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Rede de empatia

Espetáculo com teatro e jogo põe nas mãos da plateia destino de mulheres vítimas da violência

Encenada pelo grupo feminista 'Mal-Amadas: Poética do Desmonte', peça-jogo será apresentada no teatro da Faculdade de Medicina da USP neste sábado, às 19h30. Evento é gratuito
Publicado por Clara Assunção
10:59
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Divulgação

Jogo no qual se baseia a peça, tem como intuito fazer com que o outro entenda o contexto e os dilemas que estão postos sobre a mulher vítima de violência doméstica

São Paulo – Antônia, Margarida, Rosa, Carina e Carmen tiveram suas vidas atravessadas pela violência doméstica, mas podem agora refazer seus caminhos, a depender das escolhas dos espectadores. Essa é a proposta da peça-jogo Vulvar (“No lugar dela”), do grupo teatral Mal-Amadas: Poéticas do Desmonte, em cartaz neste sábado (9), às 19h30, no teatro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

O espetáculo, que encerra a Semana da Diversidade da instituição, faz um convite de reflexão ao público, colocando-o no palco da vida real, onde cenas de agressões físicas, psíquicas e verbais são parte do enredo das mulheres da ficção, mas também das Antônias, Margaridas, Rosas, Carinas e Carmens da realidade que, só entre janeiro e novembro do ano passado, foram estimadas em 68.811, contabilizando apenas os casos veiculados pela imprensa brasileira

Inspiradas no jogo “No lugar dela”, que integra a pesquisa Atenção primária à saúde e o cuidado integral em violência doméstica de gênero: estudo sobre a rota crítica das mulheres e crianças e redes intersetoriais, as histórias encenadas são na verdade parte do retrato dessa vida real. É a partir das mulheres atendidas, nos últimos 15 anos, por integrantes do grupo de pesquisa do ambulatório do Centro de Saúde Escola do Butantã, Conflitos Familiares Difíceis (Confad), que se narra a violência intrafamiliar e as possibilidades para a ruptura desse ciclo. 

A resposta, quase que comum, que as mulheres traziam sobre a violência na qual sofriam chamou a atenção da equipe que, em 2013 e 2014, com apoio de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres decidiu investigar a integralidade do cuidado à saúde da mulher vítima de violência doméstica, que era atendida pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), tentando visualizar o percurso dela antes, durante e depois de identificada a violência. 

Foi quando o grupo de pesquisa percebeu que tanto as redes informais, da família, amigos e trabalho, por exemplo, como as formais, de saúde, delegacias de defesa da mulher, defensoria públicas e centro de referências, falhavam em atendê-las, dando o norte do estudo: a rota que é crítica. 

“A rota é o percurso da mulher e a rota crítica é porque as redes têm muitas falhas”, destaca uma das coordenadoras da pesquisa Ana Flávia Pires d’Oliveira, chamando atenção para os serviços do Estado. “Os profissionais ainda não sabem direito o que fazer com esse tema, ainda culpabilizam e vitimizam duplamente a mulher, conhecem pouco a rede especializada e, se conhecem, desconfiam muito dela. Eles têm introjetada a mesma cultura (machista) da nossa sociedade, então às vezes não dão informações direito, tratam diferente se a mulher for negra ou branca, dependendo do extrato social. E é também uma resposta inadequada pela falta de serviços”. 

Diante dessa “rota crítica”, a resposta que Ana Flávia, que é também professora do departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), encontrou para parte dessas violações está no jogo Zus Zapatos, que conheceu na Nicarágua, baseado no In her shoes, do Coletivo de Mulheres de Boston, nos Estados Unidos. Inspirado nesses materiais, o grupo de pesquisa adaptou as propostas para o cenário brasileiro, formulando o “No lugar dela”. 

Reprodução

É dentro desse jogo que os profissionais da rede de serviços voltados ao atendimento de vítimas da violência, encarnam de forma lúdica a história dessas mulheres, simulando o percurso delas pelas estações – como são chamadas as esferas sociais da vida – com intuito de que esses profissionais entendam as limitações que lhe são particulares, mas também das mulheres. “A ideia principal do jogo é perceber que a mulher não está no vácuo, mas em um contexto, e as decisões e ações delas são, de alguma forma, fortemente afetadas pelo que pensam e as respostas que ela tem da família, da comunidade e dos serviços”, explica a pesquisadora. 

