Você está aqui: Página Inicial / Economia / 2018 / 07 / Modelos econômicos desconsideram a vida das pessoas, diz Belluzzo

Desumanização

Modelos econômicos desconsideram a vida das pessoas, diz Belluzzo

Economistas insistem na "vira-latice fiscal": só cortando gastos é possível equilibrar contas. Mas não há mais de onde tirar, quando o desemprego aperta e as pessoas procuram alternativas para sobreviver
por Redação RBA publicado 30/07/2018 12h33, última modificação 30/07/2018 12h39
Economistas insistem na "vira-latice fiscal": só cortando gastos é possível equilibrar contas. Mas não há mais de onde tirar, quando o desemprego aperta e as pessoas procuram alternativas para sobreviver
cc 2.0 wikimedia
desemprego

Com austeridade neoliberal, governo Temer aprofundou o desemprego e a precariedade das relações de trabalho

São Paulo – Aprisionados em "modelos econométricos" cada vez mais distantes da realidade social, economistas liberais continuam aferrados à ideia de cortar gastos como unica alternativa possível para garantir o equilíbrio das contas públicas, sem levar em consideração o impacto dessas políticas de austeridade no dia a dia das pessoas. Em entrevista à Rádio Brasil Atual nesta segunda-feira (30), o economista Luiz Gonzaga Belluzzo critica o que chama de "viralatice fiscal" que não só não conserta como aprofunda os efeitos da crise, principalmente sobre os mais pobres, submetidos a empregos precários e obrigados a recorrerem a bicos para complementar a renda. 

"A economia – isso deveria ser banal – deve servir à vida das pessoas. É claro que há restrições, mas cada vez menos. A economia das novas tecnologias, se funcionassem direito, seria uma forma de superar a escassez. Só que essa possibilidade de garantir a oferta de bens para todos é bloqueada por relações sociais que fazem com que uns se apropriem dessa abundância toda, em detrimento de outros", diz Belluzzo, que na entrevista detalhou aspectos do artigo A desumanização da economia, publicado na revista CartaCapital.

"Estou falando em desumanização porque, na verdade, os modelos econômicos dizem que o Estado não pode gastar, o que é uma mentira deslavada. Nessa hora, deve-se arrumar um jeito de gastar, visando ao aumento do emprego, dos salários e da renda das empresas. O que estamos assistindo é uma ortodoxia um tanto burra, porque é desnecessária. A economia está com capacidade ociosa, as empresas querendo aumentar o seu faturamento e não podem", explica o economista.

"O caso do Meirelles (ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do MDB à Presidência), por exemplo, é patético. Eles todos são patéticos. Ficam dizendo que a economia vai crescer, enquanto fazem tudo errado. Isso é a desumanização da economia. Eles não pensam nas pessoas que estão sofrendo", critica Belluzzo.   

Em vez de insistir em cortar gastos que impactam na redução da renda e no aumento do desemprego para o conjunto da população, o economista defende a criação de um pacote de investimentos, principalmente em obras públicas, que tem "capacidade multiplicadora". Políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família e as aposentadorias, também têm o efeito de aumentar o consumo, criando empregos e reduzindo as desigualdade, afirma o economista. 

Belluzzo usa a construção de uma barragem para ilustrar como o investimento em obras públicas pode contribuir para destravar a economia, além de melhorar a vida das pessoas. Essa mudança de orientação na política econômica traria como resultado o aumento do emprego formal, e colabora inclusive para o equilíbrio fiscal, já que com a economia aquecida, aumenta também o pagamento de impostos. 

"Numa obra como essa, contratam-se trabalhadores, que vão gastar a renda que recebem. Ao mesmo tempo, fazem-se encomendas de equipamentos etc., o que também faz com que as empresas fornecedoras contratem mais trabalhadores. Isso é o chamado efeito multiplicador. Aumenta-se assim a capacidade de consumo como um todo, o que atrai investimentos. As empresas fornecedoras de máquinas, equipamentos e serviços vão alargando o espaço de circulação da renda."