Guerra à cultura

Governo Bolsonaro tem uma ‘política de cupim, de comer por dentro’, diz Juca Ferreira

“Onde o autoritarismo se estrutura, a cultura paga um preço enorme, muitas vezes com a própria vida dos artistas”, diz ex-ministro

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"Até Gilberto Gil assumir, o Ministério da Cultura nunca tinha feito nada de relevante", diz ex-ministro

São Paulo – Jair Bolsonaro transformou seu governo numa guerra contra a arte, a cultura e os artistas em geral. “Eles têm uma política de cupim, de comer por dentro, destruir as estruturas que foram sendo construídas durante décadas”, afirmou o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, ao programa Entre Vistas, apresentado pelo jornalista Juca Kfouri e transmitido ao vivo pela TVT na tarde desta quarta-feira (13).

O ex-ministro falou sobre a necessidade de se reconstruir a cultura no país após as “mazelas” que o setor enfrenta com o atual governo, não apenas politicamente, mas também em relação aos aspectos práticos, como o que será do setor após a pandemia de coronavírus, na reconstrução dos equipamentos culturais desmantelados.

“Como vai se reestruturar a área cultural no país? Essa conversa precisa começar a ser feita”, disse. O ex-ministro comentou que o clima de incertezas vivido hoje no país transcende as questões culturais, devido à crise generalizada provocada pela covid-19. “Quando vai acabar (a pandemia)? Vai ter eleições? Ninguém sabe. Quando vai deixar de ser ameaça?”, questionou.

Ferreira mencionou, por exemplo, o fato de que uma vacina contra a doença pode levar um ano para ser disponibilizada, segundo estimativas científicas.

Para o ex-ministro, a perseguição à cultura por governos autoritários é exemplificada por vários momentos da história, “porque os artistas são em todo o mundo críticos das mazelas dos países e do mundo”. “No mundo inteiro, o fascismo declara guerra à cultura e aos artistas. Foi assim na Espanha franquista, com Salazar (em Portugal). Onde o autoritarismo se estrutura, a cultura paga um preço enorme, muitas vezes com a própria vida (dos artistas).”

Ele observou que, após a redemocratização, os artistas e a sociedade brasileira em geral haviam se acostumado com um nível de liberdade de expressão “enorme”. “Nem existia mais essa conversa de delito de opinião, mas está se reconstituindo esse ambiente paranoico, persecutório, censório, de restringir a liberdade de expressão”, disse.

Capacidades

Em sua opinião, em momentos de crises, a cultura é o setor que mais sofre, porque é a primeira atividade a ser paralisada e a última a ser retomada. Por isso, após a atual crise brasileira ser superada, será preciso “reinventar” o funcionamento de equipamentos e constituir novas politicas públicas, nos planos federal, municipais e estaduais. Para ele, essa reconstrução deve levar em conta que “o mundo não vai ser o mesmo” após a atual crise.

Ex-ministro da Cultura dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, baiano nascido em Salvador, ele afirmou que a atual secretária de Cultura, Regina Duarte, “nunca pareceu capacitada” a dirigir a pasta. “Sempre se posicionou mal politicamente, culturalmente, socialmente. Apoia maltrato dos indígenas na região onde tem fazenda.” Na visão de Ferreira, uma pessoa não se capacita a ser um gestor pelo fato de ser um artista.

O Ministério da Cultura foi criado em 15 de março de 1985, pelo então presidente José Sarney. Na opinião de Juca Ferreira, “até Gilberto Gil assumir (no governo Lula), o Ministério nunca tinha feito nada de relevante, não tinha relação com os grandes processos culturais e artísticos do Brasil”.

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