público x privado

Eleições 2018 vão resgatar debate sobre importância do Estado, diz professor

Para Pedro Rossi, do Instituto de Economia da Unicamp, tendência já é clara no mundo: ideias neoliberais são desastrosas e serão enterradas, até mesmo pela própria direita. Risco é o nacionalismo extremo

Reprodução/Youtube

Para professor da Unicamp, modelo brasileiro atual promove desastre e está fadado ao fracasso

São Paulo – “Acredito que em 2018 as ideias neoliberais serão enterradas no debate público. Não sobrevivem diante do desastre que estão promovendo. Acho que em 2018 o debate vai ser anti-neoliberal. Seja pela esquerda, seja pela direita. Esse modelo que estão aplicando está fadado ao fracasso.” A opinião é do professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Pedro Rossi.

Para ele, ultrapassadas as fronteiras brasileiras, essa tendência já é clara. “Em relação ao mundo isso já está acontecendo. O Donald Trump é uma prova disso. No Reino Unido, o que acontece em relação ao Brexit, igualmente. E no caso brasileiro vai acontecer também. Pode vir tanto pela direita como pela esquerda.”

Na opinião de Rossi, a ideia de que o Estado é importante pode vir a ser defendida por uma direita mais nacionalista que deve ganhar poder de voz, ao mesmo tempo em que defende pautas conservadoras, que passam pela violência do Estado, por exemplo.  

A esquerda, obviamente, também deve se valer de um discurso a respeito de gestão diferente nas relações Estado-mercado que hoje vigoram. “As políticas que nos levaram a essa crise, desde 2015, infelizmente no governo Dilma Rousseff, têm um corte claramente neoliberal: a ideia de que reduzir o Estado faz com que a confiança volte, o emprego volte, o crescimento volte, o que tem sido repetido desde 2015. Estamos vivendo a pior crise da história brasileira. Esse discurso não chega em 2018. As pessoas não vão mais acreditar nisso, porque é desastroso o que está acontecendo. E o desmonte do Estado que está acontecendo no governo Temer só agrava isso.”

Mas não será difícil encontrar, no cenário político brasileiro atual, vozes à direita com um discurso nacionalista? Mais uma vez, Rossi acredita que o presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump – que venceu a eleição contra todas as expectativas e tomou posse em 20 de janeiro – pode servir de parâmetro. “É difícil, mas para um aventureiro assumir um discurso mais nacionalista não é difícil. O Trump foi isso. É extremamente conservador, racista, homofóbico etc., mas assumiu um discurso nacionalista, o que vai na contramão de outras políticas neoliberais que estão sendo aplicadas hoje.”

Na cerimônia de posse em 20 de janeiro, o 45º presidente norte-americano fez um discurso marcado por um tom protecionista, nacionalista e populista, e apontou para a defesa dos interesses do país, de seus trabalhadores e da classe média dos Estados Unidos. Assim como na campanha, já presidente continuou a defender que as pautas comerciais devem atender unicamente os interesses de seu país e que suas políticas se voltem a suas próprias fronteiras.

Alta de juros nos Estados Unidos

Para o professor da Unicamp, se a tendência de os Estados Unidos aumentarem a taxa de juros se confirmar em meados do mês, a medida pode frear a queda da taxa de juros no Brasil, que vem sendo reduzida pelo Banco Central desde outubro (quando estava em 14,25%)  até o mês passado (quando chegou a 12,25%).

Na sexta-feira (3), a presidenta do Federal Reserve (o Banco Central americano), Janet Yellen, disse que, na reunião deste mês, será avaliado “se o emprego e a inflação continuam evoluindo de acordo com nossas expectativas, e nesse caso provavelmente seria apropriado um ajuste maior dos juros”, segundo o El País.

A notícia, se confirmada, é ruim para o Brasil porque é um elemento de pressão pela desvalorização da taxa de câmbio. O aumento de juros americanos tende a pressionar a moeda brasileira por sua desvalorização em relação ao dólar, explica Rossi. “Nossa dependência externa reside principalmente na abertura financeira. Temos muita sensibilidade a notícias externas, e particularmente à política monetária americana, sensibilidade que se reflete na volatilidade da taxa de câmbio, que, por sua vez, tem efeito direto na inflação brasileira. Não vencemos essa restrição de que somos muito dependentes do que acontece lá fora.”

Em outras palavras, se a tendência a um aumento da taxa norte-americana se confirmar, provavelmente “vai ser abortado o ciclo da queda da taxa de juros brasileira”.

Por outro lado, a desvalorização do real teria efeitos positivos para os exportadores brasileiros. “Mas o Banco Central pensa exclusivamente na inflação interna. E ele sabe perfeitamente que a taxa de câmbio é um fator determinante na inflação. Então, se o câmbio começa a desvalorizar muito, ele aumenta a taxa de juros.”