecedores e arcar com as folhas de pagamento. Para o setor informal da economia, Pochmann diz que é chegada a hora de implementar uma renda básica de cidadania – proposta há muito defendida pelo vereador e ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP) –, garantindo o sustento das populações mais vulneráveis. Ele também cobrou a ampliação do programa Bolsa Família.