Folia e resistência

Carnaval deu voz às mulheres negras e ficará marcado na história

Escola campeã no Rio volta neste sábado, com enredo em homenagem às Ganhadeiras de Itapuã, pioneiras do feminismo brasileiro

Tomaz Silva/EBC
As Ganhadeiras marcaram a história por seu trabalho como lavadeiras para libertar mulheres negras escravizadas e são conhecidas como o primeiro movimento feminista brasileiro

São Paulo – A Unidos do Viradouro, escola de samba de Niterói (RJ) vencedora do carnaval carioca, volta à Sapucaí neste sábado (29) para o desfile das campeãs. A escola fecha o desfile na madrugada do domingo após vencer o carnaval 2020 com o samba enredo De alma lavada, que deu projeção nacional à história das ganhadeiras de Itapuã, na Bahia. 

Composto por mulheres negras escravizadas no século 19, as ganhadeiras ficaram conhecidas pela força de seu trabalho lavando roupas às margens da Lagoa do Abaeté, em Salvador, e que com o ganho da atividade conseguiam comprar a liberdade (alforria) de suas ancestrais e de outras mulheres negras escravizadas. 

Mesmo com a passagem de muitos anos, toda essa luta ainda permanece viva no imaginário popular, sobretudo o baiano, graças à sua difusão pelo canto. Foi essa história o que motivou a homenagem feita pela escola Viradouro, como explica um dos diretores de carnaval da escola, Alex Fab, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

“Apesar de todo o histórico de luta, suor e muitas vezes de dor, elas (as ganhadeiras) expressam com o canto somente a felicidade e a alegria, e isso é algo que nos contagiou, porque são mulheres que passaram por grandes dificuldades. Hoje no grupo nós temos jovens que vivem com suas avós, e as avós contaram, em nossas visitas à Bahia, o quanto elas e as mães delas sofreram, mas hoje a mensagem que elas passam é de felicidade, pureza. É uma mensagem que a gente tem que parar para pensar”, explica Fab. 

Para além da resistência e coletividade que marcam as ganhadeiras de Itapuã, esse grupo de mulheres ainda é conhecido por muitos como o primeiro movimento feminista brasileiro. Não à toa, segundo o diretor de carnaval da Viradouro, desde o primeiro momento em que o enredo foi apresentado à presidência e à direção pelos carnavalescos, a proposta foi prontamente aceita. 

“É uma história que não é tão conhecida por muitos e eu acho que o carnaval tem essa motivação também, de levar conhecimento e histórias para o público”, ressalta Fab. “O orgulho das ganhadeiras envaidece até a nós que somos homens, imagina as mulheres, o quanto que elas não se sentem representadas? Porque, como elas mesmas dizem, toda mulher, no fundo, é uma ganhadeira”, acrescenta o diretor da escola. 

No desfile, a Viradouro ainda marcou a importância dessa representação com seu último carro, que teve a presença de 10 personalidades negras de diversas áreas de atuação no país fechando a apresentação. “Foi uma expressão muito de como a mulher negra precisa desse espaço”, afirma Fab. “Eu acho que o tamanho, a projeção e a voz que esse carnaval deu às mulheres negras,  brancas, mulatas, morenas, é algo que vai ficar marcado na história dessas mulheres.”

Ouça a entrevista da Rádio Brasil Atual