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A condição humana

Raul e seus baús: do rock ao tango, da filosofia ao brega, uma obra ainda a ser ouvida

Para jornalista, que acaba de lançar biografia, a fama de "maluco" prejudicou em parte o conhecimento do trabalho do artista, autor de mais de 300 músicas em duas décadas de carreira
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
16:44
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Reprodução

Artista 'fez do arcabouço ético do rock'n'roll o seu modus vivendi, o seu estar no mundo, mas não tinha o menor problema em dar um pinote nessas fundações'

São Paulo – “Não me preocupei em lustrar a lenda, porque essa já é do tamanho da realidade.” Com décadas de janela na profissão, o jornalista Jotabê Medeiros conviveu com lendas, mitos e pessoas de carne e osso, tudo ao mesmo tempo. De uns anos para cá, dedicou-se a escarafunchar a vida e a obra de alguns ícones da música pop nacional: em 2017, Belchior, com Apenas um Rapaz Latino-Americano. Agora, Raul Seixas, um dos verdadeiros pais do rock, embora o próprio compositor baiano atribua a paternidade ao diabo. No texto de apresentação de Não Diga que a Canção Está Perdida (editora Todavia, 416 páginas), Jotabê já avisa que pôs os pés no mundo real, mas não abdica dos delírios vividos por Raul durante parte de seus 44 anos da vida, encerrada em 21 de agosto de 1989, apenas 19 dias depois da partida de Luiz Gonzaga.

A fama de “maluco beleza” de Raul Seixas, que formou um fiel e perene séquito de seguidores, prejudicou em alguma medida o conhecimento da obra, que não é pequena. Segundo anota o biógrafo, são 312 canções registradas em pouco mais de 20 anos de carreira, “trabalhando gêneros tão distintos quanto tango, country, baião, samba, acid rock, iê-iê-iê, marchinha, forró, folk, brega, xote, xaxado, balada”. Além de dezenas de inéditas com parceiros.

Jotabê cita uma frase de Rita Lee: Raul é o roqueiro com cara de bandido, é o bandido-mocinho, é o Maluco Beleza, não morre nunca. “Raul tinha uma leitura muito profunda da condição do artista no showbiz, uma leitura que externou em canções como A Verdade sobre a Nostalgia, por exemplo. Era muito mais eclético e conhecedor das regras do mundo da música, e acabaram confinando-o num rótulo”, observa o jornalista, que na conversa define Raul como “debochado, mas sensível”: “Eu li as cartas dele para as filhas. É de cortar o coração”. Ou um sujeito que “gostava de passar os verões numa fazenda no interior da Bahia, ouvindo moda de viola”.

Na curva do futuro muito carro capotou
Talvez por causa disso é que a estrada ali parou
Porém, atrás da curva
Perigosa eu sei que existe
Alguma coisa nova
Mais vibrante e menos triste

Em dezembro, com uma máscara na cabeça, Jotabê fez um lançamento informal do livro em um marco de São Paulo, o edifício Copan, falando na rua, do lado de fora de um bar, para uma plateia interessada, sentada em mesinhas ou em pé, e atraindo alguns “malucos” da região – um deles se declarou fã de Raul. Ali, afirmou, entre outras coisas, que o baiano “fez de tudo para se liberar da condição de artista da chamada MPB universitária”. Seria a tentativa de fugir dos rótulos?

“Conforme relato no livro, há diversos momentos de enfrentamento de Raul com a turma da Bossa Nova e, posteriormente, com os tropicalistas. Ele ironiza os protagonistas da MPB universitária. Acho que era deliberado, uma forma de marcar presença primeiro como um lobo solitário da música, um homem que caminha sozinho; em seguida, para dizer que o conceito dele de música era de uma profunda individualidade, feito de brutal independência de movimentos e rótulos”, diz o autor.

Segundo o biógrafo, Raul Seixas foi “indelicado” com a Bossa Nova. E desenvolveu, como define, um “anti-intelectualismo militante”. “Na letra de Tapanacara, ele devolve algumas coisas. Ele se julgava esnobado pelos ‘baianos da Bossa Nova’, que era Caetano, mas também João Gilberto. Quanto ao anti-intelectualismo militante, isso consistia basicamente na forma de ele nunca explicar os subtextos, os jogos intertextuais que propunha nas músicas. Ele não achava necessário teorizar, fugia disso como o diabo da cruz.”

O tapa na cara
Que eu levei de odara
Odara, menina
Que era filha de Nara
Que era neta, prima-dona de Raul

Boas histórias não faltam no livro. Logo no começo, Jotabê narra a “disputa” entre o adolescente Raul, 14 anos, e o disc-jóquei e band leader Waldir Serrão, 17, para ver quem tinha mais discos de rock´n´roll. Surgia uma amizade para sempre e o desejo, como expressou Raul em um diário, de “ser popular no mundo inteiro”.

Depois vem a fúria de dona Maria Eugênia ao descobrir que os filhos Raul e Plínio haviam falsificado as cadernetas de notas – tinham sido reprovados. Antes da surra que fatalmente viria das mãos de Raul pai, os meninos vestiram várias roupas para amortecer o impacto do cinto. Mas, ao entrar no quarto, o pai começou a bater em uma cadeira, enquanto Raul e Plínio simulavam uma súplica, enquanto dona Eugênia se preocupava do lado de fora.

