Xique-Xique

Genival Lacerda, com seu forró, cantou no ritmo da irreverência

Compositor paraibano, mais uma vítima da covid, completaria 90 anos em abril

Divulgação
O chapéu era uma das marcas registradas de Genival Lacerda, que cantou pelo país durante quase sete décadas

São Paulo – Ao partir, na quinta-feira (7), com 89 anos e 68 de carreira, Genival Lacerda ganhou a reverência de artistas de diversos estilos e gerações. De Alceu Valença a Geraldo Azevedo, de Marcelo D2 a Pato Fu, de Daniela Mercury a Leci Brandão. A sambista, por sinal, várias vezes ganhou queijo coalho nas visitas que recebia.

Ivete Sangalo, por sua vez, contou que foi dele o primeiro show a que assistiu, ainda pequena, levada pelo pai. Já Chico César, paraibano como Genival, lembrou que já gostava desde criança, muito antes de conhecê-lo e de gravarem juntos. “Que astral! E que graça em suas divisões rítmicas matreiras. Que artista imenso! Fico com essa lembrança da alegria, de seu jeito de aproveitar a vida”, postou o cantor e compositor.

“Ele tá de olho…”

Na estrada havia algum tempo, Genival Lacerda – que completaria 90 em abril – tornou-se definitivamente conhecido em 1975, com Severina Xique-Xique. Era um forró em parceria com João Gonçalves que no refrão repetia o verso – matreiro, como diria Chico – “Ele tá de olho é na butique dela”. Citado por Marisa Monte no álbum de estreia da cantora carioca, lançado em 1989. A música foi gravada, entre outros, pelo grupo vocal MPB4.

O crítico musical Mauro Ferreira lembra ainda, no portal G1 que em 1975 Genival já somava duas décadas de carreira fonográfica, iniciada com a gravação de Coco de 56, parceria com João Vicente. E com uma obra associada à alegria, como escreveu: “Genival foi uma das caras irreverentes dos gêneros musicais nordestinos genericamente rotulados como forró”.

Vítima da pandemia

O compositor morreu em consequência de complicações causadas pela covid-19. Estava internado fazia mais de um mês em um hospital de Recife. Ao sair de sua Campina Grande (onde foi enterrado ontem ao lado da mãe, Severina), ele foi para a capital pernambucana em 1953. Onze anos depois, para o Rio de Janeiro. “Foram dias bem difíceis. Os momentos mais difíceis da minha vida, em que todas as famílias brasileiras estão passando por isso, com familiares”, disse o também cantor João Lacerda, filho do artista (que teve 10), sobre o período de internação.

“Do ponto de vista rítmico, a obra do artista gravitou em torno dos cocos, xaxados e baiões, entre outros gêneros afins. E essa afinidade residia sobretudo nas letras leves e bem-humoradas”. escreveu Mauro Ferreira.

Assim, basta lembrar dos títulos de alguns de seus sucessos. Casos, entre outros, de Radinho de Pilha (Namd e Graça Góis) Mate o Véio e o Rock do Jegue (Bráulio de Castro e Célio Roberto), conhecida também como De quem é esse jegue?. “A irreverência dele é o que mais marca o povo”, disse o filho João.