Carnaval carioca

Escolas de samba do Rio desfilam crítica social na Sapucaí. Confira programação

Sambas-enredo do Carnaval do Rio 2020 prometem chacoalhar a avenida e a consciência dos foliões na sofrida cidade maravilhosa

Foto: Alexandre Macieira /Riotur
A Marquês de Sapucaí será tomada por sambas-enredo de forte crítica social no Carnaval 2020 do sofrido Rio de Janeiro

São Paulo – A campeã do ano passado volta para a avenida com tudo no carnaval do Rio de Janeiro em 2020. A Mangueira, terceira escola da primeira noite dos desfiles (domingo, 23), traz para a Marquês de Sapucaí mais um samba com forte crítica social. O enredo A Verdade vos Fará Livre retrata a violência que extermina o povo favelado, agravada pelos governos de Wilson Witzel e de Jair Bolsonaro.

Favela, pega a visão:
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão…

Os compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo também participaram da autoria do enredo História pra Ninar Gente Grande, que levou a Mangueira ao seu 20º título no ano passado. 

“O grande homenageado da Mangueira é Jesus Cristo, que luta pela partilha e pela fraternidade”, afirma Manu da Cuíca em entrevista ao site Carnavalesco. “Com certeza, ele aprovaria uma disputa como essa, aprovaria uma escola espetacular que trate a favela como um ato de sobrevivência, especialmente com esse governo que mais mata favelados, e o samba mostra que estamos vivos”, diz a sambista.

Confira clipe do samba da Mangueira 2020


Samba com respeito

A Estácio de Sá, que abrirá os desfiles do Grupo Especial no domingo (23), a partir das 21h30, fala do garimpo e dos estragos que produz país afora. Um trecho do samba composto por Edson Marinho, Jorge Xavier, Júlio Alves, Jailton Russo, Ivan Ribeiro e Dudu Miller lembra:

“O garimpo traz o ouro a cobiça dos mortais
Peneirar, peneirar
Devastando a natureza no Pará dos Carajás
Da lua, de Jorge, eu vejo o planeta azul chorar”

A Viradouro entra em seguida, por volta de 22h30, e em tempos sombrios de racismo e ataques à cultura, homenageia As Ganhadeiras de Itapuã. A música de Dadinho, Fadico, Rildo Seixas, Manolo, Anderson Lemos, Carlinhos Fionda e Alves fala do grupo musical baiano que surgiu dos cantos, danças e crenças das lavadeiras do litoral baiano.

Ora yê yê o oxum! Seu dourado tem axé
Fiz o meu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma desta gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro!

Levanta preta que o Sol tá na janela
Leva a gamela pro xaréu do pescador
A alforria se conquista com o ganho
E o balaio é do tamanho do suor do seu amor

O samba da Grande Rio, assinado por Deré, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro e Toni Vietnã, leva para a avenida outro tema super atual: o da tolerância religiosa. A escola que entra na Sapucaí na madrugada de domingo para segunda-feira (23/24), avisa:

Grande Rio é Tata Londirá
Pelo amor de Deus, pelo amor que há na fé
Eu respeito seu amém
(Você respeita meu axé)

Espírito crítico

Sensação dos últimos carnavais, Tuiuti vem com samba de Moacyr Luz (Fernando Grilli/Riotur)

O tom crítico segue como marca da Paraíso do Tuiuti, que toma a avenida logo depois da Mangueira. O enredo fala do encontro entre São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, e Sebastião I, monarca português morto em batalha no norte da África. E traça um paralelo com a situação atual do país. No samba de Moacyr Luz, Cláudio Russo, Aníbal, Júlio Alves, Pier e Tricolor, devoção e amor pela sofrida cidade maravilhosa.

Rio, do peito flechado
Dos apaixonados
Rio-batuqueiro
Oxóssi, orixá das coisas belas
Guardião dessa aquarela
Salve o Rio de Janeiro!
Orfeus tocam liras na favela
A cidade das mazelas
Pede ao santo proteção
Grito o teu nome no cruzeiro
Ó padroeiro! Toda minha devoção!

A União da Ilha, penúltima na madrugada de domingo para segunda-feira no carnaval do Rio 2020, traz para a avenida as falsas promessas de políticos e poderosos. Os autores, Marcio André, Marcio André Filho, Rafael Prates, J Alves, Daniel e Marinho, cantam o talento de quem vive nas comunidades, cresce e se desenvolve a despeito de todo o abandono.

