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Aumento de juros é mais "satisfação" ao mercado do que controle da inflação, diz economista

por anselmomassad publicado 20/04/2011 17h31, última modificação 20/04/2011 19h17

São Paulo – O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) deve anunciar a terceira elevação na taxa básica de juros da economia nesta quarta-feira (20). A decisão, prevista para o início da noite, será a terceira alta promovida durante o governo de Dilma Rousseff. Para o economista Amir Khair, a medida serve mais para "dar uma satisfação" ao mercado financeiro, que pressiona pela medida, do que para efetivamente combater a inflação.

"Como no resto do mundo, (a inflação) está sendo conduzida de fora para dentro", sustenta Khair. Ele lembra que alimentos e commodities – matérias-primas como produtos agrícolas e minerais – apresentam tendência de alta em todo o mundo, levando países desenvolvidos e emergentes a conviver com elevação de preços acima de metas.

O economista trata o patamar da Selic brasileira como "a chaga da economia", por promover estragos nas contas públicas e na balança de pagamentos. De um lado, cerca de 35% da dívida do Estado aumenta atrelada aos juros. De outro, crescem importações e diminuem exportações, já que o que é produzido no país torna-se menos competitivo com o dólar desvalorizado.

Segundo estimativas divulgadas pelo Banco Central, o país deve pagar mais de R$ 230 bilhões em 2011 com juros, R$ 35 bilhões a mais do que no ano passado. O montante adicional equivale a 70% do corte orçamentário anunciado pelo Executivo em fevereiro, e representa mais de duas vezes o gasto com o programa Bolsa Família.

Para Khair, a liquidez internacional, apontada como causa da desvalorização do dólar frente ao real, permanecerá excessiva nos próximos meses. Por ter a maior taxa real de juros – descontada a inflação – do mundo, o Brasil continuará drenando boa parte desses recursos, por oferecer rentabilidade elevada com baixíssimo risco.

Ele ainda critica a seleção dos alvos da pesquisa realizada semanalmente pelo Boletim Focus. O levantamento do Banco Central consulta as projeções de juros, juros futuros, inflação e cotação do dólar para os meses futuros. É fundamentalmente a partir dessas projeções – ou expectativas – que o Copom toma suas decisões. O problema é que o mercado financeiro tem interesse na alta de juros, por lucrar com isso. Khair defende uma reformulação do estudo, limitando o papel de bancos a 8% das entidades consultadas.

Confira os principais trechos da entrevista:

Rede Brasil Atual – O Banco Central precisaria mesmo elevar pela terceira vez os juros nesta quarta-feira?

Amir Khair – A taxa Selic é de tal ordem que deveria ter deflação no Brasil, comparando com o resto do mundo. A média de juros real (descontada a inflação) dos países emergentes é negativa em 0,5 pontos percentuais, e estamos positivos em 6,1 pontos antes deste aumento. Os juros reais brasileiros são mais do que o triplo do segundo colocado, a Austrália, que tem 1,9%. Essa anomalia arrebenda as finanças públicas do Brasil há muito tempo e cria problemas no câmbio. É a grande chaga da economia do Brasil, que causa problemas fiscais e nas contas externas. Ela não apenas danifica as contas públicas do país como cria um atrativo muito forte à liquidez internacional, o que prejudica o câmbio e cria um rombo nas contas externas. Há mais dificuldade de concorrer lá fora e traz mais importações.

Seria possível baixar a taxa agora?

Na minha opinião pessoal, para o Brasil crescer de uma forma saudável, seria necessário baixar a Selic já na reunião de hoje (quarta-feira 20). Mas Copom acaba seguindo as apostas do mercado financeiro, que variam de 0,25 a 0,5 ponto percentual – sendo que a maioria acredita na maior alta. Mas é mais para dar uma satisfação ao mercado do que para efeito real de efeito de inflação, que, como no resto do mundo, está sendo conduzida de fora para dentro. Os Estados Unidos está com 2,5% de inflação, com perspectiva de 4,5% no fim do ano. Vários países têm inflação acima da meta, inclusive na Europa. Eu esperaria que o Banco Central desse continuidade às medidas macroprudenciais, mas a pressão do mercado financeiro é muito grande. É algo acusado no mercado financeiro, que ganha com a Selic elevada.

No início da gestão de Dilma, analistas ligados a instituições financeiras levantaram dúvidas sobre a autonomia operacional do Banco Central, que estaria mais atrelado ao governo...

O Banco Central não tinha autonomia operacional. Não por causa do governo Fernando Henrique nem do Lula, mas do mercado financeiro. Quem comanda o Banco Central é o mercado financeiro, tanto é que se ele for desagradado, vai acusar o BC de ser leniente com a inflação, de não tomar medidas na época certa e depois ter de fazer muito mais... O BC não se livrou do mercado financeiro para ter autonomia operacional. Prova disso é que o Boletim Focus consulta fundamentalmente as entidades financeiras. Se respeitasse, na amostra, a força econômica representada no Produto Interno Bruto na oferta de bens e serviços, o mercado financeiro não poderia ultrapassar 8% da amostra. Se você quer captar expectativa de mercado, não é apenas o setor financeiro que faz isso. No mundo inteiro não é assim, só no Brasil, que é um cassino. Para se livrar do mercado financeiro, a primeira medida seria alterar o Boletim Focus, para incluir outros institutos de pesquisa, a academia, sobre suas perspectivas sobre a inflação, já que o mercado financeiro é parte interessada. É como colocar raposa para tomar conta do galinheiro. As expectativas é o que amarra o BC ao mercado financeiro.

Mas em relação ao governo, alguma coisa mudou?

Em relação ao governo, teve autonomia nos governos Fernando Henrique e Lula. O que está acontecendo de novidade é uma integração maior entre BC e (Ministério da) Fazenda, com participação da Presidência, no sentido de evidenciar que o combate à inflação é mais amplo. Muito do que influencia nos preços não depende do Banco Central, mas de outras forças. O governo pode autorizar o aumento da gasolina sem passar pelo BC. Defendo que o controle da inflação seja conjugado com outros fatores, como a busca pelo crescimento econômico. Falta o governo cair em si de que a Selic não controla a inflação – até porque só tem efeito nove meses depois do aumento, intervalo em que acontece coisa para burro no mundo.

O sr. mencionou medidas macroprudenciais, como aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e aumento dos depósitos compulsórios pelos bancos, que restringem o crédito. Há mais cartas na manga do governo?

Há cartas na manga, mas o mercado é ágil em contornar as medidas. Existem várias possibilidades de controle de capitais. Enquanto o governo não põe a Selic em um patamar internacional e deixa de expor o real, precisa ficar botando o IOF aqui e ali. Mas pode pôr uma quarentena em investimentos externos, como deu certo no Chile. É uma espécie de depósito compulsório lá fora. Outra questão é derrubar posições vendidas dos bancos. Seriam exigências de capital muito mais fortes para sustentar posições vendidas em dólar. Ao tomar essas medidas, o governo teria uma chance muito maior de segurar o câmbio. A liquidez internacional vai continuar, porque a situação dos Estados Unidos está péssima, a Europa tem vários riscos com a reestruturação da Grécia e a crise em Portugal. Isso tudo aumenta a liquidez internacional, que é drenada, em parte, pela Selic elevada.