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Para economista, governo deve apostar em concessões para atrair investimento privado

Flávio Fligenspan, da UFRGS, diz que Levy errou nas apostas. Mas vê no ingresso de US$ 64 bilhões em investimentos estrangeiros no país, o 4º maior do mundo em 2015, indicador de bom espaço para retomada

Guilherme Santos/Sul21
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Fligenspan: “Levy errou a mão no tamanho da recessão”

Sul21 –A confluência de erros na condução da economia com a crise política agravou a crise econômica, provocando uma recessão maior do que aquela que era estimada por Joaquim Levy. O ex-ministro da Fazenda errou na dosagem da recessão. Ao fazer uma restrição de crédito no setor privado, retirar crédito do setor público e aumentar os juros, acreditava que o PIB cairia em torno de 1,5% ou 2%. A aposta era que, após um ano, um ano e meio, a economia voltaria a crescer.

Por outro lado, se o cenário de curto prazo é ruim, o de médio prazo não é tanto, apontando saídas para a retomada do crescimento. Em plena crise, os investimentos estrangeiros diretos no país seguem altos. Para 2015, a estimativa é de um ingresso de US$ 64 bilhões, o quarto maior do mundo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia. Esse dado indica que o Brasil tem espaço para a retomada do crescimento. A avaliação é do economista Flávio Fligenspan, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que, em entrevista ao Sul21, prevê uma situação ainda difícil para a economia brasileira em 2016, mas acredita na possibilidade da retomada do crescimento no médio prazo.

Para analisar as causas da crise atual, Fligenspan remonta à crise econômico-financeira internacional de 2007-2008 e do custo que o seu enfrentamento representou para a economia brasileira. O economista não vê muita margem de manobra para o novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, mas acredita que ele pode ter uma vantagem em relação a Joaquim Levy.

“Barbosa deve insistir muito com as concessões para atrair investimentos do setor privado. Com isso, tentará passar a ideia de que a tempestade passou e que é hora de retomar os investimentos. Creio que há uma chance disso acontecer”, afirma. Além disso, assinala ainda, “quando vemos o volume de investimentos estrangeiros diretos no Brasil e ouvimos declarações de executivos de empresas estrangeiras, vemos que há, de fato, espaço para a retomada do crescimento. Esses executivos não olham apenas para o curto prazo”. “Eles olham para o Brasil e enxergam uma enorme capacidade de investimento e crescimento”.

A palavra “crise” fez parte do vocabulário cotidiano dos brasileiros em 2015. Em que consiste, exatamente, a crise da economia brasileira hoje? Qual a natureza dos problemas que estamos enfrentando na economia?

Há questões mais de médio prazo que devem ser consideradas na tentativa de responder tais perguntas. Uma delas é a crise internacional de 2007-2008 e suas repercussões na economia brasileira. Se pegarmos o PIB do último trimestre de 2008, veremos que ele já acusa o golpe da crise. O Brasil vinha crescendo em torno de 6,5% ao ano e, no final de 2008, já caiu para a casa dos 5%. O presidente Lula disse, na época, que a crise provocaria apenas uma marolinha no Brasil, mas ele sabia que isso não era verdade. Tanto que, na transição de 2008 para 2009 ele começa a se preocupar com a evolução da situação da economia, pois a questão da sua sucessão estava colocada.

Entramos em 2009, que acabou sendo um ano fraco, com o PIB fechando perto de zero. Em 2010, ano eleitoral, o governo Lula começou o ano a mil com um monte de incentivos tanto para empresários como para o consumo das famílias. O presidente Lula conseguiu entusiasmar o setor empresarial por meio de seu discurso, que era poderoso mesmo, e por meio de investimentos, juros baixos e oferta de crédito. Com isso, a economia levantou novamente e o PIB fechou 2010 com um crescimento de 7,5%. Essa recuperação ajudou a eleger a Dilma, mas deixou um problema para a futura presidenta. Aquele crescimento não podia ser sustentado naquele ritmo.

