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Retrocesso

‘Diários’ de Celso Furtado contêm décadas de reflexão sobre um país que não se confirmou

Para Ricupero, economista era "símbolo de um Brasil que acredita em si mesmo". A tradutora Rosa Freire, viúva de Celso, diz que ele foi punido por "pensar no país"
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
14:51
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Reprodução/Arte RBA

O ministro Celso Furtado em 1962: livro traz reflexões feitas durante seis décadas, dos 17 aos 82 anos

São Paulo – A dimensão política do Brasil está exigindo uma reflexão nova e um esforço considerável dos que têm a responsabilidade da coisa política, porque as enormes disparidades das condições de vida não constituem apenas um fenômeno econômico, mas político e social, escreveu Celso Furtado em 25 de agosto de 1983, apontando a necessidade de participação “de todas as forças sociais na estrutura de poder”. O trecho faz parte dos Diários Intermitentes – 1937-2002 (Companhia das Letras), livro lançado ontem (4) em São Paulo com um debate sobre os rumos do país e a importância de se pensar em um projeto de desenvolvimento que envolva soberania e justiça social.

O ex-ministro e diplomata Rubens Ricupero lembra, por exemplo, de questionamentos de Celso Furtado expressos em carta, que ele lê: devemos aceitar a crescente internacionalização dos circuitos monetários e financeiros? Temos que renunciar a uma política de desenvolvimento? Quais as consequências da retração do emprego?  “Ele foi um profeta daquilo que hoje estamos vivendo”, conclui Ricupero, para emendar: ele, pelo menos, não passou pelo sofrimento de “testemunhar esse retrocesso sem precedentes na nossa história”. Para ele, “Celso era o símbolo de um outro Brasil, de um Brasil que acreditava em si mesmo”.

Os Diários reúnem anotações ao longo de seis décadas e meia, dos 17 aos 82 anos. São “intermitentes” porque há períodos de escrita intensa, contínua, e outros de silêncio. O conteúdo revela sempre a “tarefa ingrata”, como disse certa vez, de pensar o Brasil. E também foi punido por isso, ao fazer parte da primeira lista de cassados – era o número 11 – após o golpe de 1964, no Ato Institucional (AI) 1. “Toda cassação é mesquinha e aberrante. A dele é particularmente boçal”, afirma o professor e historiador Luiz Felipe de Alencastro, para quem Furtado foi vítima de ódio dos “coronéis” por ter criado e implementado a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Hoje fala-se muito do AI-5, observa Alencastro, mas foram vários, e “cada um deles foi uma punhalada na liberdade democrática”.

A extensa produção de Celso foi reunida em 450 páginas pela tradutora Rosa Freire d´Aguiar, viúva do economista e responsável por seu acervo, que recentemente foi doado ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). “Os arquivos estão pegando a via Dutra na semana que vem”, brinca Rosa Freire, ao falar de transferência de sete toneladas de material do Rio de Janeiro para São Paulo. As anotações de Celso Furtado que foram base do livro estão reunidas em aproximadamente 50 cadernos, nenhum deles terminado.

“É um testemunho. Não esperem encontrar fofocas e mexericos. São momentos de luta, combates, frustrações. Esses momentos eram uma espécie de desabafo”, diz Rosa, durante o debate de ontem à noite na Livraria da Vila, na zona oeste de São Paulo. Ainda na capital paulista, ela participa amanhã (6), às 13h, de um debate na Fundação Getúlio Vargas, sobre os 50 anos da obra Economia Latino-americana e os 60 de Formação Econômica do Brasil. No dia seguinte, às 16h30, de uma mesa-redonda, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, sobre a Formação Econômica do Brasil.

