Arte periférica

MC Cabelinho resgata funk consciente em disco de estreia: ‘Elite se faz de cega’

No disco “Ainda”, funkeiro transformou sua história e de amigos em músicas inspiradoras

Cadu Andrade
Em 13 faixas, MC Cabelinho aborda três perspectivas no disco, como as crônicas da vida na favela, as canções mais românticas e as músicas sobre superação

São Paulo – Olhar para a sua comunidade e mostrar ao mundo a realidade que viveu e de quem ainda o cerca. É dessa forma que Victor Hugo Nascimento, o MC Cabelinho, deu vida ao seu primeiro álbum Ainda – referência à gíria carioca –, lançado em setembro. O artista dá vida ao funk consciente e coloca o discurso político como pilar de seu novo trabalho

Aos 24 anos, cria do conjunto das comunidades Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, na zona sul do Rio de Janeiro, Cabelinho transformou sua história e de amigos em músicas fortes e inspiradoras. Seu objetivo é dialogar com as favelas, mas também quer ir além e quebrar o preconceito da elite sobre o gênero.

“A elite se faz de cega e surda para a realidade da comunidade. Mesmo que não gostem da sonoridade, precisam parar para ouvir e entender o que queremos dizer. Entender a nossa arte é o mínimo necessário antes de julgarem, mas não sabem de nada e ainda querem classificar a gente como bandido”, critica o funkeiro.

Em 13 faixas, MC Cabelinho aborda três perspectivas dentro do álbum Ainda, como as crônicas da vida na favela, canções mais românticas e as em que rima sobre superação e vitória. Segundo ele, trazer diversas mensagens é uma maneira de atingir pessoas diferentes da comunidade.

“A primeira música que fiz para o álbum foi ‘Maré‘, que fala de um jovem que entrou para o crime por falta de oportunidade. Depois veio ‘Liberdade‘ que conta a história de um amigo que foi preso, mas conscientizando que isso não é vida. Tem várias histórias de amigos que morreram no tráfico porque não tiveram a mesma oportunidade que eu”, afima.

Funk consciente

O funk tornou-se uma das sonoridades mais consolidadas do Brasil, chegando em todas as regiões do país. O gênero é responsável por levar cultura aos jovens periféricos, além de possibilitar a emancipação financeira e reconhecimento nacional através da arte.

Para MC Cabelinho, Ainda é uma forma de impor a existência do jovem negro em espaços não alcançados antes, principalmente num país bastante violento e racista. “É uma forma do público elitizado entender a realidade do morador na comunidade, quando a criança vai para a escola.”

Na faixa de abertura do disco, “Reflexo”, o funkeiro convidou o rapper BK’ para relatar as operações policiais na favela. “O caveirão e a barca da Choque / Eles trazendo o cheiro da morte / Virou rotina esse corre-corre / E, nessa hora, o morador que sofre“, rima Cabelinho.

O disco foi gravado durante os protestos nos Estados Unidos pela morte de George Floyd, que intensificou o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). “Isso e a violência do Rio de Janeiro influenciaram demais. A faixa com o BK’, por exemplo rolou durante as manifestações, com a gente acompanhando tudo de dentro do estúdio. Além da minha realidade na comunidade, esse movimento inspirou muito”, relata.

Inspirações e arte

Em seu disco, MC Cabelinho conseguiu trazer a participação de uma referência de infância, o também funkeiro MC Orelha. O jovem artista conta que ouvia o ídolo a caminho da escola e, a partir dali, começou a entender o cunho social que o funk abordava nas letras.

Apesar da sonoridade das batidas do funk a brasileira, o artista carioca não esconde outra inspiração que carrega na música: a cantora britânica de soul Amy Winehouse, que morreu em 2011. “Quando parei para ouvir a música dela e conhecer o primeiro álbum (Frank, de 2003), depois Back to Black (2006), vi que as músicas dela eram verdadeiras. Eu admiro demais isso, porque é igual aos MCs de funk que cantam o que vivem. Isso me conquistou. Mesmo que sejam temas diferentes, é algo verdadeiro que mexe comigo”, diz.

MC Cabelinho também se destaca por misturar o rap e o funk na sua música – dois gêneros oriundos da periferia. Ao mesmo tempo que traz a conscientização nas letras, ele também defende o lançamento de músicas mais leves. “O público me cobra um pouco para trazer isso, porque o funk também é essa cultura mais alegre, né?”, acrescenta.