Além dos efeitos da crise internacional que já começaram a aparecer no final de 2008, os oito anos do governo Lula também queimaram gorduras de crescimento. Famílias de renda média para baixo tiveram acesso a crédito e foram estimuladas a consumir. Elas fizeram isso, contraíram dívidas e comprometeram o orçamento para os anos futuros com prestações do automóvel, da casa própria e do refrigerador, ficando praticamente fora do mercado de consumo nos próximos quatro ou cinco anos. Quando assumiu em 2011, a presidenta Dilma já não contou com essas gorduras de crescimento queimadas durante o governo Lula. Além disso, assumiu a presidência em um momento de forte desaceleração econômica no cenário internacional. Ela realmente pegou um rabo de foguete em termos de crescimento. Estava na cara que o ritmo de crescimento dos anos anteriores não poderia se sustentar. A média anual de crescimento do governo Lula, em seus oito anos, foi de 4%. A média da Dilma, em seus primeiros quatro anos, é 2,2%, praticamente a metade.

Em que medida, as causas da crise atual podem ser creditadas a essa desaceleração econômica no cenário internacional?

Essa situação está relacionada em parte ao cenário internacional e em parte ao fato de que o governo Lula utilizou muito da energia disponível para crescer. Dilma também teve alguns erros de avaliação e propôs algumas coisas que o mercado não comprou como, por exemplo, mexer nos grandes investimentos na área de energia elétrica e petróleo. Além disso, também começou a tomar algumas decisões pensando na reeleição, em um cenário menos propício ao crescimento em função de fatores internos e externos. Aí começaram a surgir algumas distorções na política econômica, como segurar os preços administrados (energia elétrica, combustíveis, gás de cozinha, etc.) e segurar o câmbio. Quando a taxa de câmbio sobe o preço dos importados também sobe, o que repercute, principalmente via matérias primas industriais, em várias cadeias produtivas que ficam mais caras.

Ela decidiu segurar esses preços para conter a inflação, mas evidentemente isso não dura a vida inteira. Além disso, também ocorreram algumas distorções nas distorções. O câmbio contido para não deixar a inflação afetou a competitividade do produto industrial brasileiro. Os importados ficaram baratos e a nossa capacidade de exportação caiu. Para compensar essas perdas, o governo começou a trabalhar com a desoneração da folha de pagamento. Foi uma tentativa de repor o que o câmbio estava tirando. O problema é que essa medida prejudica as contas públicas, pois diminui a arrecadação. Então, foi se constituindo uma teia de distorções e de cobertores curtos para ir tocando o dia-a-dia. Os resultados obtidos não chegaram a ser bons. A inflação foi contida no teto da meta. A competitividade da indústria ficou muito ruim. O processo de desindustrialização prossegue em curso. A indústria de transformação representa hoje apenas 11% do total da nossa economia. É muito pouco. Há alguns anos, esse índice era de 19%.

Trata-se, sem dúvida, de uma perda expressiva e isso tem a ver com a política cambial, evidentemente. Dilma sabia que, uma vez passado o processo eleitoral, seria preciso fazer ajustes na economia. Para tanto, me parece que em pleno acordo com o ex-presidente Lula, resolveu colocar o Joaquim Levy na Fazenda. Havia uma discussão no meio do ano passado sobre se esses ajustes deveriam ser graduais ou na forma de um choque. Venceu a ideia do choque para mostrar que o governo estava disposto a corrigir seus erros. E se venceu a ideia do choque era preciso chamar o cara da tropa de choque, o Levy, alguém que, por formação e convicção, acredita nisso mesmo. E ele entrou e enfiou o pé. Corrigiu os preços administrados e o câmbio rapidamente e saiu falando sobre o desajuste das contas públicas e sobre a necessidade de arrumá-las. Além disso, apontou para as reformas necessárias no médio prazo: Previdência, trabalhista e tributária. A ideia é reconhecer que vários erros foram cometidos e que agora é hora de consertá-los e, de preferência, rapidamente.

