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Políticas neoliberais seguem vivas, afirma representante da Cepal

por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 08/11/2012 19h31, última modificação 08/11/2012 19h54

São Paulo – A ideologia do neoliberalismo pode ter entrado em crise do ponto de vista do pensamento, mas segue atuante no campo político, disse hoje (8) o secretário-executivo adjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Antonio Prado, durante encontro que reuniu representantes dos vários ramos industriais da CUT, em São Paulo, para discutir as perspectivas do setor. Segundo ele, o que os países em desenvolvimento sofreram nos anos 1980 ocorre hoje em economias mais avançadas, notadamente na Europa. Ele fez um diagnóstico positivo da situação da América Latina em relação à crise internacional. “Mas a crise é séria”, acrescentou. “Temos um horizonte complexo. A região teve capacidade de defender os setores sociais. O problema é levar o desenvolvimento para toda a economia. O desenvolvimento está ilhado.”

Prado afirmou que há um processo de desaceleração da atividade industrial em todo o mundo, mais rápido nos países desenvolvidos. As exportações também caem. E a recuperação será mais lenta. A zona do euro, por exemplo, tem perspectiva de crescimento baixo nos próximos anos. Do G7, grupo de países mais industrializados, só três (Alemanha, Canadá e Estados Unidos) recuperaram o PIB do período anterior à crise de 2008. “É uma crise de endividamento. Essas crises são mais longas e bem mais significativas em termos sociais”, observou o economista.

Em um contexto de maior internacionalização do comércio, ele considera o tema da desindustrialização de certa forma secundário. “Qual é a nossa capacidade de inserção em mercados mais dinâmicos? O que a nossa região não soube fazer foi mudar nosso padrão de produção. Essa estrutura é uma fábrica de desigualdade”, afirmou, acrescentando que os maiores salários se concentram nos segmento de alta produtividade. “A política industrial deve permitir crescimento da produtividade e do emprego.”

Para 2013, a Cepal prevê crescimento de 4% para o Brasil. “A nossa preocupação é se essa recuperação é sustentável”, comentou Prado, que destaca algumas medidas nesse sentido. “A redução da taxa de juros é fundamental. Do ponto de vista brasileiro, foi um avanço muito grande”, exemplificou. Outro fator positivo foi o fim do câmbio sobrevalorizado, que desestimula investimentos. “Do ponto de vista macroeconômico, várias medidas estão sendo tomadas do ponto de vista correto. É preciso aprofundá-las.”

O economista considera importante manter a política de valorização do salário mínimo, “para manter o estímulo ao mercado doméstico e contribuir para reduzir a pobreza e a desigualdade”, além dos programas de transferência de renda.

Nesta semana, a Cepal e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgaram relatório no qual afirmam que os mercados de trabalho da América Latina e do Caribe resistiram ao “esfriamento” da economia regional, o que possibilita esperar evolução dos indicadores de emprego em 2012. A estimativa é de que a taxa média de desempregado recue para 6,4%, ante 6,7% no ano passado.

“A tendência positiva se manterá mesmo com uma desaceleração na taxa de crescimento, que passou de 4,3% em 2011 a estimados 3,2% este ano”, dizem as entidades. Para Cepal e OIT, o mercado de trabalho foi chave para evitar uma desaceleração maior, devido ao aumento do poder de compra pela criação de emprego e aumento do salário real.

Setores

O chamado Encontro do Macrossetor Indústria, que começou hoje, em São Paulo, vai até sábado (10). A vice-presidente da CUT, Carmen Foro, adiantou que este é o primeiro de quatro eventos da mesma natureza, para diagnosticar e planejar politicas para os setores industrial, de serviço público, rural e comércio/serviços. "Não queremos apenas o crescimento da indústria brasileira, mas a possibilidade de enfrentar novos e antigos desafios, como a redução da jornada e a rotatividade", afirmou, na abertura. O encontro do setor público está marcado para segunda (12) e terça (13).