Cantoria

Ruas de Paraitinga estarão vazias, mas as canções serão ouvidas

Sexta edição da Semana da Canção terá formato virtual e “conversas musicais” na pequena cidade paulista. Também no Vale do Paraíba, Taubaté faz um festival cheio de violas

Fábio André/Acervo pessoal/Valentina Denuzzo/Divulgação
Céu, Anelis Assumpção (com Curumin), Zé Ibarra e Liniker: jovens vozes da canção brasileira marcam presença em Paraitinga

São Paulo – Pequenina cidade (não mais que 11 mil habitantes) no Vale do Paraíba, interior paulista, São Luiz do Paraitinga tornou-se famosa pelas manifestações culturais. Da Folia do Divino à Festa do Saci, passando pelos festivais de marchinhas, o município, a 170 quilômetros da capital, virou sinônimo de arte e superou até catástrofes como a enchente de 2010. Agora, mesmo com o isolamento imposto pela pandemia, Paraitinga se prepara para a 6ª Semana da Canção Brasileira, que começa nesta segunda-feira (19) e vai até o próximo domingo (25).

O evento – viabilizado com recursos da Lei Aldir Blanc – inclui shows (gravados e lives) de artistas conhecidos e locais, oficinas e um festival. Toda a programação será on-line, transmitida pelo YouTube. As oficinas serão realizadas via Zoom. Os interessados devem ser inscrever no site da Semana da Canção, que traz ainda toda a programação e outras informações.

Shows e conversas musicais

O primeiro show, na noite de terça (20), é de Anelis Assumpção, com participação de Curumin. Outros nomes confirmados são os de Céu, Liniker e Zé Ibarra. Foram convidadas quatro bandas de Paraitinga: Los Cunhados, Quar’ De Mata, Estrambelhados e Despirocadas. Os artistas participam também de “conversas musicais” com o público.

Despirocadas, Destrambelhados (à esq.), Los Cunhados e Quar’ de Mata: bandas luizenses na Semana da Canção (Fábio Gomes/Murilo Marroco/Fabi Ferreira)

O festival teve 12 finalistas, em um total de mais de 200 inscritos. Três deles terão as músicas exibidas no dia 21, quarta-feira. A organização considera não se tratar de um festival competitivo, já que o júri avaliará “o conjunto da obra do compositor” para fazer sua escolha. “Dessa forma acredita-se revelar com mais consistência para onde apontam os novos rumos da canção brasileira.”

Memória é cultura

“Acho que os jurados estão tendo trabalho para eleger os três primeiros”, diz a cantora Suzana Salles, curadora do evento. Ela vê na Semana da Canção uma demonstração de força e diversidade da arte brasileira, além da preservação da história musical do país. “Memória é cultura, é o que está nos sustentando neste momento. E a história em São Luiz do Paraitinga é a grande memória coletiva”, afirma.

Surgida no movimento chamado de Vanguarda Paulista, nos anos 1980, a paulistana Suzana elegeu Paraitinga como sua cidade do coração. Ela aportou ali depois de ser jurada de um festival em Taubaté. Foi quando conheceu Galvão Frade, secretário luizense da Cultura e integrante do Grupo Paranga.

Suzana Salles: evento de Paraitinga, que mostra força e diversidade da canção brasileira, será dedicado a Nhô Frade (Fotos: Angélica del Nery e reprodução)

Homenagem a Nhô Frade

A Semana da Canção deste ano, por sinal, é dedicada a Nhô Frade, irmão de Galvão e um dos fundadores do Paranga, que morreu em março, aos 59 anos, vítima da covid. Mais do que uma figura conhecida por todos, Nhô era um pouco da alma da cidade. “Ele vai estar muito presente”, diz Suzana, lembrando da participação dos também músicos Camilo e Caio Frade, filhos do artista.

A pandemia, claro, fez aumentar os cuidados. “A ideia original era bem diferente do que esta que estamos levando ao público”, diz a curadora. “Todo mundo está trabalhando muito solidariamente, sabendo dos problemas de todos. Não está na hora de juntar, de jeito nenhum. As pessoas (que participarão do encontro) estão praticamente solando. Em São Luiz do Paraitinga, ninguém encontrou ninguém.”

Cada um com seu ‘Brasilzinho’

Tristezas à parte, Suzana ressalta a força da cultura. “Somos nossa história, nossa trajetória”, escreveu no texto de apresentação da Semana da Canção. “Visualizo um Brasil onde cada habitante carrega um Brasilzinho dentro de si, com suas músicas, sua natureza tão bela e diversa, seus mistérios de América do Sul portuguesa, negra e índia.” Alento ao infinito, acrescenta.

“Cada um desses (inscritos) é um novíssimo compositor que está fazendo a sua música”, afirma Suzana. “A canção brasileira é tão abrangente e transversal que não existe uma coisa parecida no mundo.” Para a edição deste ano, ela explica que quis dar mais visibilidade aos músicos locais. Ao mesmo tempo, convidou músicos contemporâneos com presença já consolidada na cena artística brasileira. Suzana conta, por exemplo, que ficou abismada ao conhecer Liniker, “uma das maiores intérpretes de música popular surgidas nos últimos tempo, uma potência, um dínamo”. Cita sua interpretação de Flores Horizontais, que causou a ela emoção parecida ao ouvir a canção na voz de Elza Soares.

Se as normalmente animadas ruas de Paraitinga não estarão tomadas nos próximos dias, as canções não vão parar. “É nosso maior tesouro”, lembra a cantora.

Em Taubaté, festival de arte tem homenagem a Paulo Simões e foco no cuidado ambiental

Pertinho de Paraitinga, e quase ao mesmo tempo, Taubaté recebe o 4º Festival de Arte Vale do Paraíba, de quarta (21) a domingo (25). Com aproximadamente 30 artistas, o evento prestará tributo ao cantor e compositor Paulo Simões. Um encontro cheio de violeiros, como o próprio homenageado, além de Renato e Chico Teixeira e Levi Ramiro. E o próprio grupo Paranga.

Segundo os organizadores, o foco desta edição é o desenvolvimento humano e a questão ambiental. A programação inclui o fotógrafo Araquém Alcântara, referência no assunto.

Além das apresentações musicais, o festival terá oficinas, rodas de conversa e palestras. O evento será transmitido via YouTube. A programação pode ser conferida no site www.festivaldeartevaledoparaiba.com.


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