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Outro lado

Pianista, a faceta desconhecida do filósofo Vladimir Safatle

Acompanhado da cantora Fabiana Lian, ele acaba de lançar o álbum "Músicas de Superfície", composto e gravado há 25 anos
Publicado por Luciano Velleda, para a RBA
17:10
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Reprodução/TV Cutura

Safatle compôs trilhas sonoras para o teatro. Em 2015, recebeu o prêmio Aplauso pelas composições em Caesar

São Paulo — O destino profissional de Vladimir Safatle parecia ser a música. Nascido no Chile, em 1973, durante o exílio dos pais, veio para o Brasil no mesmo ano, após o golpe contra o presidente Salvador Allende. Na capital federal, começou a estudar piano, ainda criança. Mais tarde seguiu o aprendizado em um conservatório.

No início dos anos de 1990, quando se mudou para São Paulo, o plano era ingressar numa faculdade de música. “Era o caminho natural. Eu tocava piano desde os 5 ou 6 anos, então tinha isso no horizonte. Só que aí acabei indo fazer filosofia, mas a música sempre esteve muito presente”, recorda Safatle, durante participação no programa Hora do Rango, na quarta-feira (3). 

Ao lado da cantora Fabiana Lian, o pianista e filósofo acaba de lançar o álbum Músicas de Superfície. Com composições gravadas entre os anos de 1994 e 1998, as canções permaneceram desconhecidas do público por longos 25 anos. Na ocasião, a dupla fez dois shows, na Funarte e no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (Mube). “Na época, a gente não sabia muito para onde enviar (o CD). E era um modelo muito fechado em algumas gravadoras, não é como agora que você coloca no Spotify e tem muito mais liberdade neste sentido”, recorda.

Naqueles anos, os estudos na Faculdade de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e o desejo de se dedicar a outras áreas do conhecimento o afastaram do piano. “Música é uma atividade muito conflituosa”, pondera Safatle, ao lembrar da grande dedicação exigida de um instrumentista, com muitas horas diárias de treino. Depois, a decisão de fazer doutorado na França afastou-o ainda mais dos destinos da gravação feita com Fabiana Lian.

“Parei um tempo de fazer (música), entrei em crise. Até acertar um outro plano de produção demorou, mas voltei uns tempos atrás.” Esse retorno teve início pelo teatro, ao compor as trilhas sonoras para as peças Leite Derramado e Caesar. Por essa última recebeu o Prêmio Aplauso, em 2015, de Melhor Trilha Sonora Original. 

“E também entrei em crise com o sistema tonal e a forma canção. Falava: ‘não era isso que tem que ser feito’. Demorei até conseguir achar um outro lugar e até acabei fazendo um outro CD que vai ser lançado, com coisas mais atuais”, explica. O segundo álbum sai em breve pelo selo Sesc. “Hoje entendo o que era esse trabalho, demorou 25 anos para entender.”

Encontrando brechas

Com 10 composições, Músicas de Superfície representa uma espécie de “exploração” da estrutura do piano acompanhado para voz. O modo de acompanhamento e arranjo não segue o modelo tradicional da canção. No disco de Safatle e Fabiana, piano e voz se equivalem, e as letras são interpretadas pela fonética e não pelo sentido das palavras.

O resultado do trabalho é consequência do que Safatle define como “ocupar interespaços”. Segundo o filósofo e pianista, há duas maneiras de “produzir diferenças”. Uma é mudar de plano, o que na música pode ser sair de um sistema e ir para outro. “Você sai do sistema tonal e vai para o sistema dodecafônico ou o sistema serial, vai pra outro lugar, outra organização”, explica, na linguagem técnica de músico. 

A outra maneira de “produzir diferenças” é “produzir deslocamentos” ou “ocupar interespaços” que antes pareciam não existir. Safatle dá como exemplo Astor Piazzolla, que ocupou o espaço entre o tango e o jazz, uma fusão que parecia não haver até então. “Você vai ocupando esses espaços vazios com deslocamentos, às vezes mínimos, mas que mudam muita coisa. E era isso que a gente estava procurando na época, pegar essa forma canção, com toda sua gramática, e empurrá-la pro lado, tentar juntar alguma outra coisa a mais, tirando um pouco de sua referência natural”, analisa o filósofo pianista.

A decisão de tirar as 10 músicas compostas nos anos 1990 do anonimato veio com o tempo. Junto com Fabiana Lian, ambos foram se dando conta de que não fazia sentido manter escondido um trabalho que já estava gravado. “Era o máximo da incompetência… precisávamos dar um fim pra essa história”, conta, entre sorrisos. “E agora a gente lançou.”

Safatle relata que a proposta do álbum era justamente “quebrar” a forma tradicional de piano e voz ao colocar o instrumento e a voz no mesmo nível. “Têm momentos em que você está ouvindo uma estrutura de contraponto. Têm músicas em que não posso prestar atenção na Fabiana, se eu começar a ouvir, não consigo mais fazer. A ideia era essa, a de tirar as coisas do lugar. Porque fazer uma canção, pura e simplesmente, era uma coisa meia enfadonha, eu achava. Porque tem gente que faz muito melhor e não era isso que eu queria”, reconhece o filósofo e, agora, também para o público em geral, o pianista Vladimir Safatle.