Racismo na tela

Discussão sobre ‘Spike Lee brasileiro’ revela invisibilidade negra no cinema nacional

Ausência de profissionais negros nas produções audiovisuais brasileiras reforça estereótipos e ignora até mesmo nomes já consagrados

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Zózimo foi o primeiro cineasta a colocar a questão da identidade negra nos mesmos termos com que ela foi posta pela luta constante do movimento

São Paulo – A série anunciada pela TV Globo sobre a vida e o assassinato da vereadora Marielle Franco, sob a direção de José Padilha, trouxe à tona o debate sobre a invisibilidade do cinema negro no audiovisual brasileiro. Diretores, produtores e intelectuais afirmam que a escolha é o reforço do racismo estrutural do país.

À frente do projeto está a roteirista Antonia Pellegrino, que explicou a escolha pelo nome de Padilha para a direção porque queria um alcance “de maior escala possível” para a série. E justificou a ausência de um diretor negro por não haver “um Spike Lee ou uma Ava DuVernay” brasileiro.

O autor, diretor e dramaturgo Rodrigo França explica que a ausência de negros nesses espaços é histórica, por conta do racismo estrutural presente no Brasil. O cinema negro brasileiro tem figuras importantes como Zózimo Bulbul e Joel Zito, mas não possuem o mesmo holofote de dramaturgos brancos.

“O racismo estrutural corta todas as relações existentes com a sociedade, inclusive no cinema. Vai haver uma invisibilidade do cinema negro na mídia, uma diferença no repasse de patrocínios e um subjugamento do que é este cinema negro. O cinema branco é tratado como algo genial, enquanto o cinema negro é visto de maneira inferior”, explicou à RBA.

O filósofo e jurista Silvio Luiz de Almeida aponta que a suposta busca pelo “Spike Lee brasileiro” é um reforço desse racismo estrutural, mascarado na estratégia de referir-se a “negros únicos”. “É um modo de naturalização do racismo na medida em que passa a impressão de que, em regra, brancos estão “mais bem preparados” e os “negros talentosos” são exceção”, afirmou, nas redes sociais.

Pellegrino se desculpou pela declaração, na qual identificou uma “frase infeliz”, e retirou Padilha da direção da série sobre Marielle. Especula-se que, após a repercussão, roteiristas e diretores negros sejam integrados ao elenco.

Consequências

A invisibilidade dos negros no cinema não se manifesta apenas na ausência geral dos profissionais nas produções, mas também na importância dos cargos que ocupam. Rodrigo, que trabalha como roteirista, lembra que os convites de trabalho surgem somente quando a temática é relacionada à questão racial.

“Os profissionais negros, excelentes do mercado, não assinam uma produção, são colocados como assistentes. O processo hierárquico dentro do cinema e no teatro é cruel, pois é racista. Você tem um excelente profissional negro criando, mas um branco assinando lugar dele”, criticou.

O resultado da falta de profissionais negros em grandes cargos do audiovisual reforçam estereótipos racistas em algumas produções. “O racismo estrutural do cinema passa pelo roteiro e vai para a escala do elenco, que coloca negros em personagens subalternos, hipersexualizados ou marginalizados. Começa no roteiro e vai para o olhar viciado da produção de elenco, que coloca os atores negros em apenas determinados papéis”, acrescenta França.

Se o cenário atual já não é positivo, o governo de Jair Bolsonaro reduz ainda mais as expectativas para uma democratização das produções audiovisuais. No último domingo (8), a secretária da Cultura, Regina Duarte, afirmou que todas as minorias têm espaço para se expressar, mas que devem procurar patrocínios na sociedade civil, sem a ajuda de verbas públicas destinadas à cultura.

Apesar de criar indignação, o diretor lembra que a atitude do governo era esperada. “O presidente que compara quilombolas com gado não vai ter respeito ao cinema negro. Dizer que um governo não é para todos é problemático e fere o Estado democrático de Direito. A fala dela é lamentável, mas previsível”, lamentou.

