Álbuns fotográficos

O disco começa na capa: antes de começar a girar, a música mostra que é também visual

Diretor de fotografia e cineasta prepara livro para contar histórias de capas, discos e artistas. E do país

Reprodução
A ideia original para o "Clube da Esquina 2" era bem diferente. Mas a capa ficou com uma foto de 1892, e o álbum de Milton tornou-se ainda mais marcante

São Paulo – Milton Nascimento perdeu algumas noites de sono durante a gravação do álbum Clube da Esquina 2, em 1978. Já conhecido inclusive fora do Brasil, ele tinha reunido uma turma e tanto para o novo trabalho: além dos “compatriotas” Lô e Márcio Borges, Flávio Venturini, Toninho Horta, Beto Guedes, entre outros, tinha Paulo Jobim, Elis Regina, Chico Buarque… Depois de Milton, Geraes e Milagre dos Peixes, o cantor, aos 36 anos, se preparava para criar mais um clássico da música brasileira. Mas o que incomodava Milton não era nenhum detalhe técnico de gravação, arranjo ou parceria. Era a capa do disco.

Como tinha muitas participações, a ideia era colocar fotografias de todo mundo dos tempos de criança. E foi um tal de vasculhar gaveta. “Todo mundo que tinha a ver com o Clube da Esquina mandou foto. Até quem não tinha nada a ver”, lembra o diretor de fotografia, designer e cineasta Locca Faria, um dos responsáveis pelo trabalho. Tudo ia bem. O plano tinha empolgado Milton. Mas surgiu um problema. “Quando estava para terminar o disco, me chega a notícia de que a mãe do Lô não achava foto dele pequenininho”, lembra Locca. “Aí dançou a ideia. Estava lindo…”

A solução vem de longe

O disco, duplo, estava praticamente pronto. Recheado de pérolas: Credo, Nascente, Casamiento de Negros, O que foi feito deverá / de Vera, Testamento, Maria, Maria, Cancion por la Unidad de Latino America, Léo. Mas e a capa da do disco?

Foi quando apareceu Vicente, irmão de Ronaldo Bastos, vindo de Londres. Na capital inglesa, tinha ido a uma exposição de fotografias da época da Revolução Industrial. O autor era o inglês Francis (Frank) Meadow Sutcliffe, um pioneiro no registro do cotidiano da classe operária. Vicente trazia um cartão da exposição, com uma foto tirada em 1892 chamada Stern Reality (“dura realidade”, em tradução livre). Um bando de garotos, de costas, pendurados ou apoiados em um muro.

A turma olhou e não teve dúvida: era a imagem da capa! Mas havia um problema, era preciso conseguir autorização. A direção da EMI foi acionada, e agiu com rapidez. Assim surgia uma das capas de disco mais emblemáticas da música brasileira.

A história é uma das muitas colecionadas por Locca Faria, que prepara um livro para falar justamente da criação de capas de discos. A Arte do Vinil – 31 x 31 tem lançamento previsto para o ano que vem. O número faz referência às medidas do LP, formato que apareceu no mercado fonográfico no final dos anos 1940.

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A parte interna da capa do disco, recheada de fotografias: preocupação com a concepção do álbum e não apenas com a parte musical

Novas ideias

Apaixonado por fotografia, aos 18, 19 anos Locca já trabalhava na área. Foi assistente de câmera e cinegrafista. Um dia, um amigo perguntou se ele não se interessaria em um trabalho extra: fazer a capa de um disco, de um músico clássico chamado Marlos Nobre, para um álbum que sairia pela Philips. As fotos foram feitas na Sala Cecília Meireles, na Lapa, região central do Rio de Janeiro. Gostaram do resultado, e logo surgiu um segundo convite. Até que Danilo Caymmi o procurou para fazer a capa de um disco independente. E a coisa andou.

Eram meados dos anos 1970, o grafismo nos discos começava a ser descoberto e valorizado no Brasil. Nomes como Cafi, Elifas Andreato e Noguchi, entre outros, apareciam e se destacavam. A capa seria também um chamariz nas lojas. As gravadoras, no entanto, ainda relutavam, devido aos custos de produção. Mas os artistas se encantavam com o resultado. “Todos queriam fazer as capas mais elaboradas possíveis.”

Entrava outro elemento, a parte interna do disco, que também exigia cuidados. O do LP Clube da Esquina 2, por exemplo (veja acima), trazia uma infinidade de pequenas foto, tiradas por Cafi e por Locca. E a famoso foto da capa recebeu tratamento especial, com o chamado jato de areia, para ficar com aquela aparência granulada, aquela imagem inesquecível.

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Em 1980, os jovens do grupo vocal Boca Livre lançavam seu primeiro disco. Mas no dia da foto, na praia, o tempo virou e ficou nublado

Capa de disco, álbum de fotografias

No livro, além das histórias das capas de disco, Locca pretende contar um pouco dos bastidores das gravações. Ele testemunhou, inclusive, o surgimento de alguns artistas, caso do grupo Boca Livre. É autor da capa do primeiro álbum, 40 anos atrás. “O disco independente mais vendido da história”, recorda (confira imagem acima).

