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Senzala Hi-Tech: música que pensa um futuro em que as pessoas negras “existam”

Inspirado pelo conceito do afrofuturismo, grupo acaba de lançar o álbum "Represença" e foi atração desta semana do "Hora do Rango"
Publicado por Luciano Velleda, para a RBA
16:10
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Divulgação

Da esquerda para a direita: Junião, Minari, MC Sombra e Diogo Silva formam a banda Senzala Hi-Tech, fazendo hoje, o hip-hop de amanhã

São Paulo — Pensar um futuro em que pessoas negras “existam”. Do ponto de vista inicial,  esse é o conceito do afrofuturismo, termo cunhado e teorizado nos Estados Unidos na década de 1990. A ideia tem se espalhado como pólvora no Brasil e no mundo, principalmente no mundo das artes, impulsionando a releitura das tradições e do conhecimento africano. Reconhecer o passado para entender o presente e projetar o futuro. Embalado por essa corrente filosófica, a banda Senzala Hi-Tech acaba de lançar o primeiro álbum, Represença.

“A gente estuda muito nossas músicas, evita cair no modismo pra ganhar ‘like’, esse não é nosso objetivo. Nosso objetivo é conscientizar as pessoas, que elas possam se divertir, mas que tenham a propriedade sobre seu corpo, sobre problemas passados que estão mais atuais hoje. A gente precisa entender a história do Brasil para poder entender o contextual atual. Esse governo de hoje não é por acaso, não é a primeira vez que acontece. Ele não é de agora”, explica o cantor e compositor da Senzala Hi-Tech, Diogo Silva, no programa Hora do Rango.

Apesar de lançar só agora o primeiro álbum, o grupo está junto há 10 anos, tempo necessário para se fortalecer e amadurecer musicalmente e politicamente. “Entender quais são as mazelas do nosso país, e como que nós podemos conversar sobre elas”, avalia Diogo Silva, ex-lutador de Taekwondo, medalha de ouro no Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro, e quarto colocado nas Olimpíadas de Atenas (2004) e Londres (2012). Em Atenas, aliás, após perder a semifinal, colocou uma luva preta e ergueu o punho direito, repetindo a histórica cena dos atletas americanos John Carlos e Tommie Smith, nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968.

Essa veia politizada é a alma da Senzala Hi-Tech. Um posicionamento que, de antemão, Diogo Silva faz questão de destacar ser apartidário. “A corrupção pra nós é ambidestra, está em todos os lados. Não defendemos partido nenhum, defendemos as pessoas, a justiça social. Essa é a nossa mensagem nas músicas, e vamos colocando nossas origens de matrizes africanas, os tambores…” Tambores que o grupo mistura com o som digital da batida do hip hop e outras interferências eletrônicas.

Para o ex-atleta olímpico, cantor e compositor, o disco Represença segue o conceito do afrofuturismo ao querer dar protagonismo àquilo que o negro sempre fez, porém nunca foi reconhecido e, pior, ainda foi creditado para outras pessoas. “Estamos sendo donos do nosso próprio trabalho, e isso é extremamente forte.” A banda funciona como uma empresa, contrata profissionais negros e faz o “black money” circular. “Os judeus criaram isso, os maçons criaram isso, o Rotary (Club) criou isso, por que nós não criamos ainda?”

O empoderamento do povo negro e a valorização da cultura afro se materializa, na música da banda, no som dos tambores africanos. Um instrumento que, ele explica, criou novas vertentes musicais dependendo do lugar. No Brasil, por exemplo, nasceu o samba, em Cuba veio a salsa e, na Jamaica, o reggae. “Em cada lugar que os povos africanos foram se espalhando, a origem dos tambores é fundamental pra sua cultura musical.”

Para o MC Sombra, é justamente por causa do conceito que o grupo tem transitado por diferentes lugares, colaborando para a construção do futuro do hip hop. “O futuro do rap e da cultura hip hop é agora, com a inclusão digital que vem acontecendo, com a expansão cultural de outros países para dentro da trilha sonora do rap, expandindo conhecimento pra várias pessoas no mundo todo. Isso é o futuro do rap, que já está acontecendo.”

Cartunista, jornalista e responsável pela percussão da Senzala Hi-Tech, Junião vai além. Ele enfatiza que muitas pessoas estão começando a reconhecer o continente africano como produtor de conhecimento. “A gente sempre olhou para a Europa, para os Estados Unidos, e achou que a África só fornecia corpos, mão de obra. Hoje, depois de muita luta, a gente vê que a África sempre foi produtora de conhecimento. Não só no rap, como na literatura, nas artes, em geral, na filosofia, sociologia.”

No Hora do Rango, o grupo tocou ao vivo a música Bozolândia, cuja letra surgiu no dia da posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Bozolândia fala da transição de governo, desse atual sistema que já de longa data a gente faz parte e, a cada dia que passa, a gente vem tentando ter mais conhecimento sobre ele e passar adiante para as pessoas”, explica o MC Sombra. “É o governo que tem a maior descredibilidade do mundo. Uma vergonha para os brasileiros, para o nosso país, e principalmente para quem deu o voto de confiança para esse governo.”

Outra música apresentada ao vivo foi Na Terra da Pilantragem, cuja inspiração dispensa explicações. “São planos estratégicos de surrupiar a nação. Eles apontam que a culpa é nossa: ‘Não vai aposentar porque está ficando velho, morra mais cedo’”, ironiza Diogo Silva.

“Qual é a diferença entre o rap e o samba
De cartola a mano brown e chico de holanda
Do pobre ao rico, do branco ao crioulo
Quando o tamborim bate o chão até pega fogo
Desde a tia gorda que faz a fejuca
Até a princesinha que mora na tijuca
O barato é quente, o corpo sente
Uma vontade de dançar que até a sandália treme
Pra lá ou pra cá, com giro ou sem giro
Vamos nessa pegada hi-tech fechou contigo”

Trecho da música Pegada do Vampiro, do álbum Represença

O poder da informação

Se o afrofuturismo visa resgatar e valorizar a cultura afro para projetar um futuro para o povo negro, Diogo Silva pondera que ideia semelhante serve para os brasileiros que ainda desconhecem a história do país. E sem conhecer o passado, não se compreende o presente. Como exemplo, o cantor e compositor diz que as pessoas não lembram as mortes de indígenas causadas pela ditadura durante a obra de construção da rodovia Transamazônica. Uma ideia que hoje volta à tona pela mente de Bolsonaro.

“Hoje quando ele troca o diretor do Inpe, todas as pessoas que desde os anos 70 estão aqui pra proteger as matas do nosso país, ele substitui com o plano de abrir uma nova Transamazônica. Então, se a gente não entende o fator histórico do nosso país, acha que isso é de agora, é novidade, mas não é”, afirma.

Falsas novidades estimuladas, entre outros caminhos, pelo modo como a informação circula atualmente na sociedade. Um mundo em que a mentira, a fake news e a manipulação da informação nas redes sociais ganha espaço a cada dia, como mostra o clipe da música Em transe, ao abordar a suposta inclusão digital no Brasil e no mundo.

“Cada dia a gente tem pensado menos na informação que recebe, e repassado mais. E não se dá conta”, arremata o beatmaker Minari. Informação que, para a Senzala Hi-Tech, é também o caminho de construção de um futuro possível.