Cineastas negros do Brasil

REPRODUÇÃO
Como diretor, Zózimo realizou três curtas, cinco médias e um longa metragem, todo com foco na cultura afro

Nascido no Rio de Janeiro em 1937 e morto em 2013, o ator Zózimo Bulbul atuou em mais de 30 filmes, incluindo Cinco vezes Favela, marco do Cinema Novo, e Terra em Transe, clássico de Glauber Rocha. Como diretor, realizou três curtas, cinco médias e um longa metragem, todo com foco na cultura afro.

Zózimo foi o primeiro cineasta a colocar a questão da identidade negra nos mesmos termos com que ela foi posta pela luta constante do movimento. O trabalho deu a ele reconhecimento mundial por seus trabalhos de valorização e preservação da cultura negra, além de premiações em festivais de cinema e, todo o mundo.

Netun Lima / Universo Produção
Viviane preside a Associação Mulheres de Odun e é sócia-fundadora da empresa Odun Formação & Produção

Viviane Ferreira é um dos grandes talentos do cinema nacional. Cineasta e advogada com atuação voltada ao direito cultural, ela é apenas a segunda diretora negra a filmar um longa metragem. Lançado em 2019, o filme Um dia com Jerusa é uma espécie de continuação de seu curta O dia de Jerusa, obra que participou do festival de Cannes, em 2014.

Diretora dos documentários Dê sua ideia, debataFesta da Mãe Negra e Marcha Noturna e Peregrinação, Viviane preside a Associação Mulheres de Odun e é sócia-fundadora da empresa Odun Formação & Produção.

ITAU CULTURAL/YOUTUBE
Zito é considerado um dos responsáveis pela implantação do cinema negro, tanto na ficção quanto no documentário

O cinema negro do Brasil também é representado por outro grande nome: Joel Zito Araújo. Diretor, roteirista, escritor e pesquisador, Zito é considerado um dos responsáveis pela implantação do cinema negro, tanto na ficção quanto no documentário, com filmes que debatem o racismo e a desigualdade.

Ele dirigiu e escreveu o filme A Negação do Brasil (2000), exibido em diversos festivais e vencedor o prêmio do New York African Diaspora Film Festival. Em 2013, o brasileiro também dividiu a direção do filme Raça, com a vencedora do Oscar Megan Mylan. Já em 2019, Zito fez o o roteiro e direção do filme Meu Amigo Fela (2019), que narra a trajetória do cantor Fela Kuti.

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Premiada internacionalmente, Sabrina foi apontada, em 2018, pela Bustle como uma das cineastas mais promissoras ao redor do mundo

Sabrina Fidalgo é outro talento do audiovisual. Diretora e roteirista premiada internacionalmente, Sabrina foi apontada, em 2018, pela Bustle como uma das cineastas mais promissoras ao redor do mundo.

As produções da diretora foram exibidas em mais de 300 festivais, com destaque para o curta Rainha (2016), premiado como melhor filme no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. em 2019, Sabrina também dirigiu o curta-metragem Alfazema, premiado duas vezes no 52º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro.

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Jeferson também foi roteirista e diretor dos premiados curtas Distraída Pra Morte (2001), Carolina (2003) e Narciso RAP (2005)

Jeferson De também é um dos nomes inspiradores do cinema negro. Na estreia do seu primeiro longa-metragem Bróder (2009), ele foi premiado no Festival de Cinema de Gramado.

Ele também foi roteirista e diretor dos premiados curtas Distraída Pra Morte (2001), Carolina (2003) e Narciso RAP (2005). Em 2013, esteve na direção de 26 episódios da série Pedro & Bianca, exibido na TV Cultura, e venceu o Emmy, no 2º Emmy Kids Awards.

Em 2019, lançou o filme M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, que conta com Lázaro Ramos, Ailton Graça e Zezé Motta no elenco.