Arte e política

Grupo ‘Esquerda Compra da Esquerda’ promove festival de música para apoiar artistas em meio à crise

Considerado o 1º Festival de Música de Esquerda do Mundo, projeto reúne mais de 30 bandas de sexta até segunda (19) em evento virtual com ingressos a partir de R$ 1. Valor arrecadado será revertido em apoio ao trabalho dos músicos e organizadores

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Com mais de 150 mil membro, grupo ECDE vem se tornando uma importante rede de apoio financeiro e vitrine virtual para profissionais de diversas áreas da esquerda. Objetivo do festival é dividir protagonismo com os artistas independentes, fortemente impactados pela pandemia

São Paulo – Em meio a uma crise econômica que afetou a todos, e de forma ainda mais severa o setor cultural, o grupo “Esquerda Compra da Esquerda” promove seu 1º Festival de Música para dar visibilidade e apoiar a continuidade do trabalho de 32 artistas. O encontro virtual tem início às 19h desta sexta-feira (16) e segue até segunda (19), com ingressos a partir de R$ 1, dando direito às quatro noites de shows. Todo o valor arrecadado será distribuído igualmente entre os artistas e a equipe de organização. 

Segundo os idealizadores, este será o primeiro festival de música de esquerda no mundo. O evento, que será transmitido pelo canal no Youtube e no Instagram do grupo ECDE, vai conectar artistas do campo progressista e de diferentes regiões do Brasil e até do exterior no palco virtual para fazer música e protesto.

“O festival é um convite para que as pessoas tenham a opção de enfrentar o isolamento social ouvindo uma boa música. A qualidade do trabalho dos artistas é impressionante”, destaca a artista plástica e idealizadora do projeto progressista, Erica Caminha, à RBA.  

Esquerda fortalece a esquerda

A proposta de criar um festival surgiu a partir do sucesso da alternativa progressista que vem ganhando terreno internet afora. Desde novembro do ano passado, quando Erica decidiu transformar seu projeto pessoal, de criar uma cooperativa, em um grupo no Facebook aberto para a exposição e venda de trabalho de profissionais de diversas áreas com o mesmo perfil político, o grupo ECDE vem se tornando uma importante rede de apoio financeiro. 

Em cinco meses, o projeto saltou de 60 mil para mais de 156 mil membros, espalhados em pelo menos 670 cidades e 39 países. “A coisa cresceu meio que no susto. Eu já achava que ia crescer, mas não tanto e tão rápido. E pelos nossos cálculos, o valor mais ou menos movimentado é por volta de R$ 2 milhões”, estima. “Recebo muitos comentários, de muitas pessoas, que estão conseguindo colocar comida na geladeira, pagar as contas de luz, internet e o aluguel. Os depoimentos que tenho são emocionantes”, descreve a idealizadora.

“Tem todo o profissional que possa imaginar, desde o de pompoarismo até produtor rural. Temos o agricultor, o músico, o professor, a psicóloga, uma infinidade de profissões e muita gente empreendendo. Odeio essa palavra, mas o fato é que as pessoas se encontram desempregadas e são obrigadas a empreender e se reinventar. Então, a nossa proposta é emponderar economicamente os nossos, quem defende direitos humanos, sociais, o meio ambiente e a soberania dos povos”, completa. 

Artistas independentes e de esquerda

Os integrantes do grupo ECDE decidiram promover o festival de música como uma forma também de dividir o protagonismo com os artistas de esquerda em meio ao cenário imprevisível de escalada da pandemia. “Até porque a arte é uma das primeiras atingidas”, ressalta Erica. Antes da pandemia, o setor cultural era responsável por 2,61% de toda a riqueza nacional, segundo dados da Unesco. Mas o cenário de crise sanitária comprometeu a realização de atividades artísticas, o que levou a perdas de receita.

