Cultura para todos

CineB leva filmes nacionais às periferias mesmo durante isolamento da pandemia

Público assistirá de casa, das janelas, ou via celular. Projeto de ampliação do acesso ao cinema nacional tem apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo

Cena do filme Cinema Paradiso
Projetar filmes na fachada dos prédios foi uma das formas que o CineB encontrou para manter seu projeto de ampliação do acesso aos filmes nacionais respeitando o isolamento social

São Paulo – Sessões sempre lotadas, em salões de igrejas, escolas e até mesmo embaixo de viadutos. Assim, há 13 anos, o CineB Solar leva produções nacionais a comunidades que não têm acesso às salas de cinema. Para superar o isolamento necessário diante da pandemia do novo coronavírus, o CineB inova na forma de exibir seus filmes. Desde meados de julho, o projeto de democratização do acesso ao cinema nacional chega à população de outras formas. As aglomerações típicas das sessões – que são festa para as comunidades –­ estão sendo substituídas com criatividade. 

Um desses formatos é o CineB Solar Janela. “Em vez de disponibilizarmos cadeiras paras as pessoas sentarem, o que prejudicaria o distanciamento social, o projeto selecionará espaços nas comunidades contempladas onde haja conjuntos de prédios” explica Cidálio Vieira Santos, coordenador do projeto. O CineB, durante o isolamento, levará o cinema a conjuntos habitacionais de moradia popular nas Cohabs, CDHUs, Cingapuras, e montará sua tela na rua ou fará a projeção em paredes. “As pessoas assistirão cinema de suas janelas. O áudio do filme será transmitido via FM e o público poderá sintonizar de seus rádios ou do smartphone”, detalha.

As duas primeiras sessões já têm data marcada. A primeira é no próximo dia 22, no Condomínio Residencial Quito, no Jardim Belcito, bairro do Grajaú, zona sul de São Paulo. A outra será uma semana depois, dia 29, na cidade de Taboão da Serra, em frente ao condomínio João Cândido. Dois grandes condomínios populares na zona leste da capital paulista estão na lista.

Pipoca e ativismo

As exibições que serão assistidas pelas janelas começam com o documentário Pandemia no Sistema. E não vai faltar nem a pipoca, que sempre é oferecida ao público em caixinhas com a logomarca do projeto. “Um saquinho de milho e as caixinhas serão entregues para cada família preparar no seu apartamento e comer assistindo aos filmes em suas janelas.”

A inspiração, Cidálio não nega, veio de Cinema Paradiso. O filme de Giuseppe Tornatore (1988) relata a emocionante história da relação de um garotinho com o cinema de sua cidade.

“Nós nos inspiramos no Cinema Paradiso e também na experiência do que vem acontecendo de manifestação de outras artes nos apartamentos, inclusive na Itália, no início da pandemia”, conta Cidálio, sobre as inspirações artísticas que vieram com a necessidade do isolamento social. “No Brasil, fomos acompanhando as pessoas fazendo apresentações de música, tendo a janela como esta interlocução. Enfim, a arte sendo de fato este lugar de acalanto.”

Antes do início de todas as sessões, a projeção vai exibir vídeos produzidos pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo contra as demissões feitas pelo banco Santander em plena pandemia.

“A sociedade precisa cobrar esses bancos”, diz Cidálio. “Não é possível, em  plena pandemia, a periferia sofrendo e muitas pessoas morrendo, e os banqueiros cada vez mais ricos retribuírem seus lucros demitindo funcionários. Deveriam ajudar. Ao invés disso, aprofundam a crise. Vamos aproveitar todas as sessões do CineB Solar para denunciar os bancos. Levamos cultura e informações para a população.”

Desde 2007, mais de 70 mil espectadores assistiram às mais de 560 sessões gratuitas do CineB. Foram exibidos cerca de 130 longas-metragens e 80 curtas, além da realização de pré-estreias exclusivas.

Das telonas para as telinhas

Outro formato adotado pelo CineB para manter o projeto de divulgação do cinema nacional perto do público é o online. “Usaremos a tecnologia a nosso favor e oferecemos uma programação especial nesse período”, diz Cidálio. “Organizaremos lives com representantes do cinema brasileiro, com a exibição de filmes para que possamos discutir juntos. A atividade será gratuita e aberta a todos os interessados de maneira on-line.”

A primeira exibição de filmes, nesse novo modelo respeitando o isolamento social, foi realizada em 16 de julho. O diretor do documentário Nega que é Nega não nega ser Nega não, Fabio Nunez, participou de debate com dirigentes do Sindicato dos Bancários, responsável pela manutenção do projeto. Alunos e professores da terceira série do ensino médio da escola estadual Herbert Baldus, na zona sul de São Paulo, também participaram.

As sessões realizadas pelo CineB nas universidades também serão convertidas para o formato on-line. “A ideia é manter a programação do CineB com cinema brasileiro e debates, mas nesse período, em casa”, reforça Cidálio. “Disponibilizaremos os filmes para serem assistidos online por um período. Depois serão realizadas lives para debater seu conteúdo. Iremos envolver os alunos e professores de escolas públicas também.”

Autorama para quem tem carro

O prazer de estar sentado no escuro do cinema assistindo a filmes diante da tela grande, deve ser descartado enquanto durar o isolamento. Assim, o formato drive-in está tomando várias cidades do país como alternativa às salas convencionais. E o CineB também vai investir nessa possibilidade. 

“Em parceria com o projeto Cine Autorama vamos retomar o modelo de cinema dos charmosos drive-ins das décadas de 1950 e 1960, ao ar livre, onde as pessoas assistiam aos filmes no conforto de seus carros”, lembra Cynthia Alario, diretora executiva da Brazucah Produções, responsável pela promoção do CineB.

O áudio do filme também chega aos rádios dos carros via FM. Assim, mantém-se o prazer de estar no cinema, perto da telona, sem deixar de lado o necessário isolamento social. Em fase de produção, o CineB Autorama deve ser lançado em setembro.