Literatura

Flip homenageia João do Rio, autor que transitou entre o jornalismo e a ficção

Referência para a gênese da crônica no início do século passado, autor trouxe em seus textos de caráter híbrido o cotidiano e o cenário de uma cidade, o Rio de Janeiro, marcada pela desigualdade e exclusão social

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João do Rio: em histórias que se aproximam de reportagens, o escritor desvenda o espírito das ruas do Rio no início do século passado

São Paulo – A 22ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 9 a 13 de outubro, vai homenagear o escritor João do Rio (1881-1921). Referência para a gênese da crônica no início do século passado, esse autor transitou entre o jornalismo e a ficção, trazendo para seus textos de caráter híbrido o cotidiano e o cenário de uma cidade, o Rio de Janeiro, marcada pela desigualdade e exclusão social, e imersa em contradições.

A Alma Encantadora das Ruas, publicado originalmente em 1908, é talvez seu mais famoso livro. De caráter modernista e recortado de humor, está disponível para download, sem custo, no site Domínio Público, do Ministério da Educação.

Nessa série de histórias que se aproximam de reportagens, o escritor desvenda o espírito das ruas do Rio no início do século, quando a política no país era dirigida pelas oligarquias da República Velha. Como meio urbano, a Cidade Maravilhosa começava a se desenvolver e a se tornar polo de cultura num tempo em que a maioria das pessoas vivia no campo.

Importância das ruas para a cultura

João do Rio abre o livro com uma conferência que deu em 1905 em busca de definições para a palavra ‘rua’, que os dicionários tanto desprezam, limitando-se à sua definição literal, sem alma, como uma simples via ladeada de prédios, casas, praças ou jardins. “A rua é a agasalhadora da miséria; a rua é a transformadora das línguas”, afirma João do Rio, deixando claro que esse é o espaço em que diferentes linguagens se inscrevem por meio de seus personagens.

O escritor adota o verbo ´flanar´, que significa andar sem rumo pela cidade pelo puro prazer de olhar o que acontece, para indicar ao leitor que esse foi o método com o qual construiu a obra. Essa é também uma referência ao flâneur do poeta Charles Baudelaire (1821-1867), quem na verdade criou esse conceito em ‘Flores do Mal’, buscando o lirismo do mergulho na multidão.

Chineses e o ópio

Como um passante, João do Rio encontra cocheiros, vendedores de livros, meninos tatuadores e vendedores de orações, tabuletas [profissionais que pintavam a fachada de lojas] e até chineses da zona portuária que se reuniam para fumar ópio.

Essa é a surpresa do livro. O Rio naquela época tinha raras casas decadentes, pobres, em que os chineses cultuavam seus cachimbos. “O guia suspende a cortina e nós entramos numa sala quadrada, em que cerca de dez chins, reclinados em esteirinhas diante das lâmpadas acesas, se narcotizam com o veneno das dormideiras. A cena é de um lúgubre exotismo. Os chins estão inteiramente nus, as lâmpadas estrelam a escuridão de olhos sangrentos, das paredes pendem pedaços de ganga [tecido de algodão] rubra com sentenças filosóficas rabiscadas a nanquim”, escreve.

A obra revela aguda sensibilidade do escritor para detectar traços do imaginário social, consciente de que é na rua que a linguagem viva, falada, se transforma e se impõe. Para o escritor, a rua é um organismo tão vivo quanto as pessoas que a ocupam.


A Alma Encantadora das Ruas, João do Rio, Ministério da Cultura, Fundação Biblioteca Nacional, 112 págs. Onde encontrar – http://www.dominiopublico.gov.br