Mas os resultados do choque implementado pelo ministro Joaquim Levy não foram muito bons, não é?

Foram muito ruins. Na minha avaliação, ele errou basicamente em duas grandes linhas. Em primeiro lugar, ele errou na dosagem da recessão. Ele queria fazer uma recessão. Com o reajuste dos preços administrados e do câmbio era certo que a inflação iria subir. Não se sabia quanto ela ia subir, mas certamente ia subir com o reajuste de tantos preços importantes. A inflação, cabe lembrar, já estava perto do teto da meta. Levy não poderia, com sua formação ortodoxa, trazer uma inflação mais alta do que a do período anterior; Seria um contrassenso. Diante de uma inflação que estava no limite e que iria subir mais ainda, a saída dele foi propor recessão. A ideia era trabalhar com uma demanda bastante encolhida para não dar vazão a esses aumentos de preços que certamente iriam repercutir na economia. O problema é que ele errou a mão no tamanho da recessão e acabou fazendo uma recessão bem mais forte do que ele pensava…

Como é que se dosa o tamanho de uma recessão? É possível fazer isso?

Realmente não é uma coisa fácil de se fazer. Você faz uma restrição de crédito no setor privado, retira crédito do setor público, aumenta os juros e acredita que, com isso, o PIB vai cair em torno de 1,5% ou 2%. A aposta é que, após um ano, um ano e meio, a economia voltará a crescer. Foi o que Levy pensou, ou seja, que na metade de 2016, a economia começaria a se recuperar. Não foi o que aconteceu. Ele errou a medida. Esse foi um erro técnico. O outro erro não é responsabilidade dele. Foi a crise política. A combinação desses dois problemas potencializou a crise.

Na parte propriamente econômica, uma das consequências do erro de dosagem apareceu na questão fiscal, com a queda de arrecadação que, por sua vez, afetou a recuperação do superávit primário. Com o agravamento da crise política, o governo não conseguiu aprovar várias propostas que pretendia passar no Congresso, como a volta da CPMF, as reformas do ICMS e do PIS Cofins e a própria repatriação de recursos do exterior que só foi ocorrer agora no fim do ano. E muito menos ainda, conseguiu fazer avançar as reformas mais de fundo, como nas áreas da Previdência e do Trabalho.

Outra distorção importante foi provocada pelo aumento dos gastos por parte do governo federal, o que acabou prejudicando o resultado primário (diferença entre receita e despesa, não considerando as despesas com juros). Tanto é que, em 2014, pela primeira vez o setor público teve um déficit primário, o que deverá se repetir em 2015. Qual o problema disso acontecer? Há visões bem diferentes a respeito. Uma delas afirma que o problema de ter um resultado primário ruim é que se perde assim a chance de arrecadar um pouco mais para pagar a conta dos juros. Se isso não ocorre, a dívida aumenta, o que coloca em questão o tema da relação dívida/PIB. Se esta relação cresce rapidamente, pode indicar um sinal de insolvência em um futuro próximo. Em 2014, houve essa aceleração, com a relação dívida/PIB passando de aproximadamente 55% para cerca de 66%. Esse crescimento é a causa principal do rebaixamento da nota do Brasil por agências de risco.

Com a confluência do erro de dosagem da recessão com a crise política, não deu certo nem o controle das contas públicas, com a repetição, em 2015, do déficit primário que já havia acontecido em 2014, um péssimo sinal.

Que tipo de mudança pode se esperar com a troca de comando no Ministério da Fazenda, se é que é possível esperar alguma mudança? Nelson Barbosa pode fazer algo diferente em relação ao que Levy vinha fazendo?

Alguém poderá perguntar de que adianta a troca de ministros se a margem de manobra é muito pequena. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o Levy nunca foi bem aceito dentro do PT, desde o primeiro momento. Além disso, a posição dele para a negociação sempre foi muito dura. A própria Dilma parece nunca ter tido convicção em relação a ele, não do ponto de vista pessoal, mas sim da receita que ele representava.