Raul levou um tempo para decidir ser rock star. Pensava em ser escritor, citava Jorge Amado. Em meados de 1962, ele e um amigo, Thildo Gama, formaram Os Relâmpagos do Rock. O primeiro show foi no Good Neighbour Club, onde tocava, entre outros, o contrabaixista Bira, que ficou famoso ao fazer parte do sexteto de acompanhamento de Jô Soares – e que morreu neste 22 de dezembro, aos 85 anos. O grupo teve carreira acidentada: o violonista e pianista Enelmar Chagas quase morreu em acidente, depois ver o Santos sagrar-se bicampeão mundial, em 1963, ao derrotar o Milan no Maracanã, e tempos depois Thildo atropelou um idoso na estrada.

Divulgação

Raul Seixas (o segundo a partir da direita) e Os Panteras participam de programa de TV nos anos 1960

Depois dos Relâmpagos, vieram The Panters, que começaram a fazer shows pela Bahia e passariam a ser chamados de Os Panteras. Raul e sua turma foram convocados para acompanhar Wanderléa e outros cantores da Jovem Guarda em um show em Salvador. Contrariando a fama que viria depois, Raul fazia tudo bem organizado: o contrato dos Panteras tinha regras de conduta e vestuário, além da fixação de pagamento do mesmo valor para os cinco integrantes do grupo. Em 1965, um teste de fogo: Roberto Carlos iria a Salvador para participar do Bossa Broto, um popular programa de calouros da TV Itapoan. Os rapazes do Panthers foram recrutados. No livro, Jotabê conta que havia um menino chamado Pedro Aníbal, da banda Ninos, prestando atenção no ensaio. Depois seria conhecido como Pepeu Gomes.
Discos e clássicos

O primeiro LP surgiu em 1968, Raulzito e os Panteras, pela Odeon. Músicas próprias e versões de Lucy in the Sky with Diamonds, do Beatles (Você ainda pode sonhar) e I Will, de Dick Glasser (Um minuto mais). O segundo álbum viria apenas três anos depois, mas fazendo barulho: Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10 (CBS/Sony) tornou-se um cult. Reunia Raul, o capixaba Sérgio Sampaio, que iria estourar no ano seguinte com Eu quero botar meu bloco na rua, a lenda viva Edy Star e Miriam Batucada. Em 1973 e 1974, Raul lançou os futuros clássicos Krig-ha, bandolo! e Gita. Ali, cantou sucessos eternos como Mosca na sopa, Metamorfose ambulante, Ouro de tolo, Medo da chuva, O trem das 7, Loteria de Babilônia (título de um conto do argentino Jorge Luis Borges), Sociedade alternativa e Gita, claro.

Na pesquisa para o livro, Jotabê observa que a censura acreditou que Ouro de tolo era um ataque a Roberto Carlos. Uma das origens da canção está em um passeio pelo Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Raul e o parceiro Mauro Motta estavam com filhos pequenos e viram uma mulher de casaco de pele, meia e salto alto atirando coisas para os macacos. Um deles vai até o fundo da jaula e joga cocô na visitante. “Raul destilava sarcasmo contra as ambições burguesas, a busca incessante da segurança e do conforto social”, diz o jornalista, lembrando que os “4 mil cruzeiros por mês” citados na letra correspondiam praticamente ao que o artista recebia, na época, como produtor musical da gravadora CBS. Uma canção que estimulava a rebeldia, mas “apoiada em coisas verídicas”, declarou o mutante Arnaldo Baptista.

Nos dois discos, muitas parcerias com Paulo Coelho, que depois se tornaria escritor famoso mundialmente. No livro de Jotabê, o “mago” responde pelo trecho mais polêmico, obviamente explorado nas resenhas sobre a biografia. O biógrafo encontrou um documento – reproduzido na página 354 – do Centro de Informações do Exército, de 22 de abril de 1974, que apontava Paulo Coelho e Adalgisa Rios Magalhães (esposa do letrista) como subversivos, que poderiam ser presos por intermédio de Raul Seixas.

Prisão e tortura

Um mês depois, em 24 de maio de 1974, Raul Seixas ligou para Paulo Coelho para avisá-lo que tinha sido intimado a comparecer ao Dops, no dia 27, para prestar esclarecimentos sobre o disco Krig-ha, bandolo!, que àquela altura já tinha mais de 100 mil cópias vendidas. Pediu ao parceiro que fosse com ele. Na sede da polícia política, foi levado a uma sala. Voltou meia hora depois. Paulo esperava na recepção. Em vez de falar com ele, Raul foi até um orelhão e começou a cantarolar: My dear partner, the men want to talk you, not to me (“Querido parceiro, os caras querem falar contigo, não comigo”). Estava tentando transmitir um recado ao amigo. Paulo não percebeu. Na hora de irem embora, foi detido e passou a ser interrogado. Adalgisa também foi presa. Os dois terminaram liberados após interrogatórios, mas ao sair de lá Paulo Coelho foi emboscado e detido novamente, para então passar por duas semanas de torturas.

