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Resistência na avenida

Samba da Mangueira 2020: ‘Não tem futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão’

Campeã deste ano com temática fortemente social, escola carioca disputa bi com grito de alerta diante da violência contra povo favelado no Rio de Janeiro
Publicado por Cláudia Motta, para a RBA
08:09
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Thiago Mattos/Estação Primeira de Mangueira

Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo (à direita na foto) comemoram o samba campeão: 'Porque de novo cravejaram o meu corpo, os profetas da intolerância. Sem saber que a esperança brilha mais que a escuridão'

São Paulo – Sob o enredo A Verdade vos Fará Livre, o samba da Estação Primeira de Mangueira para o carnaval de 2020, no Rio de Janeiro, foi escolhido na quadra da escola, na madruga do domingo (13). Os compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo participaram da autoria do samba que levou a Mangueira ao seu 20º título, em 2019. O enredo História pra ninar gente grande, também assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, permitiu à escola recontar a história do Brasil sob o ponto de vista de seus heróis negros e índios esquecidos pelos livros. Marielle Franco, vereadora do Psol morta em março de 2018, foi homenageada.

Este ano, a disputa entre três finalistas contou com novidades no regulamento, como proibição de intérpretes de outras escolas e gastos exorbitantes. A temática desenvolvida por Leandro Vieira trata de uma leitura crítica da biografia de Jesus Cristo.

O samba escolhido protesta contra a violência que extermina o povo favelado, agravada durante os governos de Wilson Witzel e de Jair Bolsonaro.

Ouça o samba e confira a letra

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra do buraco quente
Meu nome é Jesus da gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E num domingo verde e rosa
Ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira
Samba que o samba é uma reza
Se alguém por acaso despreza
Teme a força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Favela tem história de superação

Em entrevista ao site Carnavalesco, Manu lembrou o bicampeonato e ressaltou o caráter democrático e revolucionário da disputa de samba, que colocou os compositores e compositoras em destaque. “O grande homenageado da Mangueira é Jesus Cristo, que luta pela partilha e pela fraternidade”, afirma. “Com certeza, ele aprovaria uma disputa como essa, aprovaria uma escola espetacular que trate a favela como um ato de sobrevivência, especialmente com esse governo que mais mata favelados e o samba mostra que estamos vivos”, disse a sambista.

“Esse bicampeonato pra gente tem uma importância pelo que significa a Mangueira. A gente que veio de outra escola, a Mangueira é tão grande e e importante quanto Portela, Mocidade e todas as outras. Mas, ela tem um diferencial que esse samba nos dá a oportunidade de falar que é a favela” destaca o Luiz Carlos Máximo. “É a única escola do Grupo Especial que fala da favela. A favela tem uma história de superação. Principalmente pelo momento que estamos. Estão matando gente nas favelas. É o recado que Jesus dá com o retorno dele. Ele fala da favela que é o povo dele. O povo oprimido. Ele chega e diz ‘se liga! Não existe futuro se não tiver partilha. Não terá o Messias!”, completa o compositor.

A Mangueira será a terceira a desfilar no domingo de carnaval, em 23 de fevereiro.


Com informações do site Carnavalesco