Acho que ela foi muito convencida por Lula a adotar o caminho do choque, dentro de uma ideia de recuperar a credibilidade. O ex-presidente Lula parece ter pensado a opção Levy tal como ele pensou o início do governo dele, com Palloci, Meirelles e o próprio Levy. Era uma situação diferente, é claro, com Lula chegando ao poder com todo o medo que ele despertava no setor empresarial. Diante disso, ele precisou mostrar uma postura responsável, aos olhos do mercado, e começou a governar com o freio de mão puxado.

Acredito que Nelson Barbosa tem poucas vantagens em relação a Joaquim Levy, mas tem. A primeira delas é que muito do ruim que tinha que acontecer, o Levy já fez. Ele já fez o reajuste dos preços administrados, já fez o reajuste do câmbio, o que fez com que a inflação subisse e a recessão fosse maior do que a planejada. O rebaixamento das agências de risco também já aconteceu. Então ele chega numa situação um pouco mais favorável para tocar o dia-a-dia. Ele não tem que fazer maldades como o Levy fez. Isso me parece uma vantagem.

A Reforma da Previdência não se enquadraria nesta categoria das maldades a serem feitas?

Existem maldades de curto prazo e maldades de médio prazo. As de curto prazo já foram feitas. E as de médio prazo, como as mudanças na Previdência e na área trabalhista, ele já saiu defendendo, até para amenizar a desconfiança do mercado com a sua indicação. Na verdade, Nelson Barbosa não tem muita margem de manobra. É possível que se abra um espaço em 2016 com a divisão do PMDB e o rito do impeachment aprovado este mês pelo Supremo Tribunal Federal. A conjunção dessas duas coisas pode resultar em um impeachment cada vez mais fraco e uma ala do PMDB ingressando no governo para valer. Com isso, talvez ele consiga aprovar alguns projetos de médio prazo.

Barbosa deve insistir muito com as concessões para atrair investimentos do setor privado. Com isso, tentará passar a ideia de que a tempestade passou e que é hora de retomar os investimentos. Creio que há uma chance disso acontecer. Na área de concessões do setor de infraestrutura há muitas oportunidades de investimentos. Aqui há um dado importante que deve ser destacado. Em plena crise econômica e política, os investimentos estrangeiros diretos no Brasil seguem altos. Para 2015, a estimativa é de um ingresso de US$ 64 bilhões, o quarto maior do mundo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia. Quando tomamos um dado como este e ouvimos declarações de executivos de empresas estrangeiras, vemos que há, de fato, espaço para a retomada do crescimento. Esses executivos não olham apenas para o curto prazo. Eles olham para o Brasil e enxergam uma enorme capacidade de investimento e crescimento.

É quase inevitável que o Brasil retome o crescimento nos próximos anos, entre outras coisas porque, com o que houve no país em termos de ascensão social e de expansão do mercado interno de consumo, especialmente envolvendo os setores de baixa renda, será muito difícil recuar. É importante lembrar também que, em um ambiente de recessão, só o Estado tem capacidade de puxar a economia para cima. Aí temos uma diferença importante entre o Joaquim Levy e o Nelson Barbosa. Barbosa pensa diferente de Levy. Ele acredita que, em tempos de bonança o governo tem que fazer superávit primário. Em tempos de recessão é o contrário. No momento de recessão, o Estado tem que atuar, e penso que ele está certo. Acredito que, da metade para o final de 2016, o governo vai gastar um pouco para tentar reativar a economia. Além disso, como já mencionei, deverá apostar muito nas concessões no setor de infraestrutura. Esse é quase o único caminho para reanimarmos a nossa economia. Lembrando o dado sobre os investimentos estrangeiros diretos no Brasil, dá para dizer que, se o cenário de curto prazo é ruim, o de médio prazo não é tanto, apontando saídas para a retomada do crescimento.