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Desafio para recuperar indústria é taxa de câmbio, diz Ipea

Desvalorizar a moeda melhoraria possibilidades de exportação, daria mais margem de intervenção pública e permitiria ampliar perspectivas de crescimento econômico. Para Ipea, outros indicadores da economia apontam recuperação
por anselmomassad publicado 02/07/2009 16h14, última modificação 02/07/2009 16h19
Desvalorizar a moeda melhoraria possibilidades de exportação, daria mais margem de intervenção pública e permitiria ampliar perspectivas de crescimento econômico. Para Ipea, outros indicadores da economia apontam recuperação

A taxa de câmbio valorizada é a principal fragilidade da economia brasileira para assegurar a recuperação. A análise consta da Carta de Conjuntura de Junho, organizada pelo Grupo de Análise e Previsões (GAP), da Diretoria de Estudos Macroeconômicos (Dimac), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Todos os outros indicadores analisados, incluindo geração de empregos, níveis de estoque e de uso de capacidade instalada da indústria, apontam recuperação

A Carta aponta o enxugamento da liquidez internacional, o acúmulo indesejado de estoques na indústria e os efeitos da política monetária como fatores que levaram aos resultados negativos da economia no quarto trimestre de 2008 e primeiro de 2009. A análise é de que o primeiro canal de transmissão da crise mundial se deu através da queda abrupta da demanda externa que, associada à interrupção do crédito às operações de comércio exterior, atingiu em o setor exportador da indústria.

A elevação de juros feita pelo Banco Central em abril de 2008 tem responsabilidade nesse resultado, já que os efeitos sobre a inflação almejados pelo Comitê de Política Monetária (Copom) demora de seis a nove meses para fazer efeito. "Já era esperada uma queda no ritmo de crescimento no quarto trimestre independentemente da crise", resumiu João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos. "A elevação de juros antes de fazer efeito sobre inflação, tem de fazer efeito sobre a economia real", define.

O economista Roberto Messenberg defendeu a necessidade de um mecanismo de recuperação da indústria. Para o economista Roberto Messenberg, a crise na indústria está ligada à taxa real de cambio na economia, que prejudica as exportações e a ação contracíclica do setor público. A ação de desoneração fiscal do setor público é limitado.

Como o setor público é credor das exportações em moeda estrangeira, quando a moeda se valoriza, a dívida pública cresce. "O cenário é uma armadilha, porque se isso é elemento importante para a formação da expectativa da indústria, o empresariado começa a olhar indicadores e veem a opção como insustentável", pondera. Um cenário como esse pode inibir a disposição do setor de investir.

Outra vantagem da desvalorização cambial seria reduzir a necessidade de ação do poder público no auxílio à indústria, já que o cenário favorável às exportações permitiriam a recuperação.

O movimento contrário, de desvalorização cambial, é problemático para o governo porque poderia promover inflação, especialmente pela alta dinâmica do setor de serviços. Por isso, Rosenberg defendeu o debate de reforma tributária para desonerar a indústria e tributar o setor de serviços.

"A saída seria uma mudança no mix de tributação do governo", afirmou Rosenberg. Como os serviços representam 55% no PIB, enquanto a indústria tem peso de 24%, uma elevação pequena na alíquota sobre a ampla base do setor de serviços poderia subsidiar a indústria. "Isso faria a mudança de preços relativos (da indústria em relação aos preços de mercado) que faria o mesmo efeito de uma mudança no câmbio", detalhou.

"Seria Uma taxa para aliviar situação industrial que faça com que a lucratividade volte a compensar altos investimentos e permita que saldo comercial volte a crescer nos manufaturados", defende.

Sicsu defendeu, como forma de estabilizar as taxas de câmbio, a criação de tributação para o movimento de capitais financeiro. "O movimento do capital financeiro tem uma lógica muito particular e muito diferente da lógica do investimento produtivo e de mercadorias", afirma.

 

Revisão do crescimento

O Instituto admitiu que fará uma revisão da projeção de crescimento da economia em 2009, atualmente fixada entre 1,5% e 2,5%. "Na medida em que erramos o PIB no primeiro trimestre, nossa nova projeção será menor do que a anterior, mas posso afirmar que ela será de crescimento positivo", sustenta Sicsú. A previsão é de publicação da nova expectativa no final de julho.

Clique aqui para acessar a Carta de Conjuntura de junho do Ipea (PDF).

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