Assim, para fazer a fotografia que iria para a capa, o grupo se encontrou na casa de David Tygel, em uma tarde no Leblon, zona sul do Rio. De lá, os quatro (David, Cláudio Nucci, Maurício Maestro e Zé Renato) caminharam com Locca até a praia. E aí também entrou, novamente, o imponderável.

“No dia em que nós combinamos, o tempo virou, choveu, ficou nublado. Mas decidimos não perder a viagem”, lembra o fotógrafo. E a foto do primeiro LP saiu. O grupo gostou. Tanto que, tempos depois, Cláudio Nucci, já em carreira solo, procurou Locca e disse que queria “uma foto daquele tempo nublado”, referindo-se ao “estilo” da imagem.

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Nana Caymmi em clique na Cidade Universitária, em São Paulo: a vida da cantora estava realmente “mudando de vento” naquele início dos anos 1980

Também é dessa época a capa do disco Mudança dos Ventos, de Nana Caymmi. A faixa-título é composição da dupla Ivan Lins e Vitor Martins. E trazia, de fato, uma mudança na vida da cantora, iniciando um romance justamente Cláudio Nucci.

A foto foi feita na Cidade Universitária, em São Paulo. Nana fazia show na capital paulista e convenceu Locca a pegar a ponte aérea. Passaram algumas horas naquela área arborizada.

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Bastidores do Clube da Esquina 2: Simone, Chico, Marieta Severo e Milton; Beto Guedes e Lô Borges; Elis e Milton gravando O que foi feito de Vera (Locca Faria)

Bastidores

No livro, o diretor de fotografia pretende contar não apenas a história por trás das capas, mas narrar bastidores das gravações. Seus arquivos também contém uma infinidade de imagens dos artistas entre uma passagem e outra. Ele pretende também contar um pouco também da parte técnica da produção de alguns álbuns, da criação, da ideia à execução,nos tempos da prancheta.

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Censura deixou a bandeira, mas proibiu o nome do disco de Egberto Gismonti na capa. Ficou um “X” no lugar. A parte interna é repleta de imagens

“Primeiro, eu entrava no mundo do artista. Ia para o estúdio, convivia com a pessoa. O disco é parte integrante daquele artista, é a vida dele. Então, tem um fator emocional muito grande”, observa Locca. “Eu ouvia as músicas, elas cruas, gravadas no violão. Participava daquela gravação, dos arranjos. Isso cria uma concepção na cabeça, que me levava à fotografia. A ideia do livro é contar como surgiram essas capas, como foram criadas, a técnica da época”, acrescenta o ex-estudante de Arquitetura.

Com o livro, Locca ainda vai atender a pedidos de um velho amigo, Bebeto, que sempre o estimulou a reunir esses “causos” musicais. Ele é também um “velho conhecido” de quem acompanha a obra de Milton. Está imortalizado na canção Paula e Bebeto, parceria de Bituca e Caetano Veloso.

O autor terá ainda a preocupação de contextualizar as histórias, comentando o momento que o país vivia. Eram ainda tempos de ditadura. Um LP de Egberto Gismonti, por exemplo, deveria se chamar Bandeira do Brasil, mas a censura, sabe-se lá por que motivo, vetou o nome, já no fim do regime autoritário. Ficou a bandeira. E um “X” estilizado embaixo.

Acasos que dão em capa de disco

Alguns anos antes, Locca precisava fotografar a cantora norte-americana Sarah Vaughan, para um álbum dedicado à música brasileira. Encontrou-a com Tom Jobim. Ela nervosa porque iria gravar uma faixa já interpretada por Frank Sinatra, e ele tentando acalmá-la. Ao se abaixar para apanhar alguma coisa que havia caído, o fotógrafo percebeu um reflexo da artista na lateral do piano de cauda.

Esse foi o primeiro acaso. O segundo foi a escolha da imagem. Como eram slides, Locca ia recortando e colocando em uma moldura. Um desses caiu e ele, pisou, sem querer. E foi exatamente a foto da capa.

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Locca, hoje e ontem: “Eu entrava no mundo do artista. Ia para o estúdio, convivia com a pessoa. O disco é parte integrante daquele artista, é a vida dele” (Arquivo pessoal)

Não bastasse toda a carga icônica, a capa do Clube da Esquina 2 guarda ainda uma lembrança engraçada, que rendeu e ainda rende risadas. Durante entrevista coletiva de lançamento do disco, Locca, falou, brincando, que um dos meninos da capa era Charlie Chaplin – seria aquele mais à esquerda, debruçado no muro. Alguém levou a sério e publicou.

Nem se o futuro Carlitos quisesse. Apesar de ser londrino, ele nasceu apenas em 1889, sete anos depois da foto de Sutcliffe.

Confira mais capas

Edicão de vídeo: Leandro Siman. Música: Baião Malandro, Egberto Gismonti


Edição: Paulo Donizetti de Souza