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Para economistas, falta de regulação traz risco de agravamento da crise externa

Publicado por João Peres, da RBA
18:59
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São Paulo – As faltas de regulamentação e de limites para a circulação de dinheiro em mercados financeiros do mundo são responsáveis pela crise econômica internacional de 2008 e 2009 e por seu desdobramento atual. Na tarde desta segunda-feira (12), o debate “Neoliberalismo: um colapso inconcluso”, organizado pela agência Carta Maior, reúniu economistas para discutir o cenário de crise internacional.

A ausência de mecanismos de controle traz risco de que o impacto atual seja até mais grave do que o visto há três anos, quando quebras de bancos nos Estados Unidos e na Europa provocaram uma onda de pacotes de socorro a empresas “grandes demais para quebrar”. O mais preocupante é que, a esta altura, os Estados já não contam com as alternativas que foram testadas antes – e falharam.

Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), definiu o alvo das críticas. “Quando falamos em neoliberalismo, estamos falando de um conjunto de convicções e de políticas executadas a partir de determinado período. É uma política que se opõe a um momento em que as forças políticas nascidas da Segunda Guerra Mundial decidiram ‘domesticar’ o capitalismo”, explica.

A referência é ao cenário político encontrado nos Estados Unidos depois da crise de 1929, e na Europa, a partir do fim da década de 1940. Se até esses períodos predominavam tendências liberais, que acreditavam que o mercado se regularia sozinho, a social-democracia, de centro-esquerda, e mesmo a democracia cristã, de centro-direita, passaram a construir e a manter políticas de bem-estar social, principalmente em países europeus. Direitos trabalhistas e seguridade social compõem os principais pilares do que Belluzzo considera como tentativa de conter a selvageria do capitalismo. No caso dos Estados Unidos, restrições ao sistema financeiro e agências reguladoras para diferentes setores da economia foram criadas.

“O neoliberalismo é uma forma do capitalismo muito mais perene do que podemos imaginar. Essa mudança ocorreu porque as chamadas forças populares, as organizações sindicais, os partidos (de esquerda) foram derrotados politicamente pela onda neoliberal”, explica. Na Inglaterra, a principal expoente dessa linha ideológica foi a ex-primeira-ministra Margareth Thatcher, enquanto o republicano Ronald Reagan, presidente dos EUA, teve papel preponderante na desregulamentação da economia – embora tenha sido o democrata Bill Clinton o responsável por eliminar mecanismos de controle, como a separação entre bancos comerciais e de investimento, em 1999.

O ideário era de que o mercado poderia aumentar o crescimento econômico se operasse sem regras dos Estados nacionais. “Essas políticas neoliberais não redundaram em melhoria de renda nem em crescimento econômico”, critica Belluzzo. O que o cenário produziu foi a possibilidade de empresas privadas lucrarem muito, até mesmo no auge da crise de 2008, quando os governos de países ricos intervieram para evitar que grandes bancos e até montadoras de automóveis quebrassem.

Para Maryse Farhi, professora do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora convidada do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), a crise de 2008 atingiu instituições pouco supervisionadas. Além disso, ficaram evidenciadas “imensas falhas” na construção da moeda única europeia. Por fim, segundo ela, os problemas mostraram que erros de outros períodos não foram aprendidos.

Ela lembra que, apesar das críticas aos déficits públicos e da defesa de ajustes fiscais, quando o endividamento dos governos cresceu mais fortemente, em 2009, para socorrer e sanear o mercado financeiro, a iniciativa foi aplaudida. “No ápice da crise a sobrevivência do sistema monetário estava em jogo, então, viu-se alguma convergência em torno da salvação”, lembra.

Maryse Farhi sustenta que nem a estratégia para superar a crise pelos Estados Unidos – de rebaixar juros – nem a da Europa – de criar inicialmente estímulos fiscais e, agora, retirar direitos e aumentar impostos – conseguiu garantir recuperação. “A probabilidade de enfrentar um segundo episódio da crise é bastante elevada, o que deve nos levar a considerar a hipótese de que as formas de intervenção adotadas podem ter se tornado pequenas diante dos tamanhos dos problemas que os mercados têm de enfrentar”, sustenta.

Na prática, o que a economista quer dizer é que falta regulação. “A crise privada virou pública, e é muito provável que volte a ser privada”, avisa.

Recessão não é a resposta

Para Belluzzo, a estratégia dos países ricos para lidar com a estagnação econômica é inócua, porque vai na contramão do que seria preciso fazer. Dívidas crescentes, aumentos de impostos e corte de despesas com programas sociais tendem a retirar dinheiro de circulação e desaquecer ainda mais a economia.

Em vez de reduzir a relação entre o tamanho da dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) – a soma de todas as riquezas produzidas por uma nação em um ano –, o problema não se equaciona. “É um dos motivos pelos quais o corte fiscal na Europa não dará certo”, define o economista.

“A crise é complicada porque se tem um tremendo bloqueio ideológico, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa”, ironiza Belluzzo. “Não tem restrição fiscal nos EUA, tem restrição ideológica. Precisa gastar da maneira correta para aumentar emprego e renda.”

No Brasil, segundo ele, a presidenta Dilma Rousseff está com uma “batata quente” nas mãos, por ter de combinar inflação em alta, por causa de preços internacionais das commodities (matérias-primas de origem agropecuária e mineral com cotação nos mercados financeiros) e crescimento econômico.