Eu sei o seu discurso oportunista
É a ganância, hipocrisia
O seu abraço é minha dor (seu doutor)
Eu sei que todo mal que vem do homem
Traz a miséria e causa fome
Será justiça de quem esperou
O morro desce o asfalto e dessa vez
Esquece a tristeza agora

Desfile das escolas do carnaval 2020 no Rio

HorárioDomingo (23)Segunda (24)Campeãs
(Sábado, 29)
21h30Estácio de SáSão Clemente6ª colocada
Entre 22h30 e 22h40ViradouroVila Isabel5ª colocada
Entre 23h30 e 23h50MangueiraSalgueiro4ª colocada
Entre 0h30 e 1hParaíso do TuiutiUnidos da Tijuca3ª colocada
Entre 1h30 e 2h10Grande RioMocidade2ª colocada
Entre 2h30 e 3h20União da IlhaBeija-Flor1ª Colocada
Entre 3h30 e 4h30Portela

Pioneirismo e tradição

Portela, que voltou a gritar “é campeã” em 2017, lembrará os primeiros habitantes do Rio

A Portela, pioneira do carnaval do Rio de Janeiro há 97 anos – junto com Mangueira e Deixa Falar – encerra o primeiro dia dos desfiles do Grupo Especial. Campeão em 2017 depois de 32 anos de jejum, a escola é esperada entre 3h30 e 4h30. O samba de  Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D’Sousa e Araguaci, lembra os indígenas, primeiros habitantes do Rio, com o enredo Guajupiá, Terra Sem Males.

Nossa aldeia é sem partido ou facção
Não tem bispo, nem se curva a capitão
Quando a vida nos ensina
Não devemos mais errar

Poesia protesto

O Grupo Especial retoma o desfile do carnaval 2020 do Rio de Janeiro na noite de segunda-feira (24). E seguem os protestos diante da situação do país.

A São Clemente é a primeira. O samba do humorista Marcelo Adnet, com André Carvalho, Gabriel Machado, Pedro Machado, Gustavo Albuquerque, Camilo Jorge, Luiz Carlos França e Raphael Candel usa a irreverência para falar das falcatruas que grassam Brasil afora.

Na virtual roleta da desilusão
Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu!
E o país inteiro assim sambou
‘Caiu na fake news!’
Meu povo chegou ôô!
A maré vai virar, laiá!”

Inspiração indígena na criação de Brasília está no enredo da Vila Isabel (Eduardo Holanda/Divulgação Vila Isabel)

Para o desfile da Vila Isabel, que entra na avenida por volta de 22h30, Cláudio Russo, Chico Alves e Júlio Alves compuseram um samba homenagem à capital do país, como lenda indígena. Brasília é uma cidade construída pelas mãos do povo sofrido. 

Sertanejo em romaria é mais forte que mandinga
Assim nasceu a flor do cerrado
Quando um cacique inspirado
Olhou pro futuro
E mandou construir
Brasília joia rara prometida

A arte do primeiro palhaço negro do Brasil é o tema do Salgueiro, a terceira na Sapucaí na segunda-feira. O samba de Marcelo Motta, Fred Camacho, Guinga do Salgueiro, Getúlio Coelho, Ricardo Neves e Francisco Aquino homenageia Benjamin de Oliveira – primeiro palhaço negro do Brasil, e também compositor, cantor e ator – nos 150 anos do seu nascimento.

Salta, menino!
A luta me fez majestade
Na pele, o tom da coragem
Pro que está por vir…
Sorrir e resistir!

A Unidos da Tijuca deve entrar na avenida já na virada para o dia 25, depois de 0h30. O samba composto por Jorge Aragão, Fadico, André Diniz, Totonho e Dudu Nobre promete emocionar com a homenagem às belezas de um Rio de Janeiro tão sofrido.

Lágrima desce o morro
Serra que corta a mata
Mata, a pureza no olhar
O Rio pede socorro
É terra que o homem maltrata
E meu clamor abraça o Redentor
Pra construir um amanhã melhor
O povo é o alicerce da esperança

A penúltima no segundo dia do desfile das escolas de samba do Rio é a Mocidade Independente de Padre Miguel. A “deusa” cantora Elza Soares e sua vida de luta estão no samba composto por Sandra de Sá, DR Márcio, Igor Vianna, Jefferson Oliveira, Prof. Laranjo, Renan Diniz, Solano Santos e Telmo Augusto.

“É deusa! Merece todas as homenagens”, diz a rainha da bateria, Giovana Angélica, ao tietar Elza Soares, homenageada da Mocidade (Ygor Marques / Divulgação)

Brasil
Esquece o mal que te consome
Que os filhos do Planeta Fome
Não percam a esperança
Em seu cantar
Ó, nega!

A Beija-Flor fecha o desfile do Carnaval do Rio 2020 com o samba de Magal Clareou, Diogo Rosa, Júlio Assis, Jean Costa, Dario Jr. e Thiago Soares. Se essa rua fosse minha fala dos caminhos percorridos pela humanidade até chegar ali, à Sapucaí.

Por mais que existam barreiras
Eu vim pra vencer no teu ninho
É bom lembrar, eu não estou sozinho
Ê laroyê ina Mojubá
Adakê Exu ôôô
Segura o povo que o povo é o dono da rua”