“Seria de fato uma injunção da polícia ou de fato um acordo de colaboração?”, pergunta-se Jotabê sobre o documento do I Exército. Ele não aponta Raul como informante, como alguns se apressaram em concluir, mas relata que a dúvida passou a atormentar Paulo Coelho, que depois do episódio não conseguia contato com o parceiro. O agente Alladyr Ramos Braga, que assina o relatório confidencial, já morreu.

O biógrafo acredita que a polêmica nunca será totalmente explicada, lembrando que a única testemunha viva daqueles fatos é Paulo Coelho. “O que ele sente a respeito eu creio que o livro deixa claro. Não se sabia disso antes. Mas há muita gente que não respeita o sentimento do próprio Paulo, que o tem como um vilão permanente, com seu cavanhaque e seus ditados de magia apropriados para a caricatura dos moralistas. Em minha opinião, nada muda com a revelação dessas tensões, desse ambiente de desconfiança. Apenas os personagens passam a ter uma maior humanidade, em vez de habitarem caricaturas”, avalia.

Acervo Instituto Paulo Coelho/Divulgação

Paulo Coelho e Raul Seixas: ex-parceiros voltaram a se encontrar em 1989

Raul Seixas e Paulo Coelho se encontraram pela última vez em 1989, durante show no hoje fechado Canecão, no Rio de Janeiro. Eram as faixas de A panela do diabo, último disco de Raul, em parceria com Marcelo Nova, do Camisa de Vênus.  No palco, Marcelo Nova conseguiu a proeza de levar o já consagrado escritor, surpreendendo Raul. Um reencontro afetuoso e emocionado. Os antigos parceiros cantaram Sociedade Alternativa. Canção escolhida pelo norte-americano Bruce Springsteen para abrir seus shows em São Paulo e no Rio em 2013, depois de ser apresentado a um leque de opções, que incluam Legião Urbana, Milton Nascimento e Titãs.
Chamando para a briga

Humanidade também não falta nessa história. Jotabê conta sobre os cutucões de Raul em colegas como Silvio Brito, que compôs Tá todo mundo louco, em 1974, inspirado em Ouro de tolo. O artista baiano cita o compositor mineiro em pelo menos duas canções, As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor e Eu também vou reclamar, na primeira falando em “certos cabeludos” dos quais não se sabe direito qual é o posicionamento político e na outra sobre um “chato” que grita em seus ouvidos “pare o mundo que eu quero descer”. Sobrou até para Belchior, citado três vezes nessa segunda canção.

“Já não existe qualquer diferença entre materialismo, idealismo. Todos os ismos são iguais. Eu não estou me queixando de nada porque eu não sou um rapaz latino-americano”, declarou em uma entrevista ao Jornal de Música, coletada por Jotabê. “Esse regionalismo não está em mim. Eu sou uma pessoa que vive 1976. Eu sou Raul Seixas, o único. Eu não pertenço a qualquer grupo político ou regional. Eu sou fruto do pós-guerra. Sou um cara cheio de influência. Eu sou Raul Seixas”, disse ainda. O biógrafo anota que não ficou mágoa entre os dois, que chegaram a fazer show juntos. E lembra de uma apresentação nos anos 2000, em Fortaleza, em que Belchior fala com carinho de Raul e canta trechos de Metamorfose ambulante e Maluco beleza. Mesmo a “briga” com Silvio Brito era “completamente insincera”, diz Jotabê, apenas “uma maneira de aquecer um circo de animosidades fictícias”.

Na conversa com o público, o jornalista disse que Raul “chama para a briga”, e que isso custou caro. “Ele se indispôs com diversos executivos de gravadora”, observa. “Algumas vezes, porque insistia em manter o controle total sobre os músicos que levava para os estúdios. Ficou fulo com um produtor, Gastão Lamounier, que tentou tirar Rick Ferreira de cena na gravação do disco Mata Virgem.”

Ao compositor Roberto Menescal, ele desenvolveu a teoria dos artistas “número 1”, protagonistas, incluindo-se entre eles. “Raul, embora fosse de natureza doce e agradável, sacou que era preciso ter alguma dose de arrogância e capacidade de blefe para se manter na crista da onda do showbiz. Essa foi uma de suas primeiras tiradas nesse sentido, mesmo se referindo a um amigo e ídolo, Sérgio Sampaio”, conta o biógrafo.

Para Jotabê Medeiros, a obra de Raul Seixas se sustenta, de certa forma, em afirmação e negação constantes. “Raul era um radical do rock’n’roll. Fez do arcabouço ético do rock’n’roll o seu modus vivendi, o seu estar no mundo. Mas não tinha o menor problema em dar um pinote nessas fundações, gravar um tango como Piazzolla, um reggae como Bob Marley, um baião com Gonzaga. Tensionava as coisas filosoficamente e daí escrachava tudo com um Rock das Aranha. Era como se forçasse limites da própria noção de pureza, ‘sujando’ as coisas com uma apreciação sarcástica e espirituosa da vida e da condição humana.”