A professora e cantora Lívia Milena avalia que a realização do festival progressista fortalece os artistas independentes que, longe do mainstream, não têm recursos suficiente para a realização de lives. As transmissões virtuais, que marcaram o primeiro ano de pandemia, ficaram restritas a uma minoria formada por artistas patrocinados, enquanto uma boa parte sequer dispõe de acesso à estrutura, como apontou o levantamento “Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil”. 

“Nós imaginávamos que as lives, a exposição na pandemia, colocariam todos da arte, de uma forma ou de outra, no mesmo lugar, ombro a ombro. A internet está aí aberta e todos têm o direito de acessar e jogar sua arte para o mundo. Mas o capitalismo também está nisso de uma forma cruel, porque a forma de distribuição daquilo que você posta não é igual para todo mundo. Existe a mão onisciente de um mercado dentro disso também. Tanto para captar patrocínio, bancar grandes estruturas, como para distribuir e fazer com que a sua música chegue nas outras pessoas. Então é um trabalho de formiguinha que não é fácil”, lamenta Lívia. 

Protagonismo dos companheiros

Natural de Santo Amaro, na Bahia, onde reside até hoje, a cantora conta que nem todos os artistas, principalmente os que também são servidores públicos, puderam acessar à Lei Aldir Blanc ou editais locais. Desde dezembro no grupo Esquerda Compra da Esquerda, Lívia, que se apresenta no domingo com o artista Márcio Valverde, conta que foi uma das primeiras a se inscrever no festival que considera uma oportunidade. “A gente luta por esse tipo de apoio mínimo a vida inteira e é muito complicado e difícil de conseguir”, conta. 

“No grupo estamos conhecendo as outras bandas, artistas e fazendo encontros e reuniões online para pegar dicas, técnicas de gravação e postagem. Porque esse é um tipo de conhecimento que não está acessível para todo mundo. E aí a oportunidade do festival para nós todos que estamos ali, e para as outras bandas que estão chegando. Tem muita gente boa. Os canais desses músicos e bandas são materiais de altíssimo nível e qualidade que não deixam a desejar e não devem a nenhuma grande banda e cantor que faz sucesso, ganha dinheiro e faz lives patrocinadas”, acrescenta. 

As apresentações

Além de Lívia, entre as apresentações musicais estão também Fernando Maynart, Limonge, Dão Ferreira, Samba Pluz Size, Bia Alcure, João Black, Filipe de Freitas, Alline e July, Borralheira, entre outros que revelam na sua arte o protesto e o coro contra o racismo, o fascismo e a defesa da democracia e do empoderamento das mulheres. 

Os ingressos vão de R$ 1, para que todos possam participar, até R$ 10 e 30. Nesta categoria, os ingressos, além de darem acesso às quatro noites do festival, também permitem a participação em sorteios. Contribuições a partir de R$ 100 receberão um presente enviado pelos membros do Grupo Esquerda Compra da Esquerda. Há ainda o ingresso no valor de R$ 350 que dá direito a um combo VIP, com acesso aos shows, premiações e bate papo com as bandas nos canais do festival. O evento também contará com a apresentação do ativista político Edmilson Magrão, do canal Inteligência Acima da Mídia no Youtube, e da militante Miriam Casas, do movimento Stop Bolsonaro Mundial. 

Como contribuir?

As contribuições e aquisições de ingressos podem ser feitas via Paypal, no endereço de e-mail: [email protected]. Os valores também podem ser depositados em nome de Ana Ruth Cunha de Oliveira, no Banco do Brasil, agência 108-2 e conta corrente C/C: 108267-1 ou via PicPay no conta @erica.caminha.hassmann. Após a compra, o comprovante de depósito deve ser enviado ao e-mail [email protected], que encaminhará as credenciais.

Os interessados podem conferir o trabalho de todos os artistas da esquerda na playlist do Spotify Rádio ECDE Antifa. “A gente precisa se defender e essa é uma forma que encontramos”, enfatiza a idealizadora.

Confira a programação do Festival ECDE

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