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Imorrível

Com novo álbum, Di Melo afirma: ‘Estou no meu melhor momento. Cantando, fazendo show’

Cantor ícone da black music brasileira esteve no programa 'Hora do Rango'. Falou sobre a vida, a carreira e o novo disco, 'Atemporal'
Publicado por Luciano Velleda, para a RBA
13:55
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Wanezza Soares

O álbum novo, "Atemporal", lançado em parceria com a banda francesa Cotonete, levou Di Melo a fazer shows na Europa e no Brasil. "Meu trabalho tá indo de boa, está se disseminando, estou muito feliz"

Porto Alegre — Di Melo está de volta. O homem que ganhou a alcunha de “imorrível” depois de ter sido dado como morto, o cantor cujo álbum, lançado em 1975, hoje custa mais de € 500, o ícone da black music que se decepcionou com a própria carreira e sumiu por anos, está novamente na ativa. E com álbum novo na praça, intitulado Atemporal, gravado em parceria com a banda francesa Cotonete.

O encontro com os músicos franceses, como quase tudo na vida desse recifense, foi pouco usual. A banda estava no Brasil, com shows no Rio de Janeiro e em São Paulo, e manifestou o desejo de conhecer Ed Motta ou Di Melo para, quem sabe, realizar um trabalho conjunto. Foi então que alguém da produção disse ter o contato da esposa de Di Melo, a Dona Jô.

“Estávamos em casa, de repente toca o telefone e ela diz: ‘É trote’”, recorda Di Melo, no programa Hora do Rango, da Rádio Brasil Atual. Após insistência da produtora, perceberam que não se tratava de pegadinha e havia mesmo uma banda francesa querendo conhecê-lo. Um encontro foi marcado na Vila Madalena, zona oeste da capital paulista.

“Levei a Gabi (filha), levei o violão, comecei a tocar pra eles e acredite se quiser: um monte de homem da banda inteira chorando emocionado, foi uma loucura”, conta Di Melo. A partir dali, houve a proposta de gravar o álbum. “Aí ninguém mais dormiu nem comeu, se ficou só em cima desse disco.” E assim o álbum foi gravado na Vila Madalena e depois finalizado na França.

De boa

O programa abriu com a música Papos Desconexos, do disco recém lançado. Ao falar da participação da filha adolescente na canção A.E.I.O.U, Di Melo destaca que ela canta também em outra faixa, Canto da Iara, composta em parceria com o amigo Waldir da Fonseca, já morto. “Temos algumas coisa maravilhosas, muitas músicas boas”, recorda, com certa emoção ao falar do amigo e parceiro de composição, algumas ainda inéditas. “Tenho uma música fantástica com ele, Diuturno, que é de parar o trânsito. É muito louca. Que Deus o tenha.”

À vontade no estúdio, Di Melo pega o violão e toca ao vivo a música Diuturno, gravada no álbum Imorrível, com participação de BNegão. “O BNegão é meu irmão, um dos caras mais incríveis que conheço na música brasileira. É um cara inteiramente na dele, não interfere no trabalho de ninguém. Não tem rei na barriga.” 

Di Melo diz estar feliz. O álbum novo com a banda francesa o levou a fazer shows na Europa e no Brasil. Estar novamente nos palcos parece lhe fazer bem. “Meu trabalho tá indo de boa”, comenta. “O trabalho está indo, está se disseminando, estou muito feliz com as coisas que estão acontecendo. Mesmo porque não é sucesso pago. Tem muita gente que faz sucesso, vai lá e dá dinheiro pra todo mundo”, afirma, se referindo, implicitamente, ao famigerado “jabá” no mundo da música. “Quando o cara para de dar a grana, acabou o sucesso. Então a gente vai devagar, pausadamente, fazendo o que tem que ser feito. Degrau por degrau.”

Atemporal tem ainda a canção Linhas de Alinhar, composta em parceria com Geraldo Vandré, um artista a quem Di Melo se derrama em elogios. “Teria que montar um novo dicionário para exprimir o que é esse cara. É uma das maiores inteligências que conheço e uma pessoa muito agradável.”

