Alza la testa!

Maestro Martinho Lutero e o Coro Luther King levaram música ao mundo

Ele morreu de parada cardíaca, após ser internado por problemas pulmonares. Não há confirmação se caso tem relação com a pandemia

Nivaldo Honório/Flickr Oboré

São Paulo – Em 31 de outubro de 1975, a Catedral da Sé e a praça estavam lotadas, com público estimado na época em até 10 mil pessoas, apesar dos bloqueios na cidade para evitar o acesso à região central. Era dia do ato ecumênico em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura apenas seis dias antes. Entre os que se apresentaram naquele dia, estava o Coro Luther King, regido pelo maestro Martinho Lutero.

“Foi um momento emocionante, importante, há quem diga que começou ali a cair a ditadura”, relembrou o maestro à Rádio Brasil Atual em 2015, na véspera de ato que marcaria os 40 anos da morte de Vlado. O mesmo coro voltou à Sé, regido por Martinho Lutero.

Foi, na verdade, um “encontro” de 800 vozes para cantar temas como Pra não Dizer que não Falei de Flores (Caminhando), de Geraldo Vandré, Gracias a la Vida, de Violeta Parra, e O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco/Aldir Blanc), além da Misa Criolla, do argentino Ariel Ramirez.

Criado no final de 1970, o coro sempre esteve vinculado a ações de direitos humanos, assim como seu criador, que morreu ontem (25), aos 66 anos, depois de sofrer parada cardíaca.

Música e amor

A cerimônia de cremação foi realizada nesta quinta-feira (26), no Cemitério da Vila Alpina, em São Paulo. “Que toda a música e todo o amor que dividiu conosco nos console”, escreveu sua companheira, Sira Milani, fazendo um pedido para que todos permanecessem em casa, para evitar risco de contaminação: “Deixemos a tão necessária confraternização e homenagens para um futuro próximo”.

Amigo de Lutero há três decadas, o jornalista João Paulo Charleaux informou pelo Twitter que o maestro estava internado desde o dia 19, devido a “complicações pulmonares”, segundo Sira. “Não há informação clara sobre se o caso está ligado ou não à pandemia do coronavírus”, escreveu.

Brasil, Itália, Moçambique

Nascido em Governador Valadares (MG), Martinho Lutero Galati de Oliveira completaria 67 anos em setembro. Além do Coro Luther King, ele criou a Camerata Sé e o coro Cantosospeso, em Milão, na Itália – era cidadão milanês emérito, o único brasileiro a receber a honraria além de Carlos Gomes, lembrou Charleaux. “Nossa dor é imensa, mas encontramos consolo na música e em sua paixão pela vida”, escreveu o Cantosospeso.

Lutero também desenvolveu trabalho em Moçambique. De 2013 a 2016, foi diretor artístico do Coral Paulistano Mário de Andrade, do Teatro Municipal. Era ainda presidente da Associação Brasileira de Regentes Corais. Antes da criar a rede Luther King, em pleno período do AI-5, dirigiu o musical Hair, em 1969.

Em algumas manifestações em redes sociais, foi lembrado com a expressão Alza la testa! (“Levante a cabeça!”, em italiano), dirigida aos músicos. Ele foi homenageado por nomes como o padre Júlio Lancelotti e a cantora Fabiana Cozza.

“É com profunda tristeza que recebemos a notícia da partida do nosso querido amigo, o maestro Martinho Lutero Galati de Oliveira. Referência na música coral e homenageado em todo o mundo, Martinho será lembrado pelo seu primor como ser humano, sempre sensível e solidário”, declarou, em nota, o Instituto Vladimir Herzog. “Sempre usou a música para unir pessoas. É inestimável, por exemplo, a importância da Rede Cultural Luther King, fundada por ele em 1970 para cantar a cultura brasileira através da música coral com gente de diferentes classes sociais, cores e credos.”