Você está aqui: Página Inicial / Economia / 2013 / 02 / BB e Caixa ganham ao apostar em inclusão social e ampliação do crédito

BB e Caixa ganham ao apostar em inclusão social e ampliação do crédito

Resistentes à queda dos juros ao consumidor, bancos privados têm resultados mais fracos; aumenta pressão por aumento da Taxa Selic
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado 22/02/2013 20h42, última modificação 23/02/2013 10h39
Resistentes à queda dos juros ao consumidor, bancos privados têm resultados mais fracos; aumenta pressão por aumento da Taxa Selic

Rio de Janeiro – A divulgação do balanço de 2012 do Banco do Brasil na quinta-feira (21) revelou não somente o lucro recorde de R$ 12,2 bilhões observado pela instituição, mas também o sucesso de duas apostas feitas por sua direção: a redução dos juros dos empréstimos ao consumidor e a ampliação da carteira de crédito a partir do atendimento a uma nova gama de clientes surgidos graças ao sucesso das políticas de inclusão social levadas a cabo no país na última década. O sucesso das políticas adotadas pelo BB – e por outros bancos públicos como a Caixa Econômica Federal  se traduzem em números que chamam a atenção também pelo contraste com os resultados obtidos pelos bancos privados. Estes resistiram à queda dos juros ao consumidor e agora, segundo economistas, pagam o preço por essa opção.

No ano passado, a concessão de crédito dos bancos públicos – BB e Caixa à frente – cresceu 31,2%. Já nos bancos privados, em que pese o forte aumento da demanda em todo o país – o crescimento foi de apenas 7,1%. A comparação da receita de crédito também coloca os bancos públicos (aumento de 11%) em vantagem sobre os bancos privados (aumento de 4,5%). Por sua vez, a expansão das despesas com provisão para devedores duvidosos foi de 14,7% nos bancos públicos, enquanto os privados tiveram que desembolsar 27%.

Outro dado relevante é o sucesso obtido pelos bancos públicos no ano passado no que diz respeito à administração de suas taxas de inadimplência relativas a atrasos acima de 90 dias. No BB, esse indicador em 2012 foi 2,05% menor do que o registrado em 2011. Já nos três maiores bancos privados (Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander), a inadimplência no ano passado ficou, em média, 4,5% maior do que no período anterior.

O sucesso de uma política de crédito que apostou na confiança nos novos consumidores que conquistaram renda e chegaram ao mercado de trabalho traz à lembrança palavras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante suas duas vitoriosas campanhas presidenciais. Por diversas vezes, em comícios por todo o país, Lula afirmou que “o pobre, quando lhe dão meios para isso, não deixa de pagar a sua prestação e de honrar seus compromissos”.

Os baixos indicadores de inadimplência propiciaram à carteira de crédito do Banco do Brasil um crescimento de 24,3% em 2012. O lucro de R$ 12,2 bilhões representa uma alta de 0,7% em relação ao ano passado. Somados, os lucros dos dois bancos públicos (BB e CEF) no ano passado chegam a R$ 18,3 bilhões, o que representa uma alta de 5,6%. Já nos três maiores bancos privados, houve um recuo de 5,3%, com o lucro passando de R$ 29,2 bilhões para R$ 27,7 bilhões.

Nova realidade

Para o economista Luiz Carlos Prado, da UFRJ e do Centro Celso Furtado, a expansão dos empréstimos explica “o desempenho melhor” dos bancos públicos: “O lucro, tanto do Banco do Brasil como da Caixa Econômica Federal, deve-se à expansão das suas operações para o público em geral, o que mostra que é um bom negócio para os bancos ampliar a sua linha de crédito”, diz.

Prado ressalta a importância que tiveram as políticas de expansão do crédito para combater os efeitos da crise global: “Essa política de ampliação por parte dos bancos públicos, que começou a se manifestar desde a crise de 2008, mostrou-se não apenas acertada em termos de política macroeconômica, mas também conveniente sob o ponto de vista do retorno dos investimentos dessas empresas. Isso mostra que esse é um caminho que é melhor para o país e para os consumidores, além de, aparentemente, ser um bom negócio sob o ponto de vista meramente microeconômico e privado”.

Economista da Unicamp, André Biancarelli diz que os bancos privados terão de se adaptar à nova realidade do mercado: “O que está acontecendo na economia brasileira nos últimos anos – não só no setor bancário como em vários outros – é um processo de aprendizado, de conviver com uma taxa de remuneração mais baixa. Isso tem a ver com a queda, espera-se que permanente, da taxa de juros básicos da economia”, diz.

“O pano de fundo de vários processos da economia brasileira é esse: a remuneração, que para várias atividades era muito alta e garantida, agora está mudando. E, aparentemente, os bancos públicos estão conseguindo conviver e se adaptar melhor a essa mudança e até tirar proveito dela, com a concessão de empréstimos com taxa de remuneração mais baixa”, completa Biancarelli.

Para o professor da Unicamp, o bom resultado dos bancos públicos é ainda mais digno de nota na medida em que a queda da taxa de juros básica da economia tende em geral a provocar a piora nos balanços dos bancos: “Mas, pelo jeito, os bancos públicos conseguiram se adaptar bem a ela. Mais do que isso, o governo usou claramente os bancos públicos como uma forma de pressionar, por meio da concorrência, a queda das taxas para os consumidores. Tem a ver com a ampliação de volume de crédito, mesmo que a taxa de juros seja menor”.

Inflação

Enquanto alguns setores do mercado financeiro se queixam de um suposto aumento da pressão inflacionária e pressionam o Banco Central a aumentar a Taxa Selic, o governo resiste a essa alternativa, embora admita estudar a possibilidade de aumentar ligeiramente os juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para abril. O presidente do BC, Alexandre Tombini, tem afirmado que a ideia é manter os juros básicos no patamar de 7,25% por um longo período: “Mas, se necessário, ajustes poderão ser feitos. O fato de a Selic oscilar em patamares mais baixos do que no passado não significa que os ciclos monetários foram abolidos”, disse.

Para Luiz Carlos Prado, não há nenhuma indicação de que haja retomada da pressão inflacionária: “Você tem uma inflação um pouco acima da meta do ano passado, em um ano em que houve uma desvalorização muito grande do real – o que era desejável em vista da sobrevalorização da moeda –, mas não há nenhuma pressão. A economia continua crescendo pouco. No meio de uma crise econômica mundial, subir a taxa de juros não faz o menor sentido econômico. Não há nenhuma indicação de risco inflacionário de curto e médio prazo no Brasil”, diz.

André Biancarelli afirma duvidar que o aumento da Taxa Selic seja mesmo necessário: “Não sei se a taxa de juros vai ter de subir mesmo. Acho que é possível agüentar o tranco de uma inflação mais alta com outros instrumentos ou esperar que ela tenda a cair sem aumentar a taxa de juros. O aumento dos juros certamente seria ruim para o processo de retomada da economia brasileira, que está muito tímido ainda”, diz.

O economista diz que, mesmo que se tenha que subir a taxa de juros, essa subida será muito pequena: “Digamos que, se subir de 7,25% para 8% ou até mesmo para 8,25%, ainda assim será uma taxa básica de juros em patamares bem baixos para os padrões brasileiros nos últimos anos. Então, eu acho que essa subida que se cogita agora é conjuntural. A queda da remuneração praticada pelos bancos públicos, por outro lado, tende a ser mais permanente”.