Rumo da imaginação

Podcast ‘Charge Falada’: Aroeira e Miguel Paiva falam de humor e da fartura de absurdos no Brasil

Podcast criado por dois dos maiores cartunistas do país fala de humor, de música, das ideias das charges e do que dizem sobre o Brasil

Divulgação
"Todo mundo que foi conversar com a gente, até quem duvidou da ideia, chegou, gostou, se entusiasmou e contou várias coisas", contam os apresentadores sobre o podcast

São Paulo – Para o cartunista, jornalista e roteirista Miguel Paiva e o chargista, caricaturista e saxofonista Renato Aroeira, falar de charge é, antes de tudo, um exercício para também refletir sobre o Brasil. Não à toa, essa foi a saída encontrada pelos dois, que estão entre os maiores cartunistas do país, para conceber uma ideia já antiga, mas que ganhou força em meio à pandemia de covid-19 e ao governo Bolsonaro. Em vez de desenhar, contar as ideias e as técnicas por trás de cada charge numa espécie de “viagem rumo à imaginação”, como descrevem. A proposta sintetiza o podcast Charge Falada, lançado neste ano e que já conta com 11 episódios divulgados nas principais plataformas digitais de áudio do Spotify, Google Podcasts, Soundcloud, Deezer, Amazon e na TV 247. Produzido pela Rádio Garagem, o programa é dirigido por Edson Mauro, idealizador do podcast e locutor na Rádio Globo. 

O podcast ainda retoma um hábito que era comum antes da internet se popularizar como hoje. Segundo Aroeira, os cartunistas se telefonavam para descrever a charge. “Era muito no sentido de perguntar se já tinham visto em algum lugar, se já tinham feito. Na verdade contar a charge é muito fácil, a gente percebeu isso de cara. Todo mundo que foi conversar com a gente, até quem duvidou da ideia, chegou, gostou, se entusiasmou e contou várias coisas”, descreve o apresentador. 

Traços e técnicas

Em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual, Aroeira e Paiva comentaram sobre os bastidores da produção do podcast Charge Falada, que traz semanalmente um convidado cartunista para falar de charges e, por consequência, da situação do país. Ao longo dos 11 episódios já passaram grandes nomes como a cartunista Laerte Coutinho, Claudius Ceccon, Chico Caruso até a geração mais nova de chargistas como Carol Andrade, conhecida como Carol Cospe Fogo, e Carol Ito. Os convidados, segundo os apresentadores, com seus traços e técnicas, estabelecem também novos pontos de vista que ajudam a analisar a realidade do país. 

O quadro brasileiro, aliás, tem contribuído inclusive para roteirizar o podcast com várias sessões. Como são chamadas as categorias que conduzem as análises do programa. Entre elas a “pagando mico” que ironiza os disparates das instituições do país, ao “bundão”, que revela comportamentos pessoais de personalidades políticas. “A gente foi pensando em quais categorias precisávamos ter. E é muito fácil você fazer esse tipo de categoria no Brasil de hoje. É tudo uma maneira da gente subdividir a fartura de absurdos que a gente tem”, comenta Paiva.

O presidente Jair Bolsonaro, segundo os apresentadores, tem sido o “principal bundão”. “Já pegou essa categoria quatro vezes”, citam. “Mas tem outros campeões. O (ex-ministro da Saúde general Eduardo) Pazuello já ficou nessa categoria muitas vezes. Agora é o ministro (do Supremo Tribunal Federal) Kássio (Nunes Marques) que está acompanhando e ocupando todas as categorias”, acrescenta o cartunista.

Exercício de imaginação

Apesar dos absurdos da cena política brasileira, o podcast Charge Falada também é conduzido com muita música, bom humor e reconhecimentos positivos com outras categorias. Na sessão “Narcísio”, por exemplo, os cartunistas destacam a charge feita por eles próprios, até a categoria “deu o que falar” que trata dos trabalhos que impressionaram quem é do ramo. 

Para Paiva e Aroeira, o podcast retoma o que está na base da charge, que é o seu compromisso social e educativo. “Paulo Freire trabalhou com mais de um cartunista, com o Miguel Paiva, o Claudius e outros porque ele compreendia bem esse poder. Eu na verdade comecei minha carreira de desenhista, ilustrando livros didáticos. A educação te obriga a ser muito atento. Você pode fazer a charge metendo o pé na porta, ou como dizem, postar e sair correndo. Mas no trabalho educativo você tem que pensar o que está dizendo com muito cuidado”, observa Aroeira. 

Paiva conclui que a questão de interpretação da realidade está diretamente relacionada com a compreensão de uma charge. De acordo com ele, “falar a charge” é “estimular a imaginação”. “É fascinante a ideia de você estar cutucando e estimulando as pessoas a imaginarem o desenho na cabeça delas.” 

Confira a entrevista na íntegra 

Redação: Clara Assunção