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Sob pressão

Moro chama de ‘ataque’ a instituições as revelações do ‘Intercept’. Glenn Greenwald reage

No Senado, ministro e ex-juiz diz que pode ter dito "alguma coisa", mas alega que conversas vazadas, se autênticas, não mostram nenhum procedimento indevido
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
12:19
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Reprodução/TV Senado

O jornalista Glenn Greenwald afirma que, apesar de Sergio Moro não ter mais conta no Telegram, Dallagnol e a Lava Jato ainda tem suas conversas

São Paulo – Com coisas que “eventualmente” possa ter dito e outras que causam “estranheza”, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, referiu-se às mensagens veiculadas pelo site The Intercept Brasil como “sensacionalismo”. Em audiência na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado nesta quarta-feira (19), que ainda continua, o ex-juiz afirmou que não houve conluio e atribuiu a divulgação das mensagens – cuja autenticidade não confirmou – como um ataque de um “grupo criminoso organizado” não só à Operação Lava Jato, mas às instituições.

“O que eu posso assegurar é que na condução dos trabalhos como juiz no âmbito da Operação Lava Jato eu sempre agi conforme a lei”, declarou Moro, cuja apresentação durou 22 minutos, menos que os 30 previstas pela presidenta da CCJ, senadora Simone Tebet (MDB-MS). Para ele, “o objetivo dos ataques é de “invalidar condenações por corrupções ou lavagem de dinheiro ou obstaculizar investigações que ainda estão em andamento e podem atingir pessoas poderosas, ou um simples ataque às instituições brasileiras”.

O ex-juiz e atual ministro disse que não usa Telegram desde 2017 e afirmou ter presenciado os ataques a seu aparelho celular, que declarou ter entregue à Polícia Federal. “Não tenho nenhum receio a respeito do que tem dentro daquele aparelho”, declarou. Ele lembrou várias vezes que quaisquer mensagens, mesmo que autênticas, não existem mais. Para Moro, há um ataque hacker que não é obra “de um adolescente com espinhas na frente do computador, mas sim um grupo criminoso estruturado”. Esse grupo, segundo ele, teria feito ainda ações de “contra-inteligência” nas redes.

O jornalista Glenn Greenwald, editor do Intercept, afirma em sua conta no Twitter que Moro está mentindo e dá o caminho para atestar a veracidade das reportagens.

Moro e o sensacionalismo

O também editor do Intercept Leandro Demori comentou o fato de o ex-juiz Moro ter usado várias vezes o termo “sensacionalismo” para classificar as reportagens do site. “Moro nos acusa de sensacionalismo um dia depois de dar entrevista no… Ratinho”, ironiza. O jornalista se refere ao apresentador do SBT, que nesta terça-feira (18) concedeu mais de uma hora de seu programa a uma entrevista com o ministro da Justiça.

Ratinho falou várias vezes de uma “redução da criminalidade” nos últimos meses, defendeu o governo Bolsonaro e o ministro. Divulgou fake news envolvendo o ex-deputado Jean Wyllys (“Eu acho que é fake, mas se for verdade…”), convocou espectadores para ato em defesa de Moro e Bolsonaro marcado para o dia 30. No final da entrevista, olhou para a câmera e disse: “Vocês (referindo-se aos críticos do governo) podem tirar o cavalinho da chuva que Bolsonaro ficará pelo menos quatro anos. E se por acaso acontecer alguma ele não cairá no ‘colo de vocês’, não. Cai no colo dos ‘botões amarelos’ (referindo-se aos generais)”. Em seguida, elogiou o general da reserva Augusto Heleno.

‘Posso ter dito’

Houve “exacerbação sobre o conteúdo”, insistiu Moro. “Tem algumas coisas que eu posso ter dito, algumas causam estranheza. Algumas podem ter sido adulteradas, para caracterizar uma situação de escândalo. Não tenho como me certificar da autenticidade disso”, acrescentou. Ele afirmou que o Intercept deveria ter encaminhado o material “para que aquilo possa ser examinado na sua inteireza pra ver se aquilo tem uma autenticidade”.

Assim, ainda que as conversas divulgadas pelo Intercept não tenham sido adulteradas, Moro afirmou que o conteúdo vazado até agora não mostra nenhuma conduta imprópria. Ele observou que,  na tradição jurídica brasileira, são comuns conversas entre juízes, procuradores e advogados e criticou o que chamou de “sensacionalismo que está sendo criado em cima dessas notícias”. Em vários momentos, o ministro defendeu a Lava Jato, que segundo Moro “interrompeu uma tradição de impunidade da grande corrupção”.

Para demonstrar que não houve conluio, ele citou dados da 13ª Vara Federal de Curitiba, que recebeu aproximadamente 90 denúncias do Ministério Público, resultando em 45 sentenças. O MP recorreu em 44 casos. “Aqui é um indicativo claro que não houve conluio nenhum”, comentou. Falou ainda que houve 291 acusados, 211 condenações e 63 absolvições, 298 requerimentos de prisão (preventiva ou temporária), com 207 deferimentos e 91 indeferimentos. “Foi sempre avaliado com base nas provas, muito sólidas.”

Novamente, Glenn Greenwald postou comentário na rede social elogiando a intervenção do senador Fabiano Cantarato (Rede-ES).  Cantarato fez crítica contundente à quebra da imparcialidade e da isonomia – por Moro não ter respeitado a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e privilegiado o contato com seus acusadores, influenciando na composição do processo que levou à condenação de Lula. Ex-delegado da Polícia Civil de seu estado, Contarato afirma que se, no exercício de sua função, caso se relacionasse de maneira não isonômica com acusadores, ele seria preso.

“Tudo o que da  acabou de dizer a Moro e sobre o comportamento dele é crucial. Isso deve ser ouvido por todos. Vamos tentar colocar isso online. Ele explicou o escândalo Moro com perfeição”, disse Glenn.

Acompanhe o depoimento