energias positivas

Rael: ‘Quero trazer conforto para o coração das pessoas’

Para manter o equilíbrio e proliferar boas energias em meio à quarentena, o rapper Rael decidiu lançar seu EP Capim-Cidreira Infusão

BRUNO TRINDADE/DIVULGAÇÃO
Dono de uma discografia elogiada, uma voz singular e músicas que fizeram muito sucesso, Rael afirma que poderia ter mais reconhecimento do mercado fonográfico

São Paulo – Para manter o equilíbrio e proliferar boas energias, em meio a quarentena, o rapper Rael decidiu lançar seu EP Capim-Cidreira Infusão. O trabalho repaginou algumas músicas antigas, mas que carregam uma sonoridade aconchegante aos ouvintes, soando ainda atuais.

Preto, dono de um longo dreadlock e nascido no Jardim Iporanga, zona sul da capital paulista, Rael tem vários motivos para usar do momento político e social atual para refletir o tensionamento em suas músicas, porém, preferiu dar um passo para trás.

“Foi uma coisa mais pessoal, eu queria ouvir e falar sobre essas coisas. Eu consigo me comunicar melhor falando sobre amor, que também é uma maneira de resistência nos tempos atuais. Infusão é para esse momento de reflexão, onde é preciso trazer um conforto para o coração das pessoas”, explica.

Canções do álbum Ainda Bem Que Eu Segui As Batidas do Meu Coração (2013), como “Semana” e “Tudo Vai Passar” entraram no projeto. O artista explica que viu seus fãs compartilhando essas músicas, durante o isolamento social, e percebeu a importância delas para a atualidade.

“As palavras têm efeito atemporal. Essas duas faixas são exemplos disso. Quando as fãs começaram a se reconectar com essas músicas e ouvir mais, resolvi repaginar”, disse, ao acrescentar que cantar o amor se tornou uma forma de resistência. “Amor não é só a parada romântica, mas também amor próprio e a empatia. Se ninguém se comove com o caso do João Pedro, por exemplo, é falta de empatia.”

Rótulos e reencontro

Rael surgiu na música com o grupo Pentágono, em 2000, que misturava o rap com variações melódicas. Ao longo de sua carreira solo, iniciada em 2010, começou a trazer sonoridades do reggae, da MPB e outros gêneros para sua arte.

Em 2019, ele lançou seu terceiro álbum Capim-Cidreira, onde se desconecta mais da estética do rap. Ao beber de diversas culturas, o rapper conta que as plataformas têm dificuldade de rotulá-lo. “Disseram que não conseguem colocar minhas músicas em playlists. Eu acho isso bom, por não colocado numa caixinha, mas ruim também, já que estou há 20 anos na cena e ainda não entenderam o que estou fazendo”, acrescenta.

A viagem à África, anos atrás, também ajudou nessa descoberta de sonoridades. Ele foi a Angola, Zimbábue e Tanzânia antes de gravar o álbum, onde diz que se reconectou com suas origens. “Os artistas norte-americanos consomem muito a arte africana, como o kuduro, e essa viagem me influenciou nisso, a parar de olhar para o Drake e ver mais o ritmo africano.”

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A mudança musical de Rael, do rap à MPB, passa por uma nova visão a relação da sua a vida com arte. Com a voz e violão, enxergou a possibilidade de se conectar com mais pessoas e alcançar um novo público.

“Eu vivi falando sobre os venenos que passei e não quero mais falar disso. Foi osso até o EP Diversificando, em 2014, sendo que comecei a carreira em 2000. Ou seja, 14 anos sem conseguir viver de música. Desde moleque vi corpo na rua, amigo morrendo, e os caras do crime falavam para a gente que cantávamos muito sobre problema”, conta.

Dono de uma discografia elogiada, uma voz afinada e músicas que fizeram muito sucesso, inclusive utilizadas como trilha sonora de novelas, Rael afirma que poderia ter mais reconhecimento do mercado fonográfico. Ele acredita que por ser artista negro e de uma gravadora independente, a Laboratório Fantasma – fundada pelo amigo e também rapper Emicida –, encontra barreiras maiores para decolar.

Eu já rompi várias barreiras, mas não quebrei essa de ter o reconhecimento devido. Chega uma hora que você vê que está em pauta, mas não está em alta. Já toquei na rádio, toquei na novela, fiz tudo. Eu quero crescer e conquistar mais reconhecimento. Com a música, eu derrubei a casa da minha mãe e construí outra, mas ainda na quebrada. Isso também envolve o país que não valoriza a arte, também tem a questão da minha cor, mas eu já me perguntei várias vezes”, lamenta.