Desde então, o jogo vem sendo aplicado para os profissionais da saúde, da assistência social aos juristas, como defensores públicos e juízes. “O grande impacto é se colocar no lugar da mulher e compreender que as decisões que elas tomam são decisões muito difíceis de serem tomadas, compreender porquê as mulheres não vão para a delegacia como primeira alternativa para lidar com essa situação, compreender as dificuldades que elas têm no uso dos serviços e a necessidade que a gente tem de melhorar”, observa Ana Flávia sobre o jogo que tem sido uma forma de aproximar os contextos sociais fortemente separados por uma série de desigualdades.

“A questão é que eles perceberem que o tipo de orientação que eles dão, bastante prescritiva do caminho que a mulher deveria seguir, muitas vezes não se aplica àquela mulher por questões independentes da vontade dela. E que eles precisam ouvir melhor a mulher e as suas condições para adequar as respostas às necessidades das mulheres e não querem adequar as mulheres às respostas pré-formatadas da rede”, afirma. 

O jogo vai ao teatro: virou arte 

Em 1992, na Casa de Apoio Beth Lobo, da prefeitura de Diadema, na região do Grande ABC, mulheres que eram também vítimas da violência doméstica fundavam o Grupo Mal-Amadas: Poética do Desmonte que agora, 27 anos depois, ganha os palcos mais uma vez com a peça-jogo Vulvar “No Lugar dela” encenada para “desmontar esse sistema que foi forjado para submeter, dominar e explorar as mulheres”, como destaca a dramaturga Marta Baião, responsável pela adaptação da peça. 

Marta, que havia sido convidada pelo grupo de pesquisa para formular a identidade visual do jogo, ficou impressionada com as histórias das mulheres e trouxe em forma de arte o enredo de algumas das oito personagens que fazem parte do jogo do grupo de pesquisa, nascendo Vulvar – “No lugar dela”. 

“É uma peça que tem uma parte totalmente cênica e no meio dela a gente trabalha a questão do jogo. São divididos em grupos, optando pela personagem, por exemplo, tem Antônia, Carmen, Rosa, são personagens mulheres e no meio da peça convidamos a plateia para jogar, e ela escolhe com qual dessas histórias, narrativas, gostaria de pegar. E ela vai jogando o caminho que pode ser percorrido. Conforme o caminho que elas escolhem, a mulher pode morrer, por isso que é uma rota crítica, porque muitas vezes o serviço público, o poder público, não atende corretamente as mulheres”, ressalta Marta.

Reprodução

A peça-jogo foi montada pela companhia feminista e “artivista” com o prêmio de fomento Zé Renato e tem ganhado os palcos despertando uma “rede de cumplicidade, de solidariedade”, de acordo com a dramaturga. “Eu me coloco no lugar dela. Ninguém pode julgar uma mulher que sofre violência, principalmente porque a violência sexista, patriarcal, ela está em todas as classes sociais”, avalia.

Em cartaz neste sábado de forma gratuita e aberta ao público, a peça-jogo denuncia que os serviços de atendimento às mulheres demanda por maiores investimentos, à luz da Lei Maria da Penha, que “fala em um rede de proteção treinada com foco nos direitos humanos, gênero e raça, para um mudança de cultura mesmo”, como destaca a professora Ana Flávia. Mas não só.

O espetáculo é também um convite para ver a importância das universidades e da produção de pesquisas acadêmicas. “Esse jogo só foi possível porque houve um edital do CNPq e da Secretaria de Política das Mulheres, ele é produto de um trabalho intensivo, não só meu, mas de uma equipe, e que mostra como a pesquisa, a investigação, a extensão e o ensino estão articulados, são pilares da universidade que pode produzir conteúdo de interesse social, que melhore a sociedade, que contribua para ela”, assegura a pesquisadora.