Tensão mundial

Belluzzo: crise entre Estados Unidos e Irã deve provocar ‘efeito desagradável’ no Brasil

“Como no país se reajusta o preço da gasolina quase imediatamente quando o petróleo sobe, vamos ter um efeito negativo", avalia economista

Pedro França/Agência Senado
A lógica do governo brasileiro e gestores é fazer com que a Petrobras tenha o máximo de rentabilidade, com vantagens aos acionistas, afirma economista

São Paulo – As consequências do conflito entre Estados Unidos e Irã para a economia brasileira – após o ataque que matou no Iraque o principal líder do setor de inteligência e das forças de segurança iranianas, Qassem Soleimani, nesta sexta-feira (3) – ainda não estão claras, mas os preços dos combustíveis devem subir ainda mais.  “Como no Brasil se reajusta o preço da gasolina quase imediatamente quando o petróleo sobe, certamente vamos ter um efeito negativo internamente”, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

“Isso porque a lógica deles (do governo brasileiro e gestores da estatal) é fazer com que a Petrobras tenha o máximo de rentabilidade, com vantagens aos acionistas.” Para Belluzzo, se o preço do petróleo seguir uma trajetória de alta rápida, certamente “o Brasil vai sofrer um efeito desagradável”.

Em sua opinião, se o primeiro problema para a economia do Brasil é com o preço do petróleo, há o risco geral se o conflito se agravar. “Certamente as bolsas vão sofrer no mundo inteiro, inclusive no Brasil.  Petróleo, dólar e bolsas. Mas, por enquanto, temos que fazer hipóteses. Por exemplo, se eles fecharem ou afetarem o trânsito pelo estreito de Ormuz, certamente vai ser um choque muito grande no preço do petróleo.”

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, nada falou sobre o conflito. Em Brasília, questionado por jornalistas, limitou-se a dizer que vai discutir o impacto no Brasil com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e com o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. Ele acrescentou: “Que vai impactar, vai. Agora, vamos ver nosso limite aqui. Porque, se subir, já está alto o combustível, se subir muito complica”. Bolsonaro estaria sendo aconselhado por membros da alta cúpula militar a não se envolver na questão por enquanto.

“Acho que ele não vai se envolver nisso, porque os custos são muito altos. Imagino que o Brasil vai ficar numa posição de prudência. Já fez tanta besteira, vai fazer mais uma?”, pondera Belluzzo. “Do ponto de vista do comportamento dele, você pode esperar qualquer coisa, mas acho que o melhor é ficar quietinho, porque não tem nem bala, nem nada para entrar nessa disputa.”

Estima-se que no mínimo um terço do petróleo produzido no Oriente Médio passe pelo estreito de Ormuz, situado entre o golfo de Omã e o golfo Pérsico. “Não dá para fazer no momento uma avaliação sobre possibilidades de reação do Irã – continua Belluzzo –, mas certamente a obstrução do estreito de Ormuz é uma das mais óbvias, até mesmo com ataques que possam fazer a refinarias na Arábia Saudita, por exemplo. Eles têm capacidade militar para isso.”

Para o economista, o conflito também pode se refletir na queda das exportações brasileiras para os países da região, que têm um “peso intermediário” no comércio exterior do Brasil. “Isso está mais distante, mas imediatamente o que está claro é que os riscos são grandes.”

De janeiro a novembro, o Brasil exportou para o Oriente Médio (exceto Israel) US$ 10,008 bilhões, e importou 4,615 bilhões. A participação das exportações brasileiras à região é de 4,86%.

No geral, a balança comercial brasileira apresentou o pior resultado desde 2015, com superávit de US$ 46,7 bilhões no ano. Em 2015, o superávit foi de US$ 19,5 bilhões. O resultado se deve ao ritmo lento do comércio internacional, avalia Belluzzo.

“Estava devagar, praticamente numa trajetória de contração. Tanto que a queda das exportações foi maior do que a queda das importações. Tivemos um efeito ruim da queda do comércio internacional. E se o conflito entre Estados Unidos e Irã se alastrar, o efeito vai ser bem maior sobre o comércio exterior.”

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