criação e destruição

Em novo livro, Miguel Nicolelis consolida o cérebro humano como ‘criador de tudo’

Em nova obra, neurocientista brasileiro discorre sobre como o cérebro humano criou a atual concepção do Universo, e como esta pode levar à extinção da própria espécie

arquivo/ebc
"O cérebro não evoluiu para descrever a realidade, mas para criar modelos de realidade que maximizam nossas chances de sobrevivência"

São Paulo – “Saúde pública, ciência e humanismo foram colocados nos fundos de uma casa e esquecidos. Com isso, permitimos que um pequeno vírus colocasse nossa civilização de joelhos”, define o neurocientista Miguel Nicolelis, falando sobre os tempos atuais, de pandemia e seus impactos. Ele acaba de lançar um novo livro – O Verdadeiro Criador de Tudo: Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo Como Nós Conhecemos, pela Editora Planeta.

Nicolelis consolida, em seu novo trabalho, mais de 20 anos de pesquisas em neurociência. Ele discorre, nas 400 páginas desta obra essencial, a história sobre o que a humanidade entende por universo; um tratado com uma visão ampla da compreensão abstrata do mundo, do ponto de vista do grande criador desenvolvido pela natureza: o cérebro humano. “O cérebro não evoluiu para descrever a realidade, mas para criar modelos de realidade que maximizam nossas chances de sobrevivência em um universo previsível”, define.

O novo livro do neurocientista Miguel Nicolelis (Editora Planeta/reprodução)

A partir destes estudos sobre o cérebro é que se torna possível entender os mecanismos que trouxeram a humanidade ao atual estágio evolucionário. Foram as estruturas de maleabilidade e conectividade entre cérebros da mesma espécie – e vivendo em sociedade – que permitiram a sobrevivência, a criação de tecnologias, a arte, o domínio de técnicas diversas e, também, de conceitos que colocam a própria espécie em xeque. Trata-se de um paradoxo tão natural e biológico, que só poderia ser trabalhado pelo “extravagante” cérebro humano.

Imaginários

“O cérebro explode em abstrações que definem a nossa história. Começa por desenvolver capacidades motoras que nos permitem explorar o universo ao redor. E então, desenvolvemos as ‘criações’: deuses, religiões, tecnologias, artes, ciências, dinheiro, sistemas políticos, fronteiras. Não existem fronteiras (reais) na Terra. Todas elas foram impostas como abstrações e jogos de disputas ideológicas, criadas pela mente humana”, comentou o cientista, durante palestra virtual para marcar o lançamento do livro.

Nele, o cientista aborda um modelo teórico a partir um fluxo progressivo de abstrações que fundam a sociedade humana e o universo conhecido. Parte-se do básico sensorial, para camadas cada vez mais elaboradas. “Abstrações incluiriam não só noções primitivas de espaço e tempo, que dependem de interpretação de fenômenos. Espaço, tempo e relações causais são criadas pela mente humana, em isolamento ou em contexto social. A partir daí, começamos a gerar abstrações poderosas que ajudaram a formar um dos grupos sociais mais coesos e importantes do grupo animal (o Homo sapiens). Incluo as mitologias, religiões, arte, ciência, filosofia, tudo aquilo que define produtos mentais que solidificam a posição do cérebro como centro do universo humano.”

Sequência de abstrações e criações do extravagante cérebro humano, proposta por Nicolelis

A criação

Um dos centros perceptíveis na teoria de Nicolelis aborda uma nova proposta de entendimento do universo. Da mesma forma em que, na pré-história, a natureza regia a organização e a realidade humana, na Renascença (período, a partir do século XIV, que marca a transição entre a Idade Média e a chamada Idade Moderna), o Homem torna-se centro. E é então que a teoria cosmológica que contempla todos os conceitos evolutivos possíveis possuem, em comum, a capacidade do ser humano de desenvolver a capacidade abstrata de compreensão dos fenômenos.

Trata-se de um caminho evolutivo exclusivamente humano. “O cérebro interpreta informações do universo para gerar algo único (na Natureza), que é a forma como olhamos para fora de nós mesmos. Chamamos de Universo, mas a única interpretação possível e palpável é a derivada da mente humana, que é regida por princípios neurobiológicos que estão sendo elucidados ao longo de 200 anos de neurociência. Chegamos a 100 mil anos de evolução da nossa espécie, nossas teorias, nossas culturas, religiões, emoções, tudo que os 108 bilhões de seres humanos que andaram pela Terra foram capazes de imaginar, descrever ou registrar através da comunicação.”

A destruição

Essa abstração como capacidade ímpar do cérebro humano também carrega, em si, os genes de sua própria destruição. Como exemplo, a pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, que escancara as falhas da organização humana. “Eu levanto quais seriam as grandes crises da espécie desempenhadas pelos apegos ao deus-mercado e o culto à máquina que ameaçam a espécie. Uma pandemia pode expor as fragilidades desse modelo de criação civilizatória em que vivemos desde a revolução industrial. Estamos vivenciando isso ao longo dos últimos sete meses.”

Em seu livro, concluído antes dos atuais tempos de covid-19, Nicolelis chega a prever uma pandemia como agente do caos, em uma sociedade apegada a abstrações – especialmente as relacionadas ao capital. “Nosso cérebro é capaz de se sincronizar com muitos outros através de uma ideia. As abstrações humanas, ao constituírem uma rede, se comportam como vírus. Ao fazer isso, sincronizam grupos sociais que defendem os mesmos mitos, religiões, visões políticas, culturais, artísticas. Redes de cérebros sincronizados.”

Há o risco, porém, de que tais conexões, que podem envolver bilhões de cérebros, se comportem de forma auto-destrutiva, ensina Nicolelis. “Essas redes podem funcionar, para além da preservação da espécie, na direção oposta. Nos levar a abismos evolucionais e momentos de extremo perigo para a espécie. Vivemos isso nesse momento: negação da ciência, das vacinas, dos sistemas democráticos. Essas redes negativas contribuem para o momento de crise que a humanidade atualmente atravessa”, explica.

Pensando no bem

Para o neurocientista, há uma saída para os paradoxos destrutivos criados pela própria humanidade e a colocam em risco de extinção. É preciso, defende, usar a capacidade do cérebro humano de formar grandes redes de compreensões abstratas, mas de forma construtiva, em vez de destrutiva.

“A solução é criar redes na direção oposta, que propaguem e disseminem o necessário para sobrevivermos, mantermos os ecossistemas vivos, e fazermos algo que nos tire desse abismo. Essa pandemia não coloca em risco nossa espécie, mas estamos próximos de um abismo por conta de tudo que fazemos para o planeta Terra. Precisamos de redes do bem, positivas para nós e para o planeta.”

Edição: Fábio M. Michel