O sumiço

Extrovertido, Di Melo não gosta de revelar a idade e brinca que estava na Santa Ceia. “Não apareci porque estava fotografando”, fala, tirando onda. O bom humor, entretanto, dá lugar a uma ponta de tristeza e ressentimento quando lembra da carreira nos anos de 1970. Naquela época, seu disco Kilario, lançado pela EMI-Odeon, fazia grande sucesso, ao mesmo tempo em que outros artistas brasileiros também vendiam muito, inclusive gravando canções compostas por Di Melo.

“Eu tinha música no disco do Jair Rodrigues que vendia que nem banana em feira”, lembra, se referindo a canção Paspalho. Conta que saia muito com Jair Rodrigues logo que chegou a São Paulo, por volta de 1968. “A mãe dele me considerava como filho. Era uma pessoa simples. A beleza caminha junto com a simplicidade. Quando você atinge isso, você entra em estado de graça e é mais fácil de estar próximo da felicidade.”

Afirma que a música no disco de Jair Rodrigues tocava a exaustão, com muitos álbuns vendidos, um sucesso absoluto. Ao mesmo tempo, Wando também arrebentava com um disco que continha a canção Volta, outra composição de Di Melo. “E eu não recebia absolutamente nada, fui sacaneado o tempo todo.”

Quando o apresentador do Hora do Rango, Osvaldo Colibri, toca no programa a faixa Volta, Di Melo se emociona novamente. “O Wando era muito amigo meu, Jair também. Sou movido a sensibilidades. Tudo o que mexe com arte, me move. Faço tudo com carinho, esmero, uma preocupação grande em fazer música de qualidade.”

De volta às lembranças dos anos de 1970, diz que, certa vez, foi na gravadora receber um trimestre de direitos autorias e lhe pagaram míseros 11 cruzeiros. “Fui assaltado na cara dura e, a partir daí, comecei a perder a vontade de fazer as coisas. Me senti assinando um atestado de imbecil”, reclama. Para ele, sair da gravadora e ficar livre para “tocar a vida” foi, naquele momento, benéfico. “Fiquei decepcionado com tudo. Passei a não levar o meu trabalho a sério e também não me levar a sério. Fui pra praia, fui curtir, mas nunca parei de criar”, afirma, citando ter feito até hoje mais de 400 músicas.

Naqueles anos de desilusão com a carreira, Di Melo se apegou a pintura, outra paixão, e seguiu escrevendo e tocando em pequenos shows. Se o dinheiro não recebido por seus direitos autorais nos anos de 1970 é uma lembrança desagradável, bem diferente é recordar dos músicos com quem gravou seu clássico álbum de 1975, com participação de Hermeto Pascoal, Claudio Beltrame, Eraldo do Monte, Luis Mello, entre outros. “Era um time fantástico, não era brincadeira mesmo esse som. Onde tocava, explodia. Saia de uma rádio e estava noutra.”

O retorno

Di Melo se refere ao encontro com Dona Jô, no ano 2000, como um momento importante na sua vida, um marco do seu retorno as gravações. “Estou no meu melhor momento. Cantando, compondo, fazendo show, viajando. Se marcar comigo, eu furo. Agito 72 horas por segundo, não é brincadeira”, comenta, sempre bem humorado.

A retomada na carreira teve como impulso o documentário Di Melo – O Imorrível, lançado em 2011. Sumido durante décadas, o filme revelou que o cantor estava bem vivo, se “virando” vendendo suas pinturas em São Paulo. De acordo com Di Melo, a estória da sua morte deve-se a um acidente de moto que sofreu e, por ter “saído de cena”, nasceu então a lenda. “Ficou a estória de morreu, morreu, morreu. Fiquei todo ‘entrevado’ durante uns seis meses.”

Produzido por Alan Oliveira e Rubens Pássaro, o documentário foi premiado no 40º Festival de Cinema de Gramado. Renascia Di Melo e, na sequência, foi lançado o álbum Imorrível“Como deu certo o filme, por que não fazer o disco?”, questionou Di Melo. “Nós bancamos tudo, porque não tinha o ‘José do Patrocínio’”, diz ele, reconhecendo que o documentário impulsionou a retomada da carreira.

Nos palcos novamente, em plena divulgação do disco novo, depois de algumas idas e vindas Di Melo fala a data de nascimento: 22 de abril de 1949. “Estou inteiraço, melhor que muito gatinho de 17 anos. E as gatinhas gostam do cantor porque ele segura a onda.”