O livro traz reflexões, balanços (sobre a guerra, o golpe, a luta contra o desenvolvimento) e esboços de romance. “Acho que Celso fez excelentes perfis”, avalia Rosa, citando personagens políticos como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Florestan Fernandes. Para ela, o economista foi punido “por pensar no país”. Ela vê o Brasil atual em um momento de desconstrução. “Nós todos sabemos que não estamos vivendo um período de normalidade democrática.”

Ricupero acredita que o país tem economistas “apenas competentes”, não criativos e seguidores de doutrina. Identifica “absolutismo” do mercado financeiro e diz que o sistema econômico é incapaz de apresentar soluções para três problemas centrais: aquecimento global, desigualdade crescente e desemprego estrutural.

“Acho que a força dele deve ser a nossa força. Porque o Brasil não acaba nunca. Quem acaba são os ditadores”, afirma Alencastro, aplaudido.

Para o ano que vem, quando se completa o centenário de nascimento do economista, Rosa Freire prepara o lançamento de novo volume, desta vez com cartas – do período do exílio, anteriores e posteriores. Esse material ainda permanece em Paris. Ela já leu 10 mil dessas cartas.

Confira trechos do livro:

Evidentemente, a quebra do poder feudal no Nordeste é um passo adiante. É menos importante acelerar o desenvolvimento que debilitar esse poder, se bem que as duas coisas são inseparáveis em nossa estratégia. O fim último terá que ser liberar o homem do campo, despertá-lo para a vida. Ele representa três quartas partes da população da região e nove décimos da miséria. Seu comportamento ainda é infra-humano, muitas vezes bem perto da animalidade.

Recife, 22.10.60

O imenso sofrimento que acabrunha um número imenso de pessoas das classes altas, vítimas de tantas neuroses características de nossa civilização, não me desperta um interesse particular. O que me preocupa é a deformação, a abjeção humana, provocadas pela organização social baseada na exploração econômica ou na dominação política de muitos por poucos. 

New Haven (EUA), 01.09.64

Uma geração, a minha, perdeu a batalha. Quiçá eu me equivoque, exagere a minha visão interior da realidade. Toda uma geração viveu, lutou, iludiu-se, alimentando-se da ideia de que o Brasil podia ser alto diferente disso que vi. (…) Implantou-se um sistema de poder que é essencialmente uma aliança do grande capital, sediado em São Paulo e com fortes vinculações externas, com as chamadas Forças Armadas, mistura de burocracia, partido político e sistema de repressão.

Chevilly-Larue (França), 18.10.75

Que quadro tão melancólico é o que nos apresenta este país. A situação econômico-financeira é extremamente grave, mas o governo não faz outra coisa senão enganar o povo. E também enganar os empresários, aparentemente desejosos de se deixar enganar, ou pelo menos temerosos de ver a realidade.

Rio, 25.12.79

A classe política está desgastada, deteriorada e demasiado ansiosa para ocupar espaço. É necessário que surja uma nova geração, que possa perceber a realidade com outros olhos. Quanto tempo demorará isso? Que contribuição posso dar para o advento dessa nova geração? Durante os últimos vinte anos estive preocupado, quase exclusivamente, em desacreditar esse monstrengo que foi o projeto de “modernização” pelo caminho autoritário. Posso estar satisfeito, pois ganhamos a luta. (…) De toda forma, estamos apenas no início de uma fase histórica que não se definirá enquanto não surja uma nova geração infensa a essa impostura que é a imagem do Brasil criada pelo autoritarismo e introjetada, ainda que inconscientemente, por grande parte dessa classe média.

Rio, 27.12.84

Saí pensando: bastaria que esses dois homens (José Sarney e Ulysses Guimarães) se entendessem para que essa crise política não existisse. Pelo que posso testemunhar, quem perdeu o rumo foi o Sarney. O dr. Ulisses pode ter forçado a mão, mas sempre esteve no rumo certo. Haverá ainda tempo para que acertem o passo? Quão pouco às vezes é necessário para que a história vá numa direção ou noutra, para que se evite o irreparável?

